Bolsas batem recordes no mundo, mas otimismo pode ter fôlego curto no Brasil

Crescimento econômico global (o FMI prevê 3,6% para o PIB global), juros baixos e inflação sem força para subir nas principais economias são os motivos que fazem com que as principais bolsas de valores no mundo venham batendo recordes de alta, ou estejam próximo de patamares históricos, nesse início de ano. O Ibovespa renovou nesta segunda-feira o recorde histórico pelo quinto pregão consecutivo, os índices americanos também vêm rompendo marcas históricas, ao passo que as bolsa na Europa estão próximas dos seus patamares mais elevados.

No Brasil, no entanto, essa calmaria pode durar só até o fim do mês. Marink Martins, consultor da corretora MyCap, observa que cenário favorável atual teve o impulso importante da reforma tributária implementada por Donald Trump, nos EUA. Embora seus efeitos de médio e longo prazo possam ser questionados, no curto prazo não há dúvida de que ajuda a economia e, portanto, os lucros das empresas — os impostos ficarão menores, portanto os ganhos tendem a crescer. Nesta terça-feira, mercado opera perto da estabilidade, com leve recuo.

— O efeito de curto prazo dessa reforma é indiscutivelmente positivo. Além disso, as empresas americanas já vêm em um processo de aumento de lucratividade. É um otimismo em cima de um otimismo — diz Martins.

O Brasil acaba pegando carona nesse otimismo sobre o crescimento global, que também favorece outros países emergentes, uma vez que há ainda um excesso de liquidez no mundo. Como a inflação está baixa na maior parte das grandes economias, os bancos centrais não precisam elevar as taxas de juros, ou podem fazer isso de forma lenta.

No caso do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a taxa está na faixa de 1,25% a 1,50% ao ano. São previstos no máximo três altas em 2018, sendo que em geral cada uma é de 0,25 ponto.

O Ibovespa, que no ano acumula uma alta de 3,9% até dia 8, tem tirado proveito dos juros baixos — a Selic está em 7% ao ano — e da perspectiva de crescimento de 3% da economia para este ano — quanto mais o país cresce, mais as empresas tendem a lucrar, ensina a lógica dos investidores.

Contudo, ausência de notícias negativas no cenário político tem contribuído bastante para a ascensão dos preços dos ativos na Bolsa. Com o Congresso Nacional em recesso, e a disputa eleitoral ainda morna e sem nomes definidos, os investidores podem voltar-se apenas para os sinais, ainda que frágeis, de recuperação da economia.

No entanto, esse calmaria deve passar até o fim do mês, com o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Tribunal regional da 4ª Região (TRF 4). A inquietação continuará em fevereiro, com a batalha do governo de votar a reforma da Previdência no Congresso.

— O Brasil está indo na onda, mas a volatilidade deve subir com o julgamento de Lula, no dia 24, e depois, em seguida, o Congresso retoma os trabalhos — reforça Martins.

Lá fora, a variável de maior risco no horizonte dos investidores é a inflação. Que está baixa, mas cresce de forma lenta nas principais economias. Mas a melhora no mercado de trabalho e as pressões sobre os custos de produção e sobre a própria capacidade de produção tende a jogar os preços para cima nas principais economias. No momento em que os bancos centrais entenderem que o risco de alta inflacionária é concreto, os juros voltam a subir, tirando dinheiro dos mercados de maior risco, as bolsas de valores e os países emergentes.

— A inflação vai aparecer em algum momento. E esse excesso de capacidade também tende a diminuir. E a redução do “hiato do produto” vai causar uma inflação. Assim, quando sair algum dados de atividade que mostrem a economia de algum país central crescendo mais que o esperado, essa preocupação ficará mais latente — diz Rogério Freitas, sócio diretor da Florença Investimentos.

Essa perspectiva, contudo, não significa que os índices das bolsas ao redor do mundo vão despencar de uma hora para outra. Mesmo no Brasil, com as eleições e a incerteza fiscal, a expectativa é que o Ibovespa possa chegar ao menos aos 90 mil pontos ao final do ano, movimento ancorado principalmente no crescimento esperado da economia.

— Essa é uma tendência para a Bolsa, já que o PIB projetado para o ano é maior do que foi o do ano passado. É uma expectativa de que o desempenho no mercado de ações será bom novamente — avalia Ari Santos, gerente de renda variável da corretora H.Commcor.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior