Monthly Archive: June 2015

Brasil e China avançam em novo fundo

Uma missão técnica do governo brasileiro deverá embarcar para a China em julho, com o objetivo de avançar nas negociações em torno da implantação do novo fundo anunciado pela presidente Dilma Rousseff e pelo primeiro-ministro Li Keqiang para financiar projetos de infraestrutura. Paralelamente à visita de Li a Brasília, em maio, um memorando de entendimento assinado entre a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) prevê a criação do fundo. Na ocasião, os dois países falaram numa cifra de US$ 50 bilhões – basicamente, verbas chinesas geridas pela Caixa.

Desde o anúncio, pelo menos a cada 15 dias, teleconferências entre equipes das duas instituições financeiras têm ocorrido para aprofundar a formatação do fundo. O atual momento, segundo fontes que acompanham o assunto, é de conhecimento dos arcabouços jurídicos brasileiro e chinês. Isso está sendo feito para avaliar as possibilidades de execução das operações financeiras necessárias a fim de que os recursos ingressem no Brasil e sejam destinados aos investimentos em infraestrutura. O grupo de trabalho entre Caixa e ICBC deve funcionar até o fim de agosto.

Na sexta-feira passada, na declaração final da 4ª Reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), o vice-presidente Michel Temer e o vice-primeiro-ministro Wang Yang reiteraram o interesse na “pronta implementação” do memorando de entendimento. Uma das grandes dúvidas na iniciativa privada continua sendo a mesma de antes: se projetos de infraestrutura de energia e de transportes, por exemplo, poderão receber financiamento do novo fundo mesmo se uma empresa chinesa não ganhar a licitação pública ou não for contratada como fornecedora de equipamentos – turbinas para hidrelétricas ou trilhos para ferrovias.

Temer e Wang também anunciaram a decisão de criar o Fundo Brasil-China de Cooperação para a Expansão da Capacidade Produtiva. Esse fundo, que não deve ser confundido com o financiamento do ICBC a projetos de infraestrutura, teria US$ 20 bilhões – os chineses se dispõem a fazer um aporte de US$ 15 bilhões e o Brasil entraria com a parte restante. Os aportes ocorreriam conforme avanços na definição dos “projetos prioritários”, especialmente em logística e na indústria, inclusive por meio de joint venture com companhias locais.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Primeiro fim de semana da exposição sobre Picasso teve filas de até duas horas

O primeiro fim de semana da mostra “Picasso e a modernidade espanhola”, que exibe obras do mestre e de outros expoentes do modernismo espanhol, como Dalí, Miró e Juan Gris, levou muita gente ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A instituição não divulgou o número de visitantes, mas é possível ter uma ideia do sucesso da exposição pelas filas que se formaram ao redor do prédio, principalmente à tarde.

Às 16h deste domingo, quem desejava ver os estudos de Picasso para o famoso quadro “Guernica”, que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola, encarou uma espera de cerca de duas horas. No entanto, nem mesmo a perspectiva de uma longa espera diminuiu a expectativa de quem estava no fim da fila.

Os amigos Ricardo Patrese e Myrna Jéssica diziam ter paciência para aguardar e ver de perto parte do acervo do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de Madri.

— Vamos esperar, com certeza — disse Patrese. — Trabalho com design e ver as obras de perto será muito importante para mim. Pode me dar muitas referências.

Frequentadora assídua do CCBB, a menina Olívia Gomes, de 9 anos, estava animada, ao lado do pai, Alexandre, e da irmã, Mila, de 6 anos:

— As pinturas dele são maravilhosas.

A expectativa de quem estava na fila de ver uma grande exposição foi corroborada por quem descia a escadaria do CCBB. Acompanhada de três amigos, a advogada Sabrina Cassará gostou do que viu:

— A exposição é muito inspiradora. Recomendo a todos virem. Só ficou uma pontinha de frustração porque queria ver a “Guernica” de perto (o quadro original ficou na Espanha e não veio ao Rio).

Se à tarde a espera era longa, os visitantes que chegaram até meio-dia ao centro cultural não esperavam mais do que dez minutos. A mostra fica em cartaz até 7 de setembro e pode ser vista de quarta à segunda-feira, das 9h às 21h.

Fonte: O Globo
Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior

A morte anunciada da agência bancária

Em dez anos, o Brasil vai ter nas ruas metade das agências bancárias que tem hoje. E a tendência é que elas sejam cada vez mais raras. Essa é a previsão do australiano Brett King, conhecido no segmento financeiro como o futurista dos bancos. King presta consultoria a instituições financeiras em todo o mundo sobre como a tecnologia vai mudar a relação das pessoas com seus bancos.

As novas gerações só vão ao banco quando são obrigadas. É por isso que as agências vão evoluir para serviços de assistência técnica, onde os clientes irão raramente, quando têm um problema sério em suas contas. De resto, o banco vai estar no celular. Nem mesmo para investir, o olho no olho será necessário. O cliente diz o prazo e quanto quer ganhar e o algoritmo faz a alocação. Haverá uma divisão entre estruturação, mais regulada e realizada por bancos como os de hoje, e distribuição, em que a experiência do cliente será on-line e poderá ser feita por novas empresas de tecnologia, disse King em entrevista exclusiva ao Valor.

O último livro de King, “Breaking Banks”, ficou entre os três mais vendidos da Amazon nos EUA, na França, no Canadá, na Alemanha e na Austrália. Há quatro anos, ele criou um dos primeiros bancos digitais americanos, o Moven. Nada de agências, gerentes, tudo no celular. King conta já ter tido conversas com Itaú e Bradesco para fazer uma parceria no Brasil. Ele esteve no país neste mês para palestrar na Expert 2015, conferência que reuniu 1,5 mil profissionais e agentes autônomos da XP em Atibaia. Veja a seguir os principais trechos da conversa.

Valor: Como vão ser, para você, os bancos do futuro?

Brett King: A principal diferença é que o banco vai se tornar tecnologia em primeiro lugar e banco em segundo. Não se tratam mais de canais e produtos, mas de clientes e experiências. O desafio para a maior parte dos bancos do mundo que são competidores estabelecidos é que a forma que têm entregado produtos até agora é em agências. No Reino Unido, nos Estados Unidos e na Austrália, as pessoas vão à agência somente uma vez por ano e em geral porque o banco diz que é necessário. Elas não querem mais ir à agência e dizem: por que não posso fazer pelo meu celular?

Valor: Quanto tempo falta para essa mudança?

King: Globalmente, são investidos cerca de US$ 3 trilhões por ano em imóveis e pessoal para agências. Vai levar um tempo para mudar. Uma grande quantidade de investimentos em dispositivos móveis acontece agora, mas os antigos sistemas dos bancos não foram construídos para ser tempo real. Os bancos inteligentes começaram a substituir seus sistemas legais poucos anos atrás, mas é um trabalho gigante. É por isso que companhias que não têm esse legado e estão vindo com novas tecnologias têm vantagem. Elas não têm que substituir o antigo para serem viáveis. Estamos falando de serviços como M-Pesa e Paypal, com mais de um bilhão de pessoas fazendo transações por celular dia a dia. E essa é a mais rápida mudança em modalidade de pagamento que já vimos na história.

Valor: Você defende que a tecnologia traz mais eficiência. Mas, em um primeiro momento, os investimentos são vultosos?

King: Na Moven, já investimos US$ 12 milhões e estamos prestes a investir outros US$ 12 milhões. Não é barato e, diferentemente de outras companhias de tecnologia, como Facebook ou Whatsapp, se eu quero ir para um novo país no serviço bancário, tenho que observar regulamentações diferentes. É por isso que decidimos ter parceiros bancários em cada país, no lugar de tentar crescer sozinhos. Acredito que um dos caminhos que vai emergir é o de novas companhias, lidando com os clientes por meio dos dispositivos móveis, conectados a bancos.

Valor: E no futuro só vão ficar as companhias de tecnologia?

King: Possivelmente. Ou talvez os grandes bancos vão adquiri-las. Vimos recentemente o BBVA comprar a startup Simple [que oferece serviços bancários on-line] por US$ 117 milhões. Isso vai se tornar mais e mais comum. Os bancos vão perceber que, se quiserem construir essa tecnologia sozinhos, isso vai tomar deles muito mais tempo e dinheiro do que a aquisição de uma startup. Ao longo do tempo, a tendência vai ser separar distribuição e estruturação em duas camadas. A distribuição vai ser por telefone e outros dispositivos móveis. Os produtos, o risco e a regulação vão estar por trás. A experiência não vai ser tão regulada quanto a estruturação.

Valor: Essa evolução não esbarra no acesso da população a dispositivos móveis?

King: Na África, 30 países já têm mais contas em bancos on-line do que em bancos físicos. Nos próximos dez anos, vamos bancarizar 2 bilhões de pessoas por meio do celular. Os bancos acham difícil pensar assim. Eles pensam: as pessoas querem ir às agências, vamos construir mais. Uma vila muito pobre do Quênia, por exemplo, tem um único celular para todos. Lá o SIM Card é a nova conta bancária. Eles tiram o chip do telefone e guardam na meia. E assim também se protegem dos roubos.

Valor: Você defende o fim das transações em papel. Mas o próprio dinheiro é papel…

King: Começamos a ver economias do nordeste da Europa, como Finlândia, Suécia, Noruega, Dinamarca e Reino Unido, em que pagamentos eletrônicos superaram as transações em dinheiro, que são muito poucas. No Reino Unido, 80% dos pagamentos em dinheiro são de menos de 20 pounds [próximo de R$ 100]. As pessoas não estão mais fazendo grandes compras em dinheiro. E a razão para fazerem pequenos pagamentos é que é mais fácil, mais rápido. Uma vez que se tornar mais rápido usar o telefone, penso que isso vai mudar. E o diferencial do telefone é que você vai pode ver seu orçamento antes e depois da transação. O cartão e o dinheiro não te dão nenhuma informação.

Valor: Na Moven, os gastos são categorizados e o aplicativo muda de cor quando se gasta mais do que a média histórica. Existe um papel de ajudar na educação financeira?

King: A maior parte da educação financeira foi desenhada para você entender o sistema bancário. E se nós simplesmente fizermos disso uma ferramenta? Costumávamos usar um sistema de planejamento em envelopes. Tinha o envelope do aluguel, o da escola, o da saúde. Depois começamos a digitalizar os envelopes, como no Excel. Mas as pessoas que são bem-sucedidas usando essa tecnologia são as disciplinadas. E a maioria das pessoas é indisciplinada. O que nós decidimos foi: vamos fazer de uma forma em que não seja necessária qualquer disciplina. Fizemos de poupar um jogo, que consiste em: gaste menos hoje do que você gastou ontem. Se você gasta menos, é bom, fica verde. Se gasta mais, é ruim, fica vermelho.

Valor: O futuro então são mesmo ruas sem agências bancárias?

King: Vão restar poucas. Mas, em cinco anos, por que você iria ao banco? Porque não pode manejar seu dinheiro pelo telefone, alguma coisa está errada. Assim como você diz ‘Meu iPhone não está funcionando’, vai dizer ‘Minha conta bancária não está funcionando’. Você não vai ao banco abrir uma conta bancária. Em 2020, você vai fazer isso pelo telefone.

Valor: Nem para a consultoria o olho no olho é necessário?

King: Existe uma psicologia quando se trata de dinheiro. Se ocorre um problema e não posso ter acesso a meu dinheiro, quero falar com alguém. Mas até isso pode ser por vídeo. A marca de confiança e o serviço para resolver o problema é que são chave. No passado, as pessoas necessitavam ter uma agência onde pudessem ver alguém que resolveria o problema. Mas os Millennials [nascidos a partir dos anos 80 até meados da década de 90] tornam isso simples: como eu posso ter meu problema resolvido? Penso que o número de agências que você vai ter em um país como o Brasil vai ser a metade do que se tem hoje até a metade da próxima década. E as agências restantes vão ser menores. Talvez uma agência bancária seja duas pessoas com um iPad.

Valor: Como seria o processo de investimento nesse novo mundo?

King: Mais pessoas vão buscar um percentual de retorno. Eles vão dizer: quero 5%, 15% ou 30% de retorno. E o algoritmo do aplicativo vai dizer: 30% é muito arriscado, você está preparado para isso? E depois você vai deixar o algoritmo decidir que investimentos vai fazer. Você não vai ter que escolher produtos ou classes de ativos específicos, vai dizer: quero investir por três meses e quero 5% por meu dinheiro.

Valor: E o papel dos consultores?

King: Quem quiser investimento simples vai fazer por aplicativo. Para os mais complexos, vai buscar a consultoria. Mas a execução vai envolver tecnologia. Metade da consultoria vai ser como fazer isso, que aplicativo ou sistema você tem que usar.

Valor: E como fica a segurança da informação?

King: A assinatura não é mais proteção. Se alguém pegar seu cartão, pode usar, mas, se tomar seu telefone, a primeira coisa que precisa é de uma senha ou da impressão digital. Muitos anos atrás, quando a internet chegou, as pessoas estavam muito temerosas de usar cartão de crédito on-line. E, de repente, as pessoas acham seguro. Penso que a mesma coisa vai acontecer com pagamentos on-line.

Valor: Mas tem ainda a preocupação sobre privacidade.

King: Temos que esperar que nossa privacidade seja um pouco menor do que antes. Posso entrar no Facebook e ver onde você mora, o nome da sua mãe. Temos que pensar sobre segurança de forma diferente. No futuro, a empresa vai dizer: se você me der sua informação pessoal e compartilhar sua localização, então vou te dar um desconto ou um benefício. Vai ser uma escolha: quanto de informação eu dou e o que eu tenho em troca. As companhias espertas vão negociar as informações.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Mercado deve agir como mercado

Filho de uma professora primária e de um vendedor de seguros, o economista Joseph Stiglitz passou a infância em uma típica família de classe média americana, no município de Gary, no Estado de Indiana. A cidade era um território fértil para prosperar o “sonho americano”, o ideal exportado para o mundo de igualdade de oportunidades que beneficiava a população dos Estados Unidos. Aos 72 anos, Stiglitz hoje lamenta toda vez que visita sua terra natal e constata que Gary se tornou o emblema de um sonho que ficou no passado. “Os EUA foram a primeira sociedade de classe média, mas estamos prestes a nos tornar o primeiro país com uma sociedade de classe média que deixará de ser de classe média”, diz Stiglitz, em entrevista ao Valor.

Prêmio Nobel de Economia, Stiglitz ajudou a pôr o tema da desigualdade no centro do debate, quando escreveu o artigo “Do 1%, para o 1% e pelo 1%”, publicado na revista “Vanity Fair”, em maio de 2011. No texto, o ex-economista chefe do Banco Mundial descrevia a crescente má distribuição de renda nos EUA, onde 1% da população controlava mais de 40% da riqueza e recebia mais de 20% da renda. Quatro meses depois, surgiu o movimento Occupy Wall Street, com o slogan “Nós somos os 99%”.

Conselheiro econômico de Hillary Clinton, pré-candidata democrata à Presidência dos EUA, Stiglitz propõe uma agenda ampla para mitigar o problema, que inclui aumento de impostos para os mais ricos e limite de monopólio. Ele diz estar otimista com Hillary e que ela tem sido enfática em sua crítica a Wall Street e ao setor financeiro. “Não quero afirmar que existe unanimidade nesse sentido. Ainda há pessoas no Partido Democrata muito próximas de Hillary que tentam defender os abusos de Wall Street.”

O problema atual, observa Stiglitz, não está no capitalismo, mas em como o capitalismo do século XXI teria sido distorcido por outro modelo econômico, a chamada economia pelo lado da oferta, que caracterizou a era Reagan. “A marca atual do capitalismo é um simulacro de capitalismo”, escreveu. “Se fizéssemos os mercados agirem como mercados, teríamos menos desigualdade.”

A desigualdade é justamente o tema de “Great Divide: Unequal Societies and What We Can Do About Them” (A grande divisão: sociedades desiguais e o que podemos fazer a respeito, em tradução livre), que será lançado no Brasil pela editora Alta Books no segundo semestre. No livro, o economista afirma que a desigualdade é uma escolha, resultado cumulativo de políticas injustas e prioridades mal direcionadas. Em novembro, o economista fará uma palestra, em São Paulo, dentro do projeto Fronteiras do Pensamento.

Na entrevista a seguir, concedida, por telefone, Stiglitz fala da crise da Grécia e da situação econômica brasileira. “O Brasil precisa é de uma reforma fundamental em seu setor financeiro. Vocês têm uma das taxas reais de juros mais altas do mundo. Não é de surpreender que isso esteja afugentando os investidores.”

Valor: O senhor escreveu que os que têm apenas o diploma do ensino médio viram seus salários caírem 13% ao longo dos últimos 35 anos, nos EUA. Por outro lado, os rendimentos de altos executivos seriam hoje cerca de 300 vezes maiores do que a média dos salários de um trabalhador típico, proporção mais elevada do que no passado e sem evidência de aumento proporcional na produtividade. Como o senhor explica o aprofundamento da desigualdade?

Joseph Stiglitz: Sempre existiu desigualdade, mas ela cresceu muito no último terço de século. Acredito que é porque mudamos as regras do jogo. Quando falo em mudar as regras do jogo, refiro-me às políticas de gastos públicos, às leis de falência, às leis antitruste, à lei de governança corporativa e a algumas das regras implícitas do que é certo ou errado, justo ou injusto. Só para dar alguns exemplos das consequências: mudamos as regras do setor financeiro para permitir que os bancos ficassem maiores e os bancos comerciais pudessem participar de atividades que envolviam mais risco – e abrimos a porta para conflitos de interesse. De certa forma, permitimos que os bancos agissem de forma predatória contra a sociedade. Um segundo exemplo é que consentimos que os CEOs – e quase os incentivamos pelo sistema fiscal – criassem sistemas de compensação que lhes permitiam ficar com uma fatia cada vez maior das receitas corporativas. Um terceiro exemplo é que enfraquecemos os sindicatos, impedindo que agissem como freio a esses abusos corporativos e causando redução no salário dos trabalhadores. O quarto exemplo é que mudamos as regras da globalização, fazendo que favorecesse as corporações, o que prejudica as pessoas comuns. Há um debate grande nos EUA, hoje, sobre se essas regras devem ser tornadas ainda piores ou se essa tendência deve ser interrompida.
Cliff Owen/AP”Ainda há pessoas no Partido Democrata (…) que tentam defender os abusos de Wall Street, mas ela [Hillary] tem sido forte em seu discurso e sua crítica ao setor financeiro”, diz Stiglitz

Valor: Qual é a receita para combater o que o senhor qualifica de políticas para promoção da desigualdade?

Stiglitz: Não existe uma bala de prata. É uma agenda abrangente, que chamo de “Reescrevendo as Regras”, na qual incluo a introdução da equidade tributária, de forma que o capital pague imposto, que os que estão no topo paguem uma porcentagem de impostos que seja pelo menos tão alta quanto aqueles que não são tão ricos; empreender mudanças na governança corporativa, nas leis antitruste, limitar os monopólios, mudar as regras da globalização, fortalecer os sindicatos e melhorar nosso sistema educacional.

Valor: Aumentar os impostos sobre os mais ricos não poderia causar uma fuga de capital, como argumentam alguns economistas neoclássicos? Não há perigo de os empreendedores evitarem investir nos EUA?

Stiglitz: Começamos um experimento em 1980 no qual reduzimos as regras e as alíquotas cobradas dos mais ricos. O que aconteceu foi uma desaceleração do crescimento e a desigualdade aumentou. Se olharmos para o experimento do governo Reagan, foi um desastre. E o experimento continuou durante os governos Clinton [do qual Stiglitz foi presidente do Conselho Econômico] e Bush. O problema é que a maneira como escrevemos as regras da globalização facilitou que indivíduos e corporações fugissem da taxação. Esse é o problema do imposto progressivo. Se olharmos para os EUA, temos clara vantagem nesse sentido: os americanos pagam imposto em qualquer lugar do mundo, não importa de onde venha. Se decidem ir para outro país, pagam impostos da mesma maneira, não há como fugir, a não ser que abdiquem da cidadania americana. Nesse caso, há um imposto para indivíduos que abdicam da cidadania. No âmbito das empresas, se quiséssemos, e é claro que essa é uma questão política, poderíamos instituir um imposto global para as empresas, porque nenhuma empresa vai dizer: “Não vamos vender para os americanos porque o imposto é alto demais”.

Valor: Os EUA ainda têm o poder de negociar.

Stiglitz: Não só de negociar, mas também de dizer: “Se vocês quiserem entrar no mercado americano, terão de pagar impostos sobre suas vendas para os americanos”. Os EUA estão em uma posição em que poderiam impor um imposto mínimo mundial e extrair uma fatia de todo o lucro mundial. Acho que o argumento [dos neoclássicos] não tem validade alguma para os EUA. Para os países menores, há um problema. É por isso que muitos de nós acreditamos que precisa haver um acordo tributário mundial, para que não haja a corrida para o imposto mais baixo entre os países em desenvolvimento. [Stiglitz integra um grupo de economistas que discute uma significativa reforma no sistema tributário global das corporações. Ele alega que algumas multinacionais são conhecidas por transferir seus lucros e rendimentos para subsidiárias para se beneficiar de impostos mais baixos em certos países].

Valor: O senhor é próximo da senadora Hillary Clinton, pré-candidata democrata à Casa Branca. Acredita que, se eleita, ela vai seguir a agenda de crescimento e prosperidade compartilhada que o senhor menciona no documento “Reescrevendo as Regras”?

Stiglitz: Acho que sim. Sou muito otimista. Ninguém quer ser eleito presidente para fracassar [risos]. Infelizmente, os EUA estão numa encruzilhada. Não sei quais são os dados exatos, mas a renda dos 90% menos ricos dos EUA não registra um crescimento significativo há um terço de século. Qualquer presidente que não consiga fazer aumentar a renda para a classe média entrará para a história como um fracassado. Já ficou claro que o sistema atual não funciona, não só para os pobres. Falo da maioria dos nossos cidadãos. Os americanos percebem cada vez mais que perdemos a classe média. Os EUA foram a primeira sociedade de classe média, mas estamos prestes a nos tornar o primeiro país com uma sociedade de classe média que deixará de ser de classe média. A obrigação de qualquer presidente é, pelo menos, lutar para assegurar que os pré-requisitos para o estilo de vida da classe média estejam acessíveis para a maioria dos cidadãos. Para isso será preciso reescrever as regras, modificar as políticas nessa direção que indico. Creio que a maioria dos assessores de Hillary concorda. Em qualquer área relacionada à política, sempre haverá divergências. Não quero afirmar que existe unanimidade nesse sentido. Ainda há pessoas no Partido Democrata muito próximas de Hillary que tentam defender os abusos de Wall Street, mas ela tem sido muito forte em seu discurso e sua crítica a Wall Street e o setor financeiro. Já deu uma indicação com relação a essa área.

Valor: Novo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), lançado na semana passada, diz que a distância entre ricos e pobres está crescendo em muitos países. O senhor acredita que as medidas que sugere para a economia dos EUA também poderiam funcionar em outros países que enfrentam esse problema da desigualdade?

Stiglitz: Sim, acredito nisso, muito mesmo. Diria, e isto é visível nos dados, que os países que seguiram a política americana foram os países que tiveram o pior desempenho. Há uma clara ligação entre nossa política – a política americana, que ajudou a gerar desigualdade e problemas como a globalização – e aqueles, como os países escandinavos, que trabalharam para conter o aumento da desigualdade. Suécia, Finlândia e Noruega conseguiram crescimento na renda per capita igual ou mais rápido do que os EUA, e com muito maior igualdade.

“É preciso pensar como reformar o setor financeiro do Brasil para que funcione melhor. Não há razão para o Brasil não crescer”

Valor: O senhor critica aspectos de “O Capital no Século XXI”, best-seller mundial sobre desigualdade do economista francês Thomas Piketty. Enquanto ele aponta ser a desigualdade inerente ao capitalismo, o senhor diz que as regras do mercado é que precisam mudar…

Stiglitz: Para Piketty, a principal causa do aumento da desigualdade está associado aos fundamentos do sistema capitalista e seu processo de acumulação da riqueza. Para mim, a principal causa reside nas políticas que em muitos casos traem a economia de mercado, pois contrariam o que poderia se chamar de regras básicas de mercado. Se fizéssemos os mercados agirem como mercados, teríamos menos desigualdade. O problema real é que temos mercados distorcidos, em parte por motivos políticos. Na verdade, grande parte do suposto aumento na riqueza econômica não vem da poupança das pessoas, mas dos ganhos de capital gerados, por exemplo, pelo QE [afrouxamento quantitativo], por baixas taxas de juros que causam bolhas nos preços de ativos, e isso deixa os muito ricos mais ricos.

Valor: Qual será o impacto do aumento da taxa de juros americana, pela primeira vez desde 2006, sobre a economia mundial e a de emergentes como o Brasil?

Stiglitz: O aumento da taxa de juros é o retorno a uma economia mais normal, porque uma economia com taxa de juros zero não é normal. A mudança em si é como quando reduzimos a taxa de juros pela primeira vez: foi muito difícil para o Brasil e muitos outros países, porque entrou muito dinheiro nessas economias, o que causou muita instabilidade. O movimento inverso pode causar instabilidade, mas há diferenças. A primeira é que o aviso foi dado com tanta antecedência que os mercados já tiveram tempo para se ajustar. Em segundo lugar, muitos dos países que implementaram políticas para resistir ao grande fluxo de entrada de dinheiro em 2010 e 2011 têm um conjunto de instrumentos adicional, que é o de simplesmente inverter essas políticas. Eles já tentaram resistir ao fluxo de dinheiro entrando e agora, na verdade, esse não será o principal problema que enfrentarão.

Valor: O ex-secretário do Tesouro dos EUA Lawrence Summers tem dito que o maior debate no mundo econômico é se as economias avançadas, como os EUA, a União Europeia ou o Japão, estão fadadas à estagnação secular. O senhor, no entanto, não concorda. Por quê?

Stiglitz: Acho que há duas partes nesse debate e acho que isso provoca muita confusão. Uma delas não é uma questão a ser debatida, porque já sabemos a resposta. No momento, há a questão da demanda agregada global. Na Europa há um grave problema de austeridade; nos EUA, temos uma forma mais branda de austeridade. A austeridade está impedindo nossas economias de alcançar o pleno emprego. Não se trata de um problema de inevitabilidade, mas de política econômica. Temos estagnação, mas a previ em meu livro de 2010. Não é nada de novo: é o que prevíamos caso não estimulássemos nossa economia o suficiente – e não a estimulamos, principalmente nos governos republicanos, mas até Obama teve sua parcela de culpa. A segunda parte é uma questão um pouco diferente, para a qual não há como sabermos a resposta. Tem a ver com inovação. Tivemos grandes ondas, grandes inovações, como a eletricidade e o computador. O ponto é: teremos inovações parecidas nos próximos 10, 20, 30, 40 anos? A natureza da inovação é que ela não pode ser prevista [Risos]. Se soubéssemos, já existiria. Continuamos inovando, mas estou preocupado, porque não estamos investindo tanto em pesquisa básica. Há boas razões para a inovação desacelerar, mas não é inevitável. Alguns economistas acreditam que estamos inovando tanto quanto no passado e outros acham que as grandes inovações estão no passado.

Valor: Há algumas semanas o senhor esteve tanto com o ministro das Finanças da Alemanha quanto com o da Grécia. Como avalia a evolução da crise grega?

Stiglitz: Quando a crise começou, minha posição era de que seria melhor para a Europa se encontrassem uma maneira de fazer o que chamo de concluir a agenda. A zona do euro era um projeto econômico incompleto: havia um projeto político, mas não haviam criado as instituições para fazê-lo funcionar. Em 2010, em vez de consertar as instituições, criaram um novo problema: a austeridade. Muitas outras pessoas e eu previmos que a política de austeridade seria um desastre. E foi. Todas as previsões da “troika” [União Europeia, Banco Central Europeu e FMI] estavam erradas. A parte econômica estava ruim. A Grécia diz que a “troika” acabou com o país e está absolutamente certa. O interessante é que quase nada do dinheiro que se diz ter sido dado à Grécia foi, de fato, dado à Grécia.

Valor: O dinheiro foi usado para pagar a dívida com os credores…

Stiglitz: Para pagar os credores europeus. Estavam pagando dinheiro a bancos europeus – em alguns casos, bancos americanos, mas estavam principalmente pagando dinheiro de dívida aos credores – e nada daquele dinheiro estava entrando nos bolsos dos gregos. Nesse meio tempo, os gregos estavam sofrendo por causa dessa política equivocada de austeridade. Desde o início, em 2010, pensei que a Grécia deveria simplesmente ter dado o calote na dívida. O dinheiro todo foi da Europa para a Europa. Os governos assumiram as dívidas dos credores privados, resgataram os credores privados, como ocorreu em todos os outros resgates, como aconteceu no resgate brasileiro de 1998. Os emergentes sabem que esses resgates não foram resgates do país, foram resgates dos bancos credores ocidentais. É verdade que a Grécia precisa de uma reforma, mas o problema real e fundamental é que a zona do euro precisa de uma reforma.
Scott Eells/BloombergMovimento Occupy Wall Street, iniciado pouco depois de artigo de Stiglitz em 2011: em livro, ele diz que a desigualdade é uma escolha, resultado cumulativo de políticas injustas

Valor: Qual seria o cenário caso a Grécia tenha de sair da zona do euro?

Stiglitz: É algo arriscado para a Europa agora e será ainda mais arriscado no futuro, porque significa que não há mais compromisso com a política da zona do euro. Se outro país tiver algum problema, a questão será se deve sair ou ficar e se receberá ajuda ou não. Se a Grécia tiver êxito, isso dará muito combustível para que outros digam: “A moeda única foi uma má ideia”. Acho que é uma estratégia muito arriscada, que prejudica a solidariedade e, em última instância, acho que ninguém quer ver um país do sudeste europeu abandonado à própria sorte. Há questões geopolíticas.

Valor: O primeiro-ministro grego, Aléxis Tsípras, por exemplo, reuniu-se com o presidente Vladimir Putin, da Rússia…

Stiglitz: Ninguém sabe o que vai acontecer hoje ou daqui a seis meses. Mesmo que a Rússia não ofereça auxílio hoje, ou que forneça auxílio em seis meses, a Europa precisa de solidariedade nas sanções. Será que a Europa vai dizer: “A Grécia não pode ser membro da União Europeia” e vai expulsar a Grécia? E se a Grécia apoiar a Rússia? Não há procedimentos na União Europeia para a expulsão de um país.

Valor: O Brasil atravessa uma fase difícil: baixo crescimento do PIB, taxa de desemprego em expansão e o governo realiza um ajuste fiscal muito severo e aumenta as taxas básicas de juros, porque a inflação está alta. São medidas inevitáveis?

Stiglitz: Em primeiro lugar, acho que, em termos gerais, a austeridade não funciona [Risos]. O Brasil tem um problema específico em seu setor financeiro, que é muito fragmentado. Algumas pessoas têm acesso a uma taxa de juros e outros a outras…

Valor: O senhor se refere ao BNDES, que oferece taxas melhores para seus financiamentos?

Stiglitz: Algumas pessoas têm acesso ao BNDES e outras não têm, portanto, têm de ir a outros bancos, que cobram taxas de juros altíssimas, que estão entre as mais altas do mundo. O Brasil precisa é de uma reforma fundamental em seu setor financeiro. Vocês têm uma das taxas reais de juros mais altas do mundo. Não é de surpreender que isso esteja afugentando os investidores. Todas essas questões são históricas, mas acho que qualquer um que olhasse para o sistema financeiro brasileiro, com suas taxas de juros reais altíssimas, diria: “Não surpreende que vocês não conseguem crescer”. É preciso pensar como reformar o setor financeiro do Brasil para que funcione melhor. Não há razão para o Brasil não crescer e, principalmente, para haver um aumento no desemprego. Vocês têm excesso de capacidade em determinadas áreas, mas a questão é o que está gerando inflação e quais são os gargalos e como solucioná-los.

Valor: Como o novo modelo de crescimento da China, mais concentrado no aumento do consumo interno, pode afetar emergentes como o Brasil, que exporta bilhões de dólares aos chineses?

Stiglitz: O crescimento chinês tem sido o motor do crescimento do mundo, e uma das grandes preocupações é com o fato de que, desde que a China passou a ser o motor do crescimento do mundo, quando ela desacelera, o mundo desacelera. A desaceleração da China está tendo um impacto importante em todo o mundo. Há uma lição importante nisso para o Brasil. O país se vê como fonte de matéria-prima, de soja, minério de ferro. Acho que o Brasil deve pensar na China como um gigantesco mercado consumidor, como você disse, e começar a exportar produtos com base em sua tecnologia de aviação, biocombustíveis, etanol. O Brasil deve fortalecer suas relações em pé de igualdade, não com base no tipo de exploração que marcou seu passado.

Valor: No ano passado, quando os Brics criaram o novo Banco de Desenvolvimento, o senhor se mostrou otimista com a força geopolítica da iniciativa e disse que era uma boa alternativa para a China, em virtude das gigantescas reservas monetárias que o país tem…

Stiglitz: O banco teve um papel importante na mudança da arquitetura geopolítica e financeira mundial, de duas maneiras. Mostrou que os Brics podem se juntar e fazer algo como um todo, já que os EUA e a Europa estavam afundados em seus problemas. É hora de os emergentes fazerem seu trabalho e crescer. A cooperação Sul-Sul é o caminho do futuro, principalmente levando em conta que os EUA não conseguirão exercer liderança pela via da parceria democrática enquanto os republicanos continuarem agindo como agem. Não estão comprometidos com o fortalecimento das instituições globais. Em segundo lugar, o banco possibilitou que a China criasse o Banco Asiático de Infraestrutura, que terá forte impacto na Ásia, em particular.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

A união faz a força?

Um pequeno grupo de investidores ativistas pode mudar o curso do maior fundo imobiliário listado no Brasil. O objetivo é evitar que os cotistas sejam envolvidos em um negócio de estrutura inédita e com indícios de conflito de interesses, sem ter informações suficientes para avaliar se ele é vantajoso ou não para suas carteiras. Com um patrimônio líquido de R$ 3,14 bilhões, um portfólio com 13 imóveis de escritórios e uma base de 17,4 mil investidores pessoas físicas, o BC Fund é administrado pelo BTG Pactual, que está tendo que repensar os termos de uma oferta pelo controle da companhia de empreendimentos imobiliários comerciais para renda BR Properties, avaliada em R$ 3,6 bilhões, na qual já é o principal acionista, além de representar o potencial comprador.

Ao fim de fevereiro, o BTG anunciou a intenção de envolver o BC Fund na oferta pública de aquisição de ações (OPA) da BR Properties. O fundo imobiliário entraria na operação por meio do FII Prime Portfolio, do qual detém todas as cotas. Este, por sua vez, tem fatia de 50% no fundo de investimento em participações (FIP) Bridge, veículo que vai liderar o consórcio. A outra metade desse FIP é detida pelo mesmo BTG Pactual (70%) e pela Brookfield BR7 (30%).

Os ativos dentro do FII Prime respondem por 44% da receita contratada do BC Fund. Para que o Prime seja envolvido na operação, será necessário captar recursos, o que seria feito via oferta pública realizada conforme a Instrução nº 476 (esforços restritos de colocação) da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Como o BC Fund não participará da operação, terá sua participação no FII Prime reduzida, ainda que não tenha sido informado como essa fatia ficaria.

Nos moldes propostos para a OPA, haverá uma cisão da companhia, que ao fim da operação vai deixar BTG e Brookfield BR7 com imóveis, enquanto o BC Fund será o proprietário da BR Properties.

A trajetória dos acontecimentos, contudo, tem sido marcada por uma atuação polêmica do BTG, principalmente por conta das acusações de conflito de interesses, já que o banco desempenha papéis múltiplos. O BTG atua como vendedor das ações da empresa na oferta, ao ter participação societária relevante na BR Properties, e ao mesmo tempo como comprador, ao representar os fundos na condição de administrador. Afinal, quais interesses a instituição pretende defender na operação se faz parte de pontas opostas?

Há ainda dúvidas com relação à dívida da BR Properties a ser assumida pelo BC Fund e críticas à comunicação com os cotistas de um fundo sempre visto como referencial na indústria nesse quesito. O BTG foi procurado pela reportagem, mas preferiu não comentar.

Insatisfeito, um grupo de cotistas resolveu ter um papel mais atuante para tentar sair daquela “zona cinzenta”. Ao fim de março, o investidor Ricardo Orihuela enviou carta à CVM questionando a assimetria de informações e riscos entre os participantes e o conflito de interesses relacionado à postura do BTG na OPA. “No fim da operação, o BTG sai, com imóveis, de uma empresa endividada, usando só o dinheiro de um fundo do qual é administrador e gestor”, escreveu Orihuela, na carta. “O fundo fica com a dívida da BR Properties, e o BTG sai do risco.”

Na avaliação do investidor, o BTG deveria ter convidado os cotistas do BC Fund a entrar na operação comprando imóveis, no lugar da Brookfield.

Após a reclamação, a CVM decidiu instaurar processo para investigar a queixa de Orihuela e determinou que fosse realizada uma assembleia geral de cotistas do BC Fund para discutir a participação do fundo na operação. Em carta enviada ao BTG no dia 14 de abril, a CVM afirmou que entendia haver potencial situação de conflito de interesses e que ele existiria ao fim do processo da OPA da BR Properties.

Além disso, a CVM destacou no documento a assimetria de dados uma vez que os investidores qualificados que aderissem à oferta 476 do FII Prime “já ingressariam nela de posse de todos as informações relevantes sobre a operação para fazer a correta precificação e avaliação de riscos de seu investimento”, diferentemente dos cotistas do BC Fund. Na visão da autarquia, a opinião desses cotistas precisava ser levada em consideração.

“Entendemos que a avaliação prévia pelos cotistas do BC Fund constituirá o fórum mais adequado para a análise sobre a materialização ou não de conflito de interesses entre o administrador, gestor e empresas do grupo BTG, principalmente no tocante aos ativos e passivos a serem cindidos para empresas do grupo BTG e os que remanescerão na companhia.”

Desta forma, a CVM indicou que o FII Prime só poderia realizar a oferta 476 e prosseguir com a operação caso os cotistas do BC Fund, por meio de quórum qualificado, a aprovassem em assembleia. “Caso os cotistas do BC Fund deliberem pela não participação do fundo, entendemos que o FII Prime não poderá realizar a oferta 476, devendo o administrador/gestor constituir um fundo específico para esta finalidade, já que o FII Prime é um veículo de investimento exclusivo do BC Fund.”

Embora ainda haja margem para contestação por parte do BTG, um cotista que participou da assembleia exigida, realizada no último dia 17, disse que o banco afirmou já estar negociando a entrada de outros potenciais investidores na OPA da BR Properties, desistindo, portanto, de envolver o BC Fund na operação. A intenção, contudo, não consta da ata.

Cotista do fundo desde seu IPO, ao fim de 2010, Orihuela ficou frustrado com a proposta feita na OPA e decidiu vender a maior parte de sua participação, que respondia por cerca de 20% de seu portfólio de carteiras imobiliárias. “Aprendi a duras penas que a gente tem que investir em bons administradores”, diz.

Engenheiro mecânico, o investidor de 43 anos usa os fundos como um veículo previdenciário e faz parte de um grupo ativista de cerca de 50 cotistas. “O que nos uniu foi o fato de nos conhecermos em assembleias, querendo informações, mas a OPA do BC Fund foi decisiva para o nosso grupo”, diz o investidor, que se reúne com o grupo, que vem crescendo, desde 2010.

A decisão de enviar a reclamação para a CVM foi tomada depois de alguns contatos com o BTG. Orihuela diz ter participado de um encontro com representantes do banco, inclusive o próprio André Esteves, presidente do BTG Pactual, em que não sentiu preocupação da instituição com o destino do BC Fund e o levou a diminuir ainda mais sua participação no fundo. Uma semana depois, o investidor participou de um outro pequeno encontro com o BTG em que saiu receoso com relação ao tamanho da dívida a ser assumida, e deixou a reunião decidido a enviar a carta à CVM.

Orihuela também esteve presente na assembleia do dia 17 de junho em que diz ter sentido que o BTG fez mea-culpa em não ter se comunicado de forma correta com os cotistas sobre a OPA. A gestora assumiu na ocasião o compromisso de observar um limite de alavancagem de 30% na operação e disse que estuda agora propor a constituição de um comitê de acompanhamento de cotistas para atuar junto a ela em assuntos relacionados ao fundo.

Mesmo que o BTG desista de envolver o BC Fund na OPA da BR Properties, Orihuela não pretende voltar a comprar cotas do fundo. Apesar de não ter havido consenso em seu grupo – alguns participantes não viram problemas na operação, outros venderam todas as cotas no momento do anúncio -, o investidor considera que ele vai ficar mais coeso a partir de agora, após a atuação mais forte nesse episódio.

E não é só este grupo que tem se colocado à frente do BTG. Em assembleia também realizada semana passada, cotistas do Max Retail, administrado e gerido pela instituição, se organizaram para reprovar uma distribuição de rendimentos abaixo de 95% no segundo semestre de 2014.

Conforme a ata da assembleia, esses cotistas basearam seu voto na declaração de que a administradora não foi transparente na apresentação dos orçamentos com previsão de gastos antes da realização das obras e não explicitou de forma clara a real situação dos imóveis com adequado planejamento de manutenção e recuperação.

Por trás desses votos está um grupo de investidores que se reúne e discute a situação do mercado por meio de um blog dedicado a fundos imobiliários. O engenheiro de computação Cristian Tetzner, paulista de 39 anos que mora em Curitiba, fundou o espaço virtual há mais de três anos e conta que os encontros vão além dele. “Temos um braço em cada cidade, um representante local. É uma pessoa física associada que participa ativamente dos fundos”, diz.

A ideia de atuar como uma espécie de rede de informantes nasceu da necessidade, já que os participantes consideravam o mercado carente de dados e detalhamentos. “Não há ninguém cuidando do lado do cotista. A administradora está lá para receber sua taxa de administração e são raras as vezes em que ela trabalha para o interesse do cotista”, reclama Tetzner.

Hoje o grupo, concentrado em 15 pessoas, elabora relatórios, analisa prospectos, confere in loco a condição dos imóveis, envia representantes para assembleias de cotistas e tem um mapeamento da indústria de fundos imobiliários brasileira. O blog é gratuito, mas por meio dele são vendidos produtos como resumos de informações de mercado e até mesmo pesquisas próprias de aluguel e preço de metro quadrado, por exemplo.

Tetzner conta que, nos últimos dois anos, o grupo começou a se estruturar melhor, com papéis mais bem definidos. E não foi tarefa difícil agrupar-se para ter força no caso do Max Retail, pois diversos membros tinham as cotas do fundo em carteira. E a união com um investidor institucional deu maior respaldo à iniciativa. Da mesma forma como ocorreu com o grupo de Orihuela, Tetzner diz ter se reunido com a equipe do BTG (via conferência) para debater a situação do fundo e apresentar dúvidas.

“Estamos nos profissionalizando agora. Outro grupo de ativistas fez contato conosco para tentar unir força, mas quis experimentar nossa força no Max Retail antes de partir para uma briga maior”, revela.

De fato, nem sempre a atuação dos ativistas minoritários é vencedora. Recentemente, Tetzner e seu grupo não conseguiram evitar que a administração do fundo TRX Edifícios Corporativos passasse para as mãos do BTG, depois que o Citi abdicou de sua posição.

No caso do BC Fund, o engenheiro diz que seu grupo não quis enfrentar a briga, dada a relevância de outros investidores dentro do fundo. O próprio cotista tem se desfeito de sua posição, decepcionado com a OPA. (Colaborou Chiara Quintão)

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Ano pode marcar fim da expansão do crédito

Este ano promete encerrar o ciclo virtuoso de expansão do crédito na economia brasileira iniciado em 2003, quando os empréstimos representavam menos de um terço do Produto Interno Bruto (PIB). Pela primeira vez em mais de uma década, o percentual de crescimento dos empréstimos dá sinais de que ficará abaixo da inflação anual, resultando em um encolhimento do saldo em termos reais.

Essa perspectiva ganhou força ontem com a divulgação dos dados de crédito de maio. O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, reduziu de 11% para 9% a expectativa de crescimento anual do estoque de crédito no país. As projeções divulgadas no Boletim Focus de segunda-feira mostram que o mercado espera que a inflação, medida pelo IPCA, seja de 8,97% no ano. Ou seja, no melhor dos cenários, o crédito caminha para encerrar 2015 com crescimento real nulo.

O “encolhimento do crédito é cada vez mais estridente e é um dos fatores cruciais para a redução do PIB em 2015″, afirma Thaís Zara, da Rosenberg Consultores Associados. “Com os bancos públicos de fato mais comedidos, pode ser que tenhamos um ano de retração real do crédito, movimento inédito desde 2003″, diz Zara, em relatório.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Pequeno crescimento, grandes retrações

A julgar pelo limitado padrão das bolhas, essa não foi das maiores. De 2002 a 2006, a parcela da economia americana voltada para a construção de imóveis residenciais cresceu para níveis 1,2% do PIB superiores à sua tendência anterior, antes de despencar, no momento em que os EUA mergulhavam na maior crise econômica de quase um século. Segundo cálculos aproximados, o investimento excedente no setor habitacional no período somou US$ 500 bilhões – uma minúscula fração da economia mundial na época do colapso.

O estrago resultante, no entanto, foi assustador. As economias da Europa e da América do Norte estão 6% menores do que tínhamos previsto para o caso de não haver crise. Em outras palavras, uma quantidade relativamente pequena de superinvestimento é responsável por algo em torno de US$ 1,8 trilhão em produção perdida a cada ano. Pelo fato de esse fosso não dar sinais de fechar, e considerando-se as taxas de crescimento e os retornos sobre as ações previstos, estimo que a perda total de produção acabará alcançando quase US$ 3 quatrilhões. Para cada dólar de superinvestimento no mercado residencial, a economia mundial terá sofrido US$ 6 mil em perdas. Como é possível?

É importante observar que nem todas as recessões causam tantos problemas. Os choques financeiros de 1987, 1991, 1997, 1998 e 2001 (quando se perderam cerca de US$ 4 trilhões em investimentos excedentes com o estouro da bolha das pontocom) tiveram pouco impacto sobre a economia real como um todo. O motivo pelo qual as coisas foram diferentes desta vez pode ser encontrado em um estudo recentemente publicado de Òscar Jordà, Moritz Schularick e Alan M. Taylor. Grandes surtos de crescimento do crédito, revelam os autores, podem piorar grandemente os danos causados pelo colapso de uma bolha de ativos.

Em um mundo no qual uma meta de 2% de inflação parece pétrea, nossas opções de política pública estão um tanto limitadas. E é por isso, em última instância, que um surto de crescimento relativamente pequeno pode levar a uma retração tão grande

Historicamente, quando uma recessão é causada pelo estouro de uma bolha de ativos que não tenha sido alimentada por um surto de crescimento do crédito, a economia fica aproximadamente de 1 a 1,5% abaixo do nível em que normalmente estaria cinco anos após o início do período de retração econômica. Quando há a participação de um surto de crescimento do crédito, no entanto, as perdas são significativamente maiores. Quando a bolha se desenvolve sobre os preços das ações, o desempenho da economia fica 4% abaixo do normal, em média, após cinco anos – e até 9% abaixo do normal quando a bolha ocorre no mercado de imóveis residenciais. Em vista dessa descoberta, fica claro que os problemas enfrentados durante o início da crise econômica não se diferenciam muito da experiência histórica.

Para muitos economistas, as recessões são uma parte inevitável do ciclo econômico – a depressão que necessariamente se segue, como uma ressaca, a qualquer surto de crescimento. John Maynard Keynes, no entanto, teve pouco tempo para incorporar esse ponto de vista. “Parece uma imbecilidade extraordinária que essa maravilhosa explosão de energia produtiva fosse o prelúdio do empobrecimento e da depressão”, escreveu Keynes em 1931, após os anos de surto de crescimento da década de 1920 terem dado lugar à crise de 1929. “Encontro a explicação para as atuais perdas de atividade econômica, para a redução de produção e para o desemprego que necessariamente se segue a ela não no alto nível de investimentos que se estendeu até a primavera de 1929, mas na subsequente cessação desse investimento”.

Alguns anos depois, Keynes propôs uma solução para o problema. Em “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, Keynes explicou como se formam os surtos de crescimento quando “investimentos que, na verdade, rendem, digamos, 2% em condições de pleno emprego são feitos na expectativa de um rendimento de, digamos, 6% e são avaliados correspondentemente”. Em uma recessão o problema muda de figura. Prevê-se que investimentos que renderiam 2% “renderão menos que nada”.

O resultado é uma profecia autorrealizada, na qual o desemprego generalizado efetivamente empurra os retornos desses investimentos para níveis abaixo de zero. “Chegamos a uma situação em que há uma escassez de casas”, escreveu Keynes, “mas em que, apesar disso, ninguém tem condições financeiras de morar nas casas que existem”.

Sua solução foi simples. “A medida certa a tomar para o ciclo comercial não está em abolir os surtos de crescimento, mantendo-nos, assim, permanentemente, numa semirretração; e sim em abolir as retrações, mantendo-nos assim permanentemente num semissurto de crescimento”. Para Keynes, o problema subjacente foi a falha dos canais de crédito da economia. A reação financeira ao estouro de uma bolha e à resultante onda de falências empurra a taxa natural de juros para abaixo de zero, embora ainda haja muitas maneiras de colocar pessoas no trabalho produtivo.

Atualmente, reconhecemos que a obstrução dos canais de crédito pode gerar uma retração econômica. Existem três reações comumente propostas. A primeira são políticas fiscais expansionistas, com os governos ocupando o espaço diante da fragilidade do investimento privado. A segunda é a elevação da meta de inflação, o que dá aos bancos centrais mais espaço para reagir aos choques financeiros. E a terceira é a adoção de severas restrições ao endividamento e à alavancagem, principalmente no mercado habitacional, a fim de impedir a formação de uma bolha dos preços alimentada pelo crédito.

A essas soluções, Keynes teria acrescentado uma quarta, atualmente conhecida como a chamada “opção de venda Greenspan” – o uso da política monetária para referendar os preços dos ativos alcançados no auge da bolha.

Infelizmente, em um mundo no qual a austeridade fiscal parece exercer um poder hipnótico sobre os políticos, e no qual uma meta de 2% de inflação parece pétrea, nossas opções de política pública estão um tanto limitadas. E é por isso, em última instância, que um surto de crescimento relativamente pequeno pode levar a uma retração tão grande. (Tradução de Rachel Warszawski)

J. Bradford DeLong é professor de Economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica. Copyright: Project Syndicate, 2015.

www.project-syndicate.org
Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Bancos avançam na estratégia digital em busca de mais retorno

Como já ocorreu em outros setores, a tecnologia se mostra disruptiva para os bancos e se tornou um dos principais focos na estratégia das instituições financeiras. No Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e agora também o Banco do Brasil têm avançado em ferramentas voltadas para uma clientela cada vez mais digital.

É com esse modelo que os bancos buscam maior retorno, economia de custos e um atendimento que deverá ser cada vez mais empacotado de acordo com o perfil de cada correntista.

De passagem pelo Brasil para participar do Ciab Febraban e lançar o livro “A new era in banking – The landscape after the battle”, o líder global de serviços financeiros da Accenture, Juan Pedro Moreno, considera o posicionamento tecnológico dos bancos um dos quatro pontos mais importantes em suas estratégias. Isso porque o ambiente regulatório no pós-crise e novos perfis de clientes tornaram mais complexo para os bancos preservarem sua rentabilidade.

“Acreditamos que essa era digital está realmente se tornando um ponto chave para os bancos recuperarem o retorno sobre o patrimônio”, disse. “Isso (a tecnologia) vai garantir que acessemos os clientes de uma maneira muito melhor e também reduzir dramaticamente os custos”, disse.

Na semana passada, o presidente do Banco do Brasil, Alexandre Abreu, anunciou que uma das apostas estratégicas da instituição em 2015 é a agência digital, modelo que já existe nos concorrentes privados. O banco pilota um projeto no sul do país e a intenção é começar a expandi-lo para outras praças.

No caso do Bradesco, um dos pioneiros a investir no modelo de agência digital, há cerca de 3 milhões de correntistas (de um total de 26 milhões) que não entram numa agência bancária há mais de um ano. Nem todos, no entanto, são clientes da agência digital, que é ainda restrita ao perfil de alta renda. Neste modelo especificamente, o Bradesco atende cerca de 20 mil pessoas e agrega o atendimento virtual 24 horas por gerentes e consultores de investimento.

Grande parte desses clientes está em São Paulo, mas a expectativa é ampliar o escopo para Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. “Hoje temos uma agência (digital) de 20 mil clientes, mas temos capacidade para atender 100 mil pessoas”, diz o vice-presidente do banco responsável pela rede de agências, Josué Augusto Pancini.

Com a aposta em meios digitais, a perspectiva do Bradesco é também reduzir custos. Pancini diz que uma transação de pagamento, por exemplo, é 10 vezes mais barata quando é feita pela internet.

Dentre os canais digitais, o celular é o que mais cresce. Em março de 2014, 15% das transações no Bradesco eram feitas pelo aplicativo no celular, número que representava 28% em março. O canal tirou consumidores de diferentes meios, inclusive da internet tradicional, ambiente em que o percentual das transações no banco passou de 20% para 15% entre as pessoas físicas, no mesmo período.

Novas transações também começam a ser feitas pelo celular. De maio de 2014 a maio de 2015, o número de transações de investimentos pelo celular cresceu 137% no banco, as operações de pagamento tiveram alta de 157% e as de empréstimos subiram 163%.

No Santander, de acordo com o superintendente-executivo de canais, Massimo Campodonico, 35% da base de clientes utiliza canais digitais (internet banking e celular). O banco também oferece o modelo de atendimento em agência digital para um grupo de clientes e estuda expandir a iniciativa.

Segundo Campodonico, a estratégia do banco hoje alcança alguns clientes pessoa jurídica e aqueles com renda entre R$ 4 mil e R$ 10 mil. A perspectiva é também ampliar o modelo para clientes com renda superior – com um serviço mais aprofundado de consultoria financeira – e também para estudantes.

Além da iniciativa de agência digital, Campodonico conta que o banco está reformulando o internet banking para oferecer maior número de transações on-line. “Os funcionários do banco estão testando a nova plataforma e estamos recebendo os comentários. Devemos lançar ainda neste ano”, disse.

Procurados, Caixa e Itaú Unibanco não concederam entrevista. Em conversa recente com o Valor, o Itaú afirmou que tem se espelhado no modelo de grandes empresas de tecnologia como Amazon, Apple e Facebook para criar um padrão de atendimento digital que aproxime mais a instituição dos clientes.

O banco informou, por meio da assessoria de imprensa, que 60% de suas transações já são feitas por internet e celular, ante 40% nos canais tradicionais – o que engloba agências, caixas eletrônicos e centrais de atendimento.

Para Juan Pedro Moreno, da Accenture, os bancos evoluem para um modelo em que saltarão para o mundo da tecnologia digital e deverão operar em colaboração com as grandes companhias de tecnologia, como Google e Apple. “Vejo os bancos brasileiros muito interessados na transformação digital. O mercado reúne as três características mais importantes para torná-lo atrativo ao digital: é um mercado grande – com muitos consumidores e habitantes -, é um mercado em crescimento e é um mercado em que o acesso a tecnologia é tremendamente fácil”, disse.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Aperto segue mesmo quando juro parar de subir

Só quando a inflação de 4,5% em dezembro de 2016 estiver “satisfatoriamente assegurada” é que será a hora de o Banco Central parar o ciclo de elevação dos juros que começou em abril de 2013 e já aumentou a Selic em 6,5 pontos percentuais. O momento de começar a distensão monetária será quando as expectativas de inflação estiverem plenamente ancoradas. “Se as projeções do Banco Central apontarem inflação de 4,4% mas a expectativa do mercado estiver em 5%, não será um momento bom para começar a distender a política monetária”.

Essa foi a síntese feita por uma autoridade do governo que considerou boa, inclusive, a reação de economistas do mercado financeiro – que avaliam que os juros já subiram demais. Isso “ajuda na convergência das expectativas” para a meta de 4,5% em 2016, disse.

Mesmo depois de parar o ciclo de alta da taxa Selic, isso não significará que está encerrado o período de aperto das “condições monetárias” no país. Os juros podem ficar estáveis e a expectativa de inflação cair, mantendo, assim, o aperto, explicou, indicando as possíveis estratégias de reação do BC. “O aperto não se encerra quando o BC para de subir os juros”, disse.

A inflação está demorando mais do que o previsto a cair. O governo esperava que o IPCA de maio fosse bem menor do que o 0,74% que veio, mas a “sazonalidade” ruim, com o atraso das chuvas, impediu a queda dos preços dos alimentos. O fato de a expectativa de inflação ter subido para 8,79% este ano não foi bom para a meta de 2016.

A avaliação, na área econômica, é de que o BC conseguiu progressos na sua cruzada pela meta de inflação no médio prazo. O ano começou com expectativa de 6,56% para o IPCA deste ano, que agora é de 8,79%. A piora do curto prazo foi acompanhada de uma melhora das expectativas para o médio e longo prazos. Entre o início do ano e agora os prognósticos do mercado reduziram a inflação do ano que vem de 5,70% para 5,50%; de 5,50% para 4,80% a de 2017; de 5,50% para 4,70% a de 2018; e para 4,50% o IPCA de 2019.

Atribui-se ao aumento dos juros de 7,25% ao ano em abril de 2013 para 13,75% hoje esses ganhos de expectativas. “Não fosse a elevação da Selic, teríamos deixado a inflação contaminar os próximos quatro anos, período em que a economia ficaria patinando”, disse uma fonte.

No BC, espera-se chegar em setembro, quando o Fed (Federal Reserve) deve começar a elevar os juros americanos, com as projeções bem mais próximas da meta. A rolagem de swaps cambiais, agora reduzida a 70%, continuará obedecendo as condições de mercado.

A atividade econômica está, na visão de autoridades da área econômica, em seu pior momento. Este ano, se alguma recuperação ocorrer no quarto trimestre será uma questão estatística.

Como a inflação segue elevada, as pressões políticas sobre o Banco Central estão ainda razoavelmente amenas. O problema será quando a inflação começar a ceder e a autoridade monetária tiver que continuar a subir os juros. Há uma convicção, porém, de que a presidente Dilma Rousseff, assim como está dando suporte ao ajuste fiscal do ministro da Fazenda, também está de acordo com a política do BC.

A projeção de inflação do BC chegará em 4,5% muito antes do fim de 2016, como indicou o diretor de assuntos internacionais, Tony Volpon, em pronunciamento feito na quarta feira em Londres. É muito provável que no relatório de inflação de setembro a projeção já esteja na meta.

Nessa hora o BC terá que ter uma estratégia. Se, diferentemente do previsto pela autoridade monetária, a inflação se desviar “para cima”, o BC subirá mais os juros. Mas se o desvio for “para baixo”. “aí teremos que olhar as expectativas de inflação” e estas terão que estar ancoradas para que se desmonte o aperto dos juros que já dura pouco mais de dois anos.

Para o BC, a presença de um ministro da Fazenda alinhado com a austeridade é de grande ajuda. O ambiente político instável, porém, afeta as expectativas e dificulta o trabalho da instituição, segundo avaliam fontes qualificadas. “Nosso maior problema, hoje, não é econômico. É político” admitem autoridades do governo.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Fed indica alta de juros lenta e gradual

O Federal Reserve deu sinais de que está inclinado a aumentar os juros até o fim do ano, agora que os indícios de desaceleração da economia dos Estados Unidos começam a se dissipar. Mas o ritmo da alta de juros pode ser mais lento do que os dirigentes do banco central americano previram.

Por ora, o Fed afirmou que a taxa referencial de juros “continua adequada”.

Nas previsões sobre o cenário de juros que o Fed divulgou ontem, 15 entre 17 dirigentes disseram que esperam começar a aumentar os juros de curto prazo antes do fim de 2015. As projeções indicam que as autoridades estão gravitando na direção de uma alta de 0,25 a 0,5 ponto percentual até dezembro. Isso tiraria a taxa de referência do nível próximo a zero em que está desde dezembro de 2008.

Na última vez que o Fed fez projeções como essa, parecia estar se formando um consenso no banco em torno de duas altas neste ano. O Fed também reduziu em 0,25 ponto percentual suas projeções para as taxas de juros em 2016 e 2017. A mudança sinaliza que o banco central ficou menos seguro quanto ao vigor da economia americana no longo prazo e sua capacidade de suportar juros muito mais altos. De fato, o crescimento da produção neste ano parece novamente destinado a frustrar as expectativas do Fed.

Numa coletiva de imprensa realizada após a reunião de política monetária, a presidente do Fed, Janet Yellen, disse que a importância do aumento inicial de juros “não deve ser exagerada”. Ela enfatizou que, mesmo depois da primeira alta, a política do Fed ainda vai continuar sendo amplamente acomodatícia.

O Fed “continua a julgar que o primeiro aumento na taxa de fundos federais será apropriado quando tiver visto uma melhora maior no mercado de trabalho e uma confiança razoável de que a inflação vai voltar à meta de 2% [ao ano] no médio prazo”, acrescentou ela. “Na nossa reunião encerrada hoje, o Comitê [Federal de Mercado Aberto] concluiu que essas condições ainda não foram atingidas.”

As ações e títulos de dívida subiram nos EUA depois do comunicado do Fed, já que investidores viram que a alta dos juros deve ser mais lenta que o esperado.

“O Fed não nos deu muita informação nova”, diz Gary Pollack, que ajuda a administrar US$ 12 bilhões como responsável pelas operações de renda fixa na unidade de gestão de fortunas do Deutsche Bank em Nova York. “A conclusão é que eles continuam pretendendo subir os juros neste ano, mas o ritmo vai ser lento.”

Ontem, a Média Industrial Dow Jones subiu 31,26 pontos, ou 0,17%, para 17.935,74, e os preços das notas do Tesouro (Treasurys) de dez anos, referência para o mercado, avançaram ligeiramente, com o rendimento caindo para 2,305% ao ano. (O rendimento cai quando os preços sobem e vice-versa.)

A reunião de junho recebeu uma atenção considerável porque os dirigentes do Fed declararam, em março, que uma alta dos juros seria possível se a economia tivesse um desempenho conforme as expectativas. No começo do ano, muitas autoridades do banco acreditavam que uma alta dos juros em junho era um cenário provável. Mas um inverno rigoroso nos EUA, que afetou a atividade econômica, frustrou esses planos e muitos investidores agora preveem que o primeiro aumento dos juros vai ocorrer em setembro.

Durante a coletiva de imprensa, Yellen disse também que o comitê vai decidir quando começar a elevar as taxas dos fundos federais “de reunião em reunião”, dependendo da avaliação que fizer dos “dados econômicos recebidos e de suas implicações no cenário econômico”.

Num comunicado de política que acompanhou suas novas projeções para a economia e os juros, o Fed apontou com algum alívio para uma melhoria no panorama econômico, depois que a economia americana se contraiu no primeiro trimestre. E, embora a inflação continue abaixo da meta de 2%, o Fed observou que os preços dos combustíveis se estabilizaram depois de terem empurrado a inflação para baixo.

A mediana das estimativas de juros para 2016 caiu para 1,625% ao ano, comparada com a previsão de 1,875% feita em março. A mediana das estimativas para 2017 recuou para 2,875% ao ano, ante 3,125% em março.

Nas projeções econômicas que acompanharam o seu comunicado, o Fed revisou para baixo a estimativa de crescimento econômico nos EUA em 2015. Em março, o Fed previu que a produção econômica iria se expandir de 2,3% a 2,7% neste ano. Nessa mais recente projeção, a estimativa de crescimento caiu para entre 1,8% a 2%.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior