Monthly Archive: September 2015

Tesouro e BC usam arsenal de crise para conter volatilidade

As autoridades monetárias reconheceram a crise brasileira, que tem muito de econômica e tudo de política, ao anunciar duas decisões na segunda, operacionalmente confirmadas no mercado aberto ontem, que podem ter colocado um freio na turbulência crescente das últimas duas semanas – desde que a agência de classificação de risco de crédito Standard & Poor’s (S&P) tirou do Brasil o selo de bom pagador, concedido em 2008.

A mensagem enviada ao mercado pela decisão do Tesouro Nacional, de retomar a oferta de LFT (título indexado à taxa Selic), e do Banco Central (BC), de diminuir a venda temporária de papéis federais com compromisso de recompra em prazos mais longos, foi a de reconhecimento de uma crise que vem provocando a distorção de preços dos ativos financeiros. E, identificado o problema, o desafio seguinte será encontrar a solução.

O leilão extraordinário de LFT nesta terça-feira, com a venda do lote integral de R$ 35,8 bilhões praticamente pelo valor nominal, livre da exigência de prêmio pelos investidores, confirmou a opção do Tesouro de entregar um ativo classificado com risco zero e com garantia de retorno proporcional ao custo do seu financiamento com recursos de terceiros.

Ao indicar aos gestores e chefes de tesouraria que não há restrição a aplicações de alta liquidez e que as lastreadas em dívida pública poderão ser renovadas nos prazos mais curtos já conhecidos – de 1 e 45 dias, com vencimento no pós-Copom -, o BC trouxe algum conforto a profissionais que temem ficar sem alternativa para rentabilizar o dinheiro disponível, o caixa, em meio à crise econômica e política – que passou de difusa a insondável no transcorrer da Operação Lava-Jato.

Focadas especialmente no mercado de câmbio, as intervenções do BC, que vinham fornecendo desde a semana passada dólar à vista em leilões de venda com compromisso de recompra e oferta de contratos de swap para rolagem integral de vencimentos, foram ampliadas pela venda líquida de swaps. Se por um lado, essa oferta persistente de “hedge” (proteção) contra oscilação da taxa de câmbio dá alívio ao mercado, de outro, ela representa um retrocesso no desmonte gradual – muito gradual – do estoque de swaps emitidos pelo BC, superior a US$ 100 bilhões.

A constatação desse retrocesso, reforçado pelo pesado leilão de LFT feito ontem pelo Tesouro, contribui para a manutenção de preços distorcidos no mercado financeiro. A dupla ação do Tesouro e do BC sugere a alguns especialistas que as autoridades monetárias entendem que escapam a seu controle e talvez até influência alguns vetores que contribuíram e contribuem para o atual cenário de crise.

Elevar e manter os fundamentos da economia num ponto ótimo, superar as dificuldades encontradas pelo governo para aprovar medidas que poderiam agilizar o ajuste fiscal e reverter o frágil apoio da classe política à gestão da presidente Dilma Rousseff não são da competência do BC e do Tesouro. A participação de outros atores – mais próximos às articulações e decisões tomadas no Palácio do Planalto – são relativamente mais importantes neste momento.

As operações do BC e do Tesouro, embora sem produzir efeitos na formação de preços dos principais ativos brasileiros, são imprescindíveis tecnicamente para evitar um colapso no sistema financeiro, onde há uma imensa concentração de dinheiro no curto prazo. E quase toda ela representada pelas operações de venda temporária de títulos pelo BC com compromisso de recompra em datas definidas previamente.

Essas operações compromissadas – um instrumento de gestão de liquidez de política monetária – têm um custo elevado para as contas públicas e também para o almejado reequilíbrio fiscal do país, visto pelo próprio governo como pré-condição para um ciclo consistente de crescimento econômico. A remuneração dessas operações, bem próxima ao juro básico, tem impacto direto no cálculo da dívida bruta brasileira, dificultando sua estabilização.

Nesse sentido, é animador o saldo das intervenções feitas ontem pelas autoridades monetárias. O interesse do mercado em adquirir quase R$ 36 bilhões de LFTs, em operação que terá liquidação financeira nesta quarta, ajudará o BC a encerrar setembro com um estoque de compromissadas em torno de R$ 860 bilhões. Tem muito dinheiro aplicado aqui, mas muito menos do que teria se o Tesouro não tivesse intensificado, especialmente no primeiro semestre deste ano, a oferta de títulos para compradores finais, que ficarão com eles até a data do resgate.

O estoque das compromissadas ameaça ultrapassar a marca de R$ 1 trilhão há meses, mas isso não aconteceu. Ao contrário, a orquestração das operações do BC e Tesouro poderão levar a um resultado inédito neste segmento, em 2015. Até agora, este ano é o primeiro desde a passagem de 2013 para 2014 em que o estoque das compromissadas do BC deve se manter em volume financeiro, mês a mês em um mesmo patamar – entre R$ 840 bilhões e R$ 890 bilhões. Em 2014, por exemplo, esse estoque saiu de R$ 660 bilhões em janeiro para quase R$ 900 bilhões.

Duas informações que podem melhorar o humor de especialistas do mercado nesta quarta é a posição do PMDB na Câmara dos Deputados que, na terça à noite, mantinha a posição de não derrubar vetos presidenciais com impacto fiscal, na sessão do Congresso Nacional, marcada para às 11h30 desta quarta-feira, que apreciará e votará vetos remanescentes da sessão passada.

A equipe econômica teme especialmente a derrubada de dois vetos de Dilma Rousseff – o que rejeita o reajuste salarial de servidores do Poder Judiciário em até 70%, dependendo de sua posição hierárquica, e o que impede a correção de aposentadorias e pensões a beneficiários do ISS pelo cálculo que reajusta o salário mínimo. Ambos, se derrubados nesta quarta por deputados e senadores, terão um efeito avassalador no caixa da União. E, sem dúvida, só essa decisão do Congresso poderia precipitar um segundo “downgrade” do Brasil.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Mercado vê mais inflação e economia mais retraída neste ano e em 2016

Os analistas do mercado financeiro veem uma inflação ainda mais alta neste ano e no próximo e elevaram pela segunda semana consecutiva a previsão para o juro básico da economia em 2016, de acordo com o boletim Focus, do Banco Central (BC).

Câmbio mais depreciado e aumento mais intenso nos preços administrados estão por trás da deterioração das expectativas de inflação. Ao mesmo tempo, os analistas esperam uma recessão econômica ainda pior.

As previsões para o aumento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deram um salto. A mediana das estimativas para 2015 saiu de 9,34% para 9,46% de alta. Em 12 meses, avançou de 5,82% para 6,05%. Para 2016, passou de 5,70% para 5,87% de avanço.

Esse movimento segue o aumento da mediana para o dólar ao fim deste ano, de R$ 3,86 para R$ 3,95. A estimativa para o fim de 2016 seguiu em R$ 4. Na semana passada, em meio a um mercado extremamente nervoso com as incertezas no país, o dólar disparou e superou R$ 4,20. A moeda devolveu parte da alta na quinta-feira, após uma atuação conjunta do BC e Tesouro no mercado. Numa atitude incomum, o presidente do BC, Alexandre Tombini, aproveitou a entrevista de apresentação do Relatório Trimestral de Inflação para passar dois recados: o BC vai garantir a funcionalidade do mercado de câmbio e não sancionará o aperto monetário implícito nos contratos de juros.

No Focus, o mercado manteve a expectativa para a taxa Selic neste ano em 14,25%, nível atual, mas ampliou pela segunda semana consecutiva a mediana para o fim de 2016, de 12,25% para 12,50%.

O boletim mostra ainda uma alta adicional na previsão dos preços administrados, que passou de 15,20% para 15,50% neste ano e de 5,91% para 5,92% no ano que vem.

Para os analistas Top 5, a inflação de 2016 vai chegar bem perto do teto da meta, de 6,5% – a mediana de médio prazo das estimativas para o avanço no IPCA saiu de 5,98% para 6,46%. Para este ano, a previsão passou de 9,37% para 9,61% de aumento. Esse grupo não mexeu, contudo, na previsão para a Selic, que ficou em 14,25% e 12,38% em 2015 e 2016, respectivamente.

Atividade

As previsões para a atividade também pioraram no Focus. A estimativa para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano passou de contração de 2,70% para recuo de 2,80% e para o próximo, de queda de 0,80% para decréscimo de 1%. Na quinta-feira passada, o BC estimou que a economia brasileira deve recuar 2,7% neste ano.

A produção industrial também foi revista, de declínio de 6,45% para diminuição de 6,65% neste calendário e de elevação de 0,20% para baixa de 0,60%.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Instituto Moreira Salles: uma aula sobre modernismo

O acervo é extenso e referência para pesquisadores dos campos fotográfico, literário e musical. Só de imagens, são mais de 800 mil, incluindo a coleção Marc Ferrez. Apenas por esse patrimônio, o Instituto Moreira Salles (IMS) no Rio já seria único. Mas o espaço, no Alto Gávea, tem outro elemento de destaque que transcende o tempo e foi deixado de herança pelo banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles para a cidade. A sua arquitetura e o seu paisagismo, da década de 1950, por si só são uma aula sobre o modernismo e o que o estilo pode ter de mais luxuoso.

Ícones como os cobogós monumentais da fachada, a laje ondulada sobre pilares de mármore — que integram o desenho do arquiteto Olavo Redig de Campos — e o painel com as lavadeiras de Roberto Burle Marx são alguns dos (grandes) detalhes que fazem também do local um dos mais importantes centros culturais do país, atraindo de especialistas de todo o mundo a cariocas. Na próxima quinta-feira, a casa completa 16 anos de abertura ao público.

Redig estudou arquitetura em Roma e foi diretor do Serviço de Conservação do Patrimônio do Itamaraty, sendo responsável pelo projeto da Embaixada do Brasil em Washington. O arquiteto projetou a residência aos pés do Morro Dois Irmãos, num terreno cortado pelo Rio Rainha, em 1948. Ela foi inaugurada em 1951.

Por três décadas, os Moreira Salles viveram ali, na Rua Marquês de São Vicente. Uma parte dos bastidores desse período é revelada no documentário “Santiago”, de João Moreira Salles, filho do embaixador, que na produção revive memórias da casa por meio do seu antigo mordomo. Em 1996, foi iniciado um processo de restauro, acompanhado de perto por Moreira Salles (que morreu em 2001).

Coordenadora do IMS no Rio, Elizabeth Pessoa acompanhou o final da obra e diz que o banqueiro sempre refutou a possibilidade de transformar a casa numa espécie de museu da família. Mas queria que o restauro preservasse suas características originais.

— Tenho um respeito muito grande pela casa. Trabalhamos com o mínimo de interferência possível — conta ela, que da sua sala vê macaquinhos e tucanos graças à transparência da casa, integrada ao pátio por brise-soleil e pisos de mármore geométricos que avançam sobre a área externa. — De qualquer lugar da casa, você está vendo o jardim de Burle Marx.

Luiz Fernando Machado, arquiteto no IMS desde o começo da restauração, conta que os famosos cobogós escondem um mistério:

— Até hoje não sabemos como o Redig fez. Os cobogós são geralmente peças quadradinhas, que vão se encaixando. Mas, aqui, eles não têm marca de corte. É possível que tenham sido feitos numa forma, tudo de uma vez — analisa ele, que recorda o banqueiro nas obras dizendo, com um sorriso, “estão destruindo a minha casa”.

Luiz Fernando levou um ano para conhecer todos os detalhes da mansão, que abriga os mesmos banheiros de mármore do passado, portas e janelas com treliças, típicas do modernismo, e um item de design curioso:

— Há a história de que Walther pediu para que as maçanetas (na foto, acima) fossem feitas a partir de um molde da mão dele — diz Pedro da Luz, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ).

Espécies nativas do país

No instituto, há um barulhinho constante de água do rio e da fonte junto ao painel das lavadeiras. A arquiteta Isabela Ono, do Escritório Burle Marx, diz que há um casamento perfeito entre paisagismo e arquitetura. Ao lado dos cobogós, há um jardim geométrico, com texturas e cores que formam uma “pintura viva”:

— O projeto usou espécies nativas como o pau-mulato e o açaí, da Amazônia. Introduzir essas plantas na casa de um embaixador era vanguarda — acrescenta.

O IMS é mantido pela herança familiar e recebe, por mês, mais de 9 mil visitantes. A programação e o acervo podem ser conferidos em www.ims.com.br.

Fonte: O Globo
Foto: Agência O Globo / Guito Moreto
Postado por: Raul Motta Junior

BC pode usar reservas e Selic não sobe

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, indicou que considera a opção de vender reservas internacionais para “garantir que o mercado de câmbio funcione de forma eficaz” e manteve a estratégia de manutenção da taxa de juros em 14,25% ao ano por um bom tempo, a despeito da piora no cenário inflacionário provocado pela crise fiscal.

Num gesto inédito, Tombini abriu ontem pessoalmente a entrevista de divulgação do Relatório de Inflação, para tentar acalmar os mercados, que registravam de manhã novos picos nas cotações do dólar e juros. A decisão do governo e do próprio Tombini partiu de um diagnóstico de que o mercado estava perdido e não organizado. A avaliação inicial é que a estratégia funcionou e o governo conseguiu conter parte da volatilidade.

Segundo fontes da equipe econômica, a falta de parâmetros tem sido o principal motivo por trás dos movimentos considerados excessivos de altas nas taxas de juros e no dólar. O governo não aceita a tese de que há um movimento especulativo em torno da moeda americana. A visão dos economistas do governo é a de que a volatilidade ficou tão grande que se perderam parâmetros mínimos de preços.

O diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu Pereira, subscreveu a mensagem geral de manutenção dos juros, mas não descartou um novo aperto, se a inflação se desviar significativamente da meta ao fim de 2016.

Ele pregou, porém, “calma e discernimento analítico” para separar a volatilidade passageira dos mercados do que afetará de forma perene a inflação. “Discernimento e calma não são nenhuma manifestação de complacência ou de cegueira”, afirmou.

Tombini e Awazu enfatizaram a importância de o governo e o Congresso atuarem para cumprir a meta fiscal. Também procuram argumentar que, assim como a alta do dólar e prêmios de riscos afetam negativamente as projeções de inflação, estão presentes também fatores que atuam na direção contrária, como o grau de ociosidade da economia maior do que o esperado.

O relatório projeta inflação de 5,3% em 2016, ano que se tornou alvo principal da política monetária, acima do centro da meta, de 4,5%. Os exercícios usam como hipótese a cotação do dólar em R$ 3,90 vigente na data de corte de sua redação, no dia 18, e certamente projetariam uma inflação ainda mais alta com a cotação do dólar superior a R$ 4,00 dos últimos dias.

“O BC irá assegurar que mercado de câmbio, nas suas diversas modalidades, funcione de forma eficaz”, disse Tombini. Questionado se o Banco Central cogita fazer vendas de dólares das reservas internacionais, Tombini disse que “certamente todos os instrumentos estão à disposição do BC e estão no seu raio de ação”.

Tombini explicou que, ao avaliar se o mercado está funcionando de forma satisfatória, o BC vai considerar “as questões de liquidez, os eventuais excessos de volatilidade no mercado” e atuar para garantir que “haja compradores e vendedores” de moeda.

Tombini também renovou a estratégia de manter a Selic estável por um período de tempo suficientemente prolongado, num momento em que, devido à crise fiscal, o mercado já embutia uma alta de cerca de três pontos percentuais.

“A elevação da taxas de juros nos mercados não servirá de guia para a condução da política monetária”, disse. Na visão dele, “a recente elevação na taxa de juros reflete o aumento nos prêmios de riscos nos mercados”. Tombini disse ainda que BC e Tesouro atuam de forma coordenada para reduzir volatilidade no mercado de juros

Apesar de enfatizar a estratégia de manutenção da Selic, Tombini, Awazu e o próprio Relatório de Inflação renovaram a mensagem de vigilância da política monetária, que de forma prática se traduz numa ameaça de apertar de novo os juros.

O BC, disse ele, reconhece uma piora no balanço de riscos para a inflação. “A política monetária necessita ancoragem fiscal para assegurar a convergência da inflação à meta de 4,5% ao fim de 2016″, disse Awazu. No relatório, o BC trabalha com a hipótese de cumprimento da meta de superávit primário de 0,15% do PIB em 2015 e de 0,7% do PIB em 2016. E renova o discurso de que a política se desloca para a zona de neutralidade, com chances de se tornar contracionista.

Awazu argumentou, porém, que é necessário sangue frio para identificar os possíveis excessos nos prêmios de risco e, assim, evitar uma “reatividade excessiva” da política monetária.

No relatório, o BC passou a projetar uma queda ainda maior do PIB em 2015, de 2,7%, ante um recuo de 1,6% no relatório anterior. No período de um ano até o segundo trimestre de 2016, a queda prevista é de 2,2%. Em junho, o BC previa queda de 0,8% até o primeiro trimestre de 2016.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul MOtta JUnior

Crise eleva incerteza sobre captação local

A crise política e econômica colocou em xeque os planos das empresas que buscam captar recursos no mercado de capitais local. Até mesmo as operações que contam com algum tipo de benefício fiscal, que vinham mostrando maior resistência enquanto as demais fontes de financiamento locais e externas ficaram mais escassas e caras, começam a ser afetadas.

O sinal de alerta foi ligado após a concessionária de rodovias Autoban, controlada pela CCR, ter pedido ontem a suspensão por 60 dias úteis do pedido de análise de uma emissão de R$ 930 milhões em debêntures de infraestrutura. A emissão da empresa também foi prejudicada pela decisão da Justiça paulista de antecipar o fim do contrato de concessão de 2026 para 2018. A concessionária informou que recorrerá da sentença.

Pelo menos R$ 8,7 bilhões em ofertas de títulos de dívida, como debêntures, estavam em andamento no mercado até o início desta semana. Das nove operações previstas, seis contam com isenção de imposto de renda para pessoas físicas ou investidores estrangeiros, incluindo as de gigantes como Petrobras e Ambev.

Apesar de toda a tensão nos mercados, a demanda dos investidores pelos papéis incentivados não vinha sendo afetada. Entre as operações fechadas recentemente está a da processadora de alimentos BRF, que captou R$ 1 bilhão com uma emissão de certificados de recebíveis do agronegócio (CRA).

A companhia pagará pela dívida juros equivalentes a 96,9% da taxa interbancária (CDI). Para efeito de comparação, a credenciadora de cartões Cielo, que possui classificação de risco semelhante à da BRF, obteve taxa de 105,8% do CDI. A diferença é que a operação da Cielo, realizada em abril, não contou com benefício fiscal.

Para o diretor da área de banco de investimento de uma grande instituição, ainda é cedo para afirmar se outras ofertas incentivadas podem ser prejudicadas pela crise. “A demanda pelos papéis continua boa, mas se nada mudar em algum momento alguém vai dar com a cara na porta”, diz a fonte.

As operações incentivadas ocorrem em um momento de escassez de outros ativos que contam com benefício fiscal, como as letras de crédito imobiliárias (LCI) e do agronegócio (LCA). O principal atrativo é a rentabilidade adicional proporcionada pela isenção de imposto. Tanto que, em várias emissões, o investidor topa “dividir” o ganho com a empresa emissora.

Foi o caso da Vale, que emitiu R$ 1,350 bilhão em debêntures de infraestrutura no fim do mês passado, pagando uma taxa de aproximadamente 0,50 ponto abaixo dos títulos do Tesouro Nacional de vencimento equivalente. Os investidores pessoas físicas responderam por 95% dos recursos obtidos pela mineradora na operação.

Enquanto as emissões de papéis incentivados se mantêm atrativas, nas captações tradicionais, voltadas a investidores institucionais, como fundos de investimento e de pensão, a perspectiva é bem menos favorável. Com a maior volatilidade, os fundos têm preferido manter o dinheiro em caixa, em aplicações com liquidez imediata. Por isso, as emissões devem se restringir a nomes com baixo perfil de risco e por prazos mais curtos.

Para atrair os investidores, as novas emissões podem ter prazos menores, de até três anos. O vencimento médio das captações domésticas já vem caindo e era de 3,8 anos até agosto, de acordo com dados da Anbima, a associação que reúne as instituições que atuam no mercado de capitais. Há dois anos, o prazo das emissões era de 5,8 anos.

Com menos demanda, a expectativa é que em algum momento os custos de captação subam. As taxas ainda não sofreram a correção na mesma magnitude ocorrida no exterior, em especial após a perda da classificação de grau de investimento pelo país, segundo uma fonte de mercado. Como resultado, as taxas estão mais baixas aqui do que lá fora.

Para efeito de comparação, uma letra financeira emitida pela Caixa Econômica Federal, com vencimento em 2017, paga ao redor de 0,85% acima do CDI. Já o título equivalente no exterior, convertido para real, pagava um prêmio de aproximadamente 2,25% no início da semana.

O mercado local deve ser a principal fonte de recursos para as empresas nos próximos meses, segundo o executivo de um grande banco. “A recomendação para as companhias que precisam de recursos para 2016 e 2017 é antecipar as captações” diz o executivo.

Ontem, o conselho de administração da Gol aprovou a emissão de R$ 1,05 bilhão em debêntures pela controlada da companhia, a VRG Linhas Aéreas, antiga Varig. As debêntures terão prazo de quatro anos e remuneração de 132% do certificado do depósito interfinanceiro (CDI). Os recursos serão usados no alongamento da dívida da VRG. Outra forma de financiamento em meio à incerteza são as operações com securitização, na qual a companhia antecipa um fluxo de recebíveis com uma taxa de desconto.

O desenrolar do cenário político seguirá como principal fator de risco para as emissões no curto prazo, de acordo com o diretor de renda fixa de um banco de investimento. O recente rebaixamento da classificação de risco do país pela Standard & Poor’s foi mais um fator negativo, mas teve menos impacto do que as tensões vindas de Brasília, segundo o executivo, que pediu para não ser identificado. “Não houve mudança estrutural no risco de crédito das companhias, mas sim aumento no risco de mercado. O único efeito imediato do rebaixamento pode ser um impacto marginal na demanda”, diz. (Colaborou Camila Maia)

Fonte: Valor Econômico

Postado por: Raul Motta Junior

BC tem muito pouco a fazer para conter o dólar, diz Loyola

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Diante do nível de incertezas econômicas e, sobretudo, políticas, não se pode esperar que o movimento de alta do dólar seja interrompido nos próximos dias. Ontem, a moeda americana terminou o dia valendo R$ 4,053, máxima histórica. Na opinião do ex-presidente do Banco Central (BC) e atual sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, embora já haja indícios de que a forte e rápida desvalorização cambial mostre algum “overshooting” (uma reação exagerada), não existe no horizonte elementos que possam provocar uma reversão do movimento. Isso porque o câmbio está refletindo a insegurança dos investidores com a continuidade do governo da presidente Dilma Rousseff, com a questão fiscal e os riscos de novo rebaixamento do rating soberano. E não parece haver uma solução para nenhuma dessas questões no curto prazo.

Loyola evita fazer previsões para o câmbio. Ele diz que, em momentos de “quase pânico”, como o atual, os preços podem sofrer exageros. E, ainda que voltem, “o que parece claro é que aquele tempo de câmbio apreciado não se coloca mais.” Diante desse quadro, o Banco Central tem muito pouco a fazer. O mais recomendado é que ele atue de forma prudencial, para evitar que esse movimentos leve a um risco financeiro maior. Leia os principais pontos da entrevista.

Valor: O que provoca a disparada do dólar? Há especulação, busca por proteção, saída de recursos?

Gustavo Loyola: É um reflexo da exacerbação das incertezas. O mercado não consegue extrair hoje um cenário de futuro. O mercado está muito inseguro com o que vai acontecer, nem tanto na economia, mas principalmente na política. A questão da continuidade do governo da presidente, a questão fiscal, como o governo vai lidar com essas ameaças de rebaixamento de rating… Enfim, há uma conjugação de muitos vetores negativos que deixa o mercado bastante nervoso. A tendência é todo mundo sair do risco, o chamado “risk-off”, processo que se auto-acelera porque as pessoas veem o comportamento dos ativos e veem que o risco está aumentando. E isso leva ao “overshooting”, a um movimento exagerado dos preços que, em algum momento, reflui um pouco.

Valor: Esse movimento já é um “overshooting”?

Loyola: Eu acho que sim. É um movimento muito forte de um pregão para o outro. Se você olhar de forma mais fria, será que as coisas pioraram tanto de um dia para o outro? Então, eu acho que pode ter um overshooting. Mas o que a gente não pode dizer é que parou por aí. Ninguém pode afirmar que o câmbio não irá continuar se depreciando nos próximos dias. A verdade é que os ativos brasileiros têm ficado muito baratos e, em algum momento, mesmo que se confirme a perda do grau de investimento e desde que não haja muito agravamento da questão política, você possa ter uma melhora ou uma calma maior do mercado cambial. Mas isso, evidentemente, está cheio de “ses”. O que está movendo o mercado é a dificuldade de ancorar uma expectativa. Quando parte do mercado começar a achar que tem uma saída, então vai aparecer vendedor de dólar, comprador de juros. Os preços começam a voltar para um lugar mais normal. Mas é difícil dizer se esse processo está encerrado.

Valor: Depois de atingir os R$ 4,00, é possível imaginar um novo alvo para o câmbio?

Loyola: Difícil falar em R$ 4,00, R$ 4,50… é a ilusão dos números inteiros. Qualquer número, em um processo de quase pânico, pode ser atingido. Mas o que parece claro é que aquele tempo de câmbio apreciado não se coloca mais. Evidente que o dólar pode voltar um pouco, mas não para aqueles patamares tão baixos como antes. Acho que estamos no olho do furacão, com o mercado reagindo fortemente às incertezas desta semana. É aquela situação em que as coisas não ficam como estão: ou elas melhoram ou elas pioram.

Valor: E o que o Banco Central pode fazer?

Loyola: Muito pouco. O BC tem que ter uma atuação mais coerente, dando liquidez, fazendo seu trabalho de sempre. E, se o câmbio ameaçar a inflação, o BC pode agir com juros. Mas é preciso ter cautela porque, com a economia muito deprimida, não é algo tão óbvio assim. Ele tem que trabalhar para que esses movimentos não levem a um risco financeiro maior, como falta de liquidez, uma volatilidade muito excessiva, essas coisas prudenciais. Mas o BC tentar tapar esse dique com o dedo, não dá, não tem como.

Valor: Neste momento, com tantas incertezas, o senhor vê mais risco de o estrangeiro sair do país ou ele está esperando a oportunidade para voltar a comprar?

Loyola: Acho que, a não ser que haja um risco político muito grande, não vejo hipótese de saída forte no momento. Mas é algo com que a gente tem sempre que ter cuidado. O câmbio flutuante tem essa vantagem. É um mecanismo de ajuste muito poderoso, embora não seja indolor. A gente vê o setor externo se ajustando. E quem tem investimento em reais vê seu patrimônio em dólares diminuindo. Isso diminui o potencial de remessas de recursos.

Valor: Qual é o cenário mais extremo com o qual o mercado está trabalhando?

Loyola: É difícil tentar interpretar o coletivo. Mas eu acho que, no limite, o risco é entrar em uma crise de governabilidade aguda. Uma situação em que o governo seja levado a um descontrole, em que ele deixe de ser funcional, no sentido de ter políticas efetivas, ou fique na mão do Congresso ou resolva apelar para o populismo.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Projeto de arte imaginária na internet transforma espaço na Glória em ‘Galeria Transparente’

O artista carioca Frederico Dalton sempre teve um olhar atento para o cotidiano. Morador da Glória, um de seus programas favoritos é sair a pé pelas ruas com a sua câmera em punho para registrar situações ordinárias do dia a dia. Foi durante um desses passeios que ele se deparou com um retângulo suavemente elevado e plano na calçada da Rua da Glória, próximo à esquina com a Rua Cândido Mendes. O que para muitos passaria despercebido, para Dalton se transformou no pontapé inicial para um projeto de arte que vem chamando a atenção de grandes nomes do segmento: a Galeria Transparente.

— A galeria é um espaço imaginário para exposições de arte e fotografia. Ela ocupa de maneira virtual aquela área na Rua da Glória, que foi preparada pela prefeitura para uma banca de jornal, mas onde, aparentemente, ninguém quis se instalar — explica o artista, que também assumiu o cargo de curador da galeria.

“Os peões são maioria” é o nome da criação de Rapha Borges para o projeto Galeria Transparente – Divulgação/Galeria Transparente/Rapha Borges
O projeto surgiu ano passado de maneira despretensiosa. Depois de fotografar o espaço num dia chuvoso, Dalton fez uma montagem no computador incluindo um de seus trabalhos, chamado “Vaso”, como se a obra tivesse exposta no local. Ele então publicou a imagem numa rede social e a repercussão foi imediata. Em pouco tempo, vários artistas manifestaram interesse em participar do projeto, com alguns deles enviando espontaneamente trabalhos para serem expostos.

A partir daí, o projeto ganhou uma página própria no Facebook, que já está com quase 2.500 seguidores.

— De lá para cá, foram 70 colaborações de pessoas de cidades como São Paulo, Goiânia e Brasília. Além disso, tivemos a participação da renomada artista alemã Mischa Kuball — destaca.

Olhar atento. O artista Frederico Dalton na área que inspirou o projeto, que já conta com quase 2.500 seguidores – Leo Martins
Como curador, Dalton se encarrega de receber os trabalhos e fazer as montagens incluindo-os na galeria.

— A ideia é criar uma conexão entre o real e o virtual. Além disso, a galeria quebra o conceito de tempo. Enquanto na vida real as mostras vão mudando periodicamente, no mundo virtual ela é contínua e sempre atual — explica.

Fonte: O GLobo
Foto: Reprodução da Galeria Transparente
Postado por: Raul Motta Junior

Dólar rompe máxima história intradia e é negociado acima de R$ 4,02

O dólar comercial iniciou o dia rompendo o teto de R$ 4 e cravando o maior patamar intradia desde a adoção do câmbio flutuante, em 1999. Em outubro de 2002, a cotação bateu R$ 4,005. Às 10h23, a moeda era negociada a R$ 4,0417, alta de 1,56%. Pouco antes, marcou a máxima histórica de R$ 4,0422.

O que está por trás desse movimento é ainda a preocupação com o rumo do ajuste fiscal. E o noticiário é considerado negativo. O adiamento do envio da proposta da CPMF ao Congresso e sinais de distanciamento entre o Executivo e o PMDB são citados como pontos que acrescentam tensão. Também há expectativa pela votação da pauta bomba: hoje o Congresso pode votar 32 vetos presidenciais que, se derrubados, afetam a situação fiscal. Estudos do governo mostram que a eventual derrubada dos vetos presidenciais pelos parlamentares implicaria um rombo estimado em R$ 127,8 bilhões em quatro anos.

Também vale lembrar que, hoje o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, recebe representantes da agência de classificação de risco Fitch. Nos últimos dois pregões, rumores de que a agência rebaixaria o rating do Brasil – talvez até em dois degraus – têm servido de argumento para a disparada do dólar e dos juros futuros.

O fato de o dólar alcançar a marca de R$ 4 tem importância também do ponto de vista técnico. Esse nível aciona ordens de stop-loss (ordens de interrupção de perdas) e zeragem de posição, o que acaba potencializando a alta da cotação.

Além das questões domésticas, o câmbio sofre pressão do ambiente externo nesta manhã, onde as moedas de outras países emergentes também operam em queda firme em relação ao dólar. A preocupação com o quadro econômico global e as incertezas sobre qual deve ser o rumo da política monetária americana no curto prazo geram uma onda de desvalorização tanto de commodities como de moedas de países que produzem e exportam essas matérias-primas.

Por volta das 10 horas, o dólar subia 1,55% em relação ao rand sul-africano, avançava 0,92% ante o peso mexicano, ganhava 0,91% da lira turca e tinha ganho de 0,29% ante a rupia indiana. Na comparação ao dólar canadense, o dólar subia 0,16%, enquanto o dólar australiano cedia 0,67% na comparação à divisa americana.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Fed e corte soberano seguem no radar

O mercado brasileiro inicia a semana com o fantasma de um novo rebaixamento da nota soberana, incertezas sobre o ajuste fiscal e perspectivas de crescimento mais lento da economia mundial, depois de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ter adiado o início da normalização da sua política monetária na quinta-feira.

No fim de semana, três autoridades do BC americano se manifestaram dizendo que uma alta de juros nos EUA neste ano ainda está na agenda. Após a reunião de quinta-feira, operadores, de Wall Street a outras praças globais, começavam a jogar a possibilidade de o aperto monetário ficar só para 2016.

O presidente da regional do Fed de Richmond, Jeffrey Lacker, voz dissonante no último encontro do comitê de política monetária, reiterou que a economia dos EUA está forte o suficiente para ter justificado um aumento de juros já na semana passada. Ele foi o único a votar por uma alta de 0,25 ponto percentual da taxa básica. O presidente da regional de St. Louis, James Bullard, revelou ter argumentado contra a manutenção do custo do dinheiro no encontro. Já o presidente do Fed de San Francisco, John Williams, disse ser apropriado elevar o juro de curto prazo antes do fim do ano, reforçando um timing que continua na preferência da maioria dos integrantes da autoridade monetária.

Na sexta-feira, houve uma releitura pessimista da decisão do Fed da véspera. O adiamento do aperto monetário foi interpretado como uma indicação de fragilidade, não só nos Estados Unidos mas também de outros países emergentes, observou o economista do Banco Modal, Álvaro Bandeira.

A condição da China e dos países emergentes recebeu destaque nas declarações feitas pela presidente do Fed, Janet Yellen. De acordo com Bandeira, a decisão provocou um reposicionamento nos investimentos globais.

A semana passada terminou também sob fortes os rumores de que a Fitch Ratings poderia divulgar a qualquer momento o corte da nota brasileira e é com esse espírito que os negócios serão retomados hoje. Após o fechamento dos mercados, a agência anunciou a revisão da classificação de Turquia, Finlândia e Gana, além de alterar a perspectiva da nota do Congo. Mas não fez nenhuma referência ao Brasil.

O rumor se justifica porque a Fitch é a única entre as três grandes agências de classificação de risco que ainda mantém o Brasil dois níveis acima da linha do grau de investimento.

Segundo fonte ouvida pelo Valor, a Fitch estaria próxima de anunciar o corte de um nível, conservando a nota do país como grau de investimento e igualando-se à Moody’s. A S&P tirou o grau de investimento brasileiro no dia 9.

A fonte descartou a possibilidade de a Fitch cortar dois níveis de uma vez só. Provavelmente, a perspectiva da nota seguirá negativa e a agência esperará mais alguns meses para efetuar um novo corte, o que levaria à perda do grau de investimento.

A perda do grau de investimento por mais uma agência limita a alocação de recursos de fundos cujo mandato permite aplicar apenas em países que tenham grau de investimento de pelo menos duas agências.

Nas contas do Ashmore Group – fundo dedicado a mercados emergentes -, haveria um fuga potencial da ordem de US$ 8 bilhões. Nessa conta entram diversos ativos, como ações, bônus de empresas, títulos do governo e fundos no exterior lastreados em papéis brasileiros.

Para Rogério Braga, sócio e gestor da Quantitas, embora o mercado aguarde um novo corte, o anúncio pode levar a um “overshooting” (disparada) nas cotações do dólar. Ele lembra que a deterioração da situação política e fiscal tem aumentado esse risco. “Não existe nenhuma luz de que vai melhorar.”

O analista da Clear Corretora, Raphael Figueredo, também prevê mais nervosismo pela frente. “O mercado não consegue encontrar fonte de alívio para nenhum lado que se olhe, doméstico ou externo. Estamos em meio a um ajuste fiscal impopular e com baixa credibilidade, porque não se resolve o problema a longo prazo.”

A combinação de clima tenso no exterior com más notícias domésticas levou o dólar a subir quase 2%, para R$ 3,9586, segundo maior valor desde a adoção do câmbio flutuante, atrás apenas do histórico R$ 3,99, registrado em 10 de outubro de 2002.

A forte pressão no câmbio doméstico levou o Banco Central a anunciar na sexta-feira a oferta, hoje, de até US$ 3 bilhões por meio de dois leilões de linha de dólares com compromisso de recompra. Esse é o terceiro leilão de linha de dólar realizado pela autoridade monetária neste mês.

Já o Ibovespa recuou 2,65%, para 47.264 pontos. No mercado de juros futuros, o contrato de DI para janeiro de 2021 avançou para 15,73% ao ano, ante 15,20% do dia anterior. O DI de janeiro de 2016 subiu de 14,37% para 14,54%. (Com agências internacionais)

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Procuradoria do Estado lança edital para restauração do Convento do Carmo

Erguido no fim do século XVI, o Convento do Carmo, na Praça Quinze, chegou ao século XXI sob o risco de virar ruína. Uma decisão da Procuradoria Geral do Estado (PGE), no entanto, pode mudar o destino do conjunto arquitetônico histórico. No próximo dia 24, a PGE lançará um edital de licitação para a escolher a empresa que vai gerenciar o processo de recuperação da construção. A iniciativa partiu da procuradora-geral do estado, Lucia Léa Guimarães, que, cansada de assistir à degradação do convento da janela de seu gabinete no 13º andar de um prédio vizinho, fez uma proposta ao governador Luiz Fernando Pezão: o órgão pagaria toda a intervenção, em troca do direito de usar metade do conjunto de três prédios.

A estimativa é que esta primeira fase do edital tenha um custo de R$ 1,4 milhão. Até outubro, a PGE publicará o segundo edital, desta vez para selecionar a empresa que vai tocar a obra propriamente dita, no valor de R$ 1,7 milhão. Segundo a procuradora, a previsão de início dos trabalhos é 2016. A outra metade do Convento do Carmo será ocupada pela Secretaria estadual de Cultura.

O prédio, que testemunhou os primeiros movimentos de ocupação do Centro do Rio, guarda histórias de despejos: lá foi instalada d. Maria, a Louca (rainha de Portugal e mãe de d. João VI ), após o desembarque da Família Real no Rio, em 1808, desalojando os frades carmelitas. Por 101 anos, o imóvel esteve cedido à Universidade Cândido Mendes, mas, em 2011, foi retomado judicialmente pela PGE e, desde então, está fechado. Nesses quatro anos, o convento vem se deteriorando. Os telhados, precariamente remendados, são sustentados por escoras, o piso de madeira está podre e a maioria das janelas, quebrada.

— Eu ficava olhando o prédio e sentia pena de vê-lo fechado, sem utilização e se acabando. A Secretaria de Cultura tinha projetos para o edifício, mas acabaram não conseguindo iniciar a reforma. E nós aqui, precisando de mais espaço. Procurei então o governador, fiz a proposta e ele aceitou. Saem ganhando o estado, que terá um prédio reformado, e a cidade, que receberá uma bela construção restaurada — diz Lucia.

PROJETO SERÁ ACOMPANHADO POR DOIS INSTITUTOS

Recuperar o antigo Convento do Carmo será uma tarefa árdua. O conjunto, de 4 mil metros quadrados, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o que vai exigir um acompanhamento dos dois órgãos de proteção.

Segundo a arquiteta Patrícia Gullo, coordenadora de Arquitetura, Projetos e Obras da PGE, um levantamento feito pelo Inepac mostrou que, ao longo dos anos, os prédios passaram por várias modificações. Foram construídas paredes internas, para instalação de banheiros, além de mezaninos. E até um andar intermediário num dos trechos foi instalado.

— O conjunto está muito maltratado. Ele tem um sobrepeso nos telhados, porque, ao longo dos anos, nunca foi feito um reparo verdadeiro: apenas colocaram telhas sobre telhas. Por este motivo, uma das paredes entortou. Além disso, as esquadrias foram danificadas, inclusive com recortes para a instalação de aparelhos de ar-condicionado. O piso de madeira foi coberto por um carpete, que, ao ser retirado, revelou o péssimo estado das tábuas — descreveu Patrícia Gullo.

A empresa que vencer a licitação, explica a arquiteta, além de fazer as intervenções estruturais, terá o desafio de adaptar o prédio tombado ao clima e ao barulho dos dias atuais:

— A construção tem entrada pela Rua Primeiro da Março e pela Rua Sete de Setembro, por onde passará o VLT, e precisará de tratamento acústico.

DE ENFERMARIA DE ESCRAVOS A UNIVERSIDADE

A historiadora Sheila Castelo, do Grupo SOS Patrimônio, comemorou a notícia da restauração do Convento do Carmo. O conjunto está numa lista de cerca de 40 bens tombados no estado que sofrem com problemas de segurança, falta de manutenção ou mesmo total abandono.

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— Adorei a notícia. E que bom saber que o prédio vai ter algum uso cultural — diz Sheila.

No passado, conta ela, o convento era fisicamente ligado à Igreja do Carmo e abrigou uma enfermaria para os escravos, voltada para o pátio interno. O convento teve uso religioso até se tornar residência da rainha. Nesta época, foi construído um passadiço interligando o convento ao Paço Imperial, onde ficou instalado d. João VI. Já na República, em 1890, o prédio passou a abrigar o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, mas, em 1910, através de decreto presidencial, tornou-se sede da Academia do Comércio, que se transformaria na Universidade Candido Mendes.

A ideia da PGE é transferir para o prédio de três andares a biblioteca da instituição, que reúne um acervo estimado em 40 mil obras, a maioria de livros de Direito. O prédio atual da procuradoria, na Rua do Carmo, também guarda duas bibliotecas privadas, doadas pelos herdeiros do jurista Raymundo Faoro e do historiador Octávio Tarquínio e de sua mulher, Lúcia Miguel Pereira. São cerca de 20 mil volumes, incluindo raridades, como obras do tempo do Império. Ao todo, quase 60 mil obras vão ocupar salas do prédio principal. Os antigos aposentos de d. Maria, localizados no 2º andar, com janelas voltadas para a Rua Primeiro de Março, serão transformados em salas de leitura abertas ao público.

Fonte: O GLobo
Foto: Antonio Scorza / O Globo
Postado por: Raul Motta Junior