Monthly Archive: May 2015

Inflação é pior para PIB do que juros

A preocupação com o custo imposto pela política monetária à atividade econômica tem ocupado um espaço importante nos debates entre profissionais do mercado financeiro. A surpresa negativa vinda dos dados de emprego e a perspectiva de uma queda ainda mais forte do PIB neste ano colocam em questão o benefício da postura classificada de “ultraortodoxa” do Banco Central.

Mas, para economistas que integram o grupo dos “Top 5″ para a Selic – a elite que mais acerta as previsões na pesquisa do BC – e profissionais de grandes instituições financeiras, o impacto negativo da continuidade do aperto monetário sobre a economia ainda é menor que o imposto pela inflação elevada. Isso porque o efeito adverso sobre a atividade fica mais restrito ao curto prazo, enquanto a alta generalizada de preços mina a confiança e trava a economia por um período mais longo.

Profissionais do mercado consultados pelo Valor argumentam que a retomada do crescimento depende da melhora da confiança dos investidores, o que passa por um cenário de inflação sob controle. Por isso, consideram que o juro pode subir mais e até permanecer elevado por um período mais prolongado.

O economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, diz que a discussão sobre um “exagero” da parte do BC faria sentido apenas se as expectativas de inflação já tivessem caído para perto de 4,5%, “o que não é o caso”. Segundo o economista, só quando o modelo econométrico rodado pelo BC indicar uma inflação mais próxima do centro da meta em 2016 é que se deve esperar um sinal mais claro de interrupção do ciclo. “Mas, ainda assim, talvez o BC tenha que manter a política monetária apertada por mais tempo para garantir a convergência da inflação à meta.”

“A economia já vem fraca não é de agora. E o que vai fazer esse declínio se aprofundar neste ano é a inflação, simplesmente porque esse círculo vicioso de aumento de preços tira qualquer estímulo ao investimento. E investimento é básico para o crescimento do PIB”, afirma.

O economista estima que o BC elevará a Selic em mais 0,50 ponto na semana que vem e vê um aumento adicional de 0,25 ponto no encontro do Copom de julho. Dessa forma, a Selic terminaria dezembro em 14% ao ano. A inflação projetada por ele para 2016 é de 5%, e o PIB neste ano deverá cair 1%.

“O BC tem mostrado uma preocupação com os efeitos secundários do choque dos preços relativos e vai acabar fazendo um ciclo de aperto monetário mais extenso que o esperado”, afirma Tatiana Pinheiro, economista do Santander. O banco, que esperava um aumento de 0,25 ponto para a reunião de junho, mudou a projeção e prevê uma elevação de 0,5 ponto no próximo encontro, além de uma alta adicional de 0,25 ponto em julho.

Para Tatiana, esse ciclo maior de aperto monetário deve ter um impacto na atividade e levar a economia a um crescimento mais fraco. Mas essa ação é necessária, porque ajuda no processo de queda da inflação, contribuindo para a sua convergência para a meta. “O ano vai ser de crescimento econômico fraco, estamos prevendo um avanço do PIB de 0,5% em 2016. O realinhamento dos preços e a própria depreciação do câmbio devem ajudar a recuperação em alguns setores. Além disso, o ajuste fiscal deve melhorar a confiança na economia”, afirma.

O economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Alves Melo, diz que a fraqueza da atividade decorre de muitos outros elementos além da política monetária, que teria apenas uma pequena parcela nessa conta. Melo lembra que as incertezas políticas vindas desde o ano passado, a Operação Lava-Jato e a redução dos estímulos fiscais agravam a desconfiança do investidor com o quadro de inflação pressionada dos últimos anos. “Atacar essa inflação é o primeiro passo para romper com o pessimismo do investidor”, afirma.

Melo afirma ainda que o atual BC tem dado um peso maior às expectativas de inflação do que ao hiato do produto – a diferença entre o crescimento do PIB potencial e o concreto. Isso explica, na visão do economista, o tom mais duro do BC contra a alta dos preços, a despeito do custo da atividade.

Num sinal de que a dose de aperto monetário do BC não parece excessiva, o economista estima um IPCA de 5,7% em 2016, mesmo com a Selic podendo ir este ano a 14,25% e o PIB devendo recuar, nas contas dele, 1,9%.

Uma postura excessivamente ortodoxa pode gerar problemas mais sérios para a economia, afirma o especialista em macroeconomia da MCM Consultores Associados Antonio Madeira. O principal deles, alerta, seria o de gerar desconfiança com a solvência da dívida. Mas, nas atuais circunstâncias, esse tema não está colocado. Madeira não descarta que o BC leve a Selic a 14% neste ano, mas ainda mantém uma previsão oficial de 13,75%, alterada recentemente em meio ao discurso mais “hawkish” (inclinado ao aperto monetário) do BC. Ainda assim, o IPCA ficará, nas contas da MCM, em 5,3% em 2016, distante do centro da meta do governo, de 4,5%.

“É preciso confirmar ainda o impacto da recessão sobre a inflação, o que deve ocorrer talvez até junho, julho, para só depois se pensar numa Selic estável por mais tempo.”

Para o economista da Porto Seguro Investimentos, José Pena, a grande questão para o balanço de risco entre atividade e inflação é o “timing” do corte da taxa básica. Ele acredita que o BC deve estender o ciclo de aperto monetário e voltar a subir a Selic em 0,5 ponto em junho para recuperar a credibilidade e convencer o mercado que, de fato, buscará a meta de inflação de 4,5%. Mas o BC deveria começar a reduzir a taxa no início do ano que vem, com cortes consecutivos até chegar a 11,5%. Ele acredita que prolongar o ciclo de alta, ou permanecer com a Selic em um nível elevado por um período longo, tem um custo que pode ser maior que o ganho marginal que pode ter sobre inflação. “Por isso, não vejo razão para ele ir muito além dos 13,75% na taxa Selic”, afirma.

Pena destaca que, apesar do mandato do BC ser o controle da inflação, a autoridade não pode ignorar o comportamento da atividade, que compromete a estabilidade da economia. “Um crescimento fraco prejudica a arrecadação e o ajuste das contas públicas, e também tem implicação sobre o aumento da inadimplência no mercado de crédito”, diz.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

BB assume liderança em captações

O relacionamento comercial estreito com as empresas brasileiras e a forte presença em operações do setor público levaram o Banco do Brasil, pela primeira vez, à liderança do “Ranking Valor de Captações Externas”.

No ano passado, o BB desbancou nomes tradicionais na área e se tornou o primeiro banco brasileiro a liderar a coordenação de captações externas, com US$ 6,054 bilhões, incluindo emissões de bônus e empréstimos sindicalizados. Quase a totalidade desse montante se refere a ofertas de bônus no mercado internacional, área em que o banco avançou nos últimos anos.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Por menos e melhores finanças

É possível ter um setor financeiro grande demais? A maioria das pessoas comuns, afligida pelas crises financeiras, indignada com os pacotes de auxílio às instituições financeiras, irritada com a remuneração generosa no setor, desconcertada com as repetidas transgressões e enfurecida com a impunidade dos responsáveis, acharia fácil responder que “sim”.

Elas não estão sozinhas. Tanto acadêmicos quanto técnicos de instituições internacionais influentes, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco de Compensações Internacionais (BIS), concordam. As finanças podem, de fato, assumir um papel grande demais. E a economia de países expressivos está nessa situação, Japão e Estados Unidos entre elas.

É fácil questionar o papel da atividade financeira. Afinal, entre janeiro de 2012 e dezembro de 2014, as instituições financeiras pagaram US$ 139 bilhões em multas a agências fiscalizadoras dos EUA. Ainda mais fundamental, é o contraste entre os 7% de participação média do setor financeiro no Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA entre 1998 e 2014 e sua participação média de 29% nos lucros.

Há muitas evidências de que um papel grande demais das finanças prejudica a estabilidade econômica e o crescimento, distorce a distribuição de renda, corrói a confiança na economia de mercado, corrompe a política e resulta em aumento explosivo da regulação

Uma sociedade organizada oferece duas formas para tornar-se rico. A normal tem sido exercer um poder monopolista. As economias de mercado com competição oferecem alternativa mais desejável socialmente: a invenção e a produção de bens e serviços.

Infelizmente, também é possível buscar renda improdutiva nos mercados via pressão política. O setor financeiro, com sua complexidade e subsídios implícitos, está em ótima posição para fazê-lo. Tais práticas, no entanto, não apenas transferem dinheiro de um grande número de pessoas pobres para um número menor de pessoas ricas. Também impactam gravemente a economia.

Esse é o argumento de Luigi Zingales, da Chicago Booth School, um forte defensor dos livres mercados, em seu discurso presidencial na American Finance Association. Os danos ocorrem em duas formas. A primeira são os danos diretos: uma onda de crescimento insustentável, alimentada por crédito, digamos. A outra são os danos indiretos, resultantes da quebra da confiança nos acordos financeiros, seja por crises, por “fraudes” generalizadas ou ambas.

O professor Zingales enfatiza os custos indiretos. Argumenta que um círculo vicioso pode emergir entre a indignação pública, a busca de renda improdutiva via pressão política e, novamente, mais indignação. Quando a indignação é grande, é difícil manter uma abordagem equitativa e eficiente no respeito aos contratos. Sem apoio público, os financistas buscam proteção política. Apenas os que gozam de altas rendas, no entanto, podem arcar com o custo de fazer lobbies. Portanto, diante do ressentimento público, apenas a parte do setor financeiro que busca renda via pressão política – acima de tudo, os bancos mais poderosos – sobrevive. Inevitavelmente, isso gera ainda mais indignação.

Nada disso contesta que as finanças sejam essenciais para qualquer sociedade civilizada e próspera. Ao contrário, é a própria importância das finanças que torna os abusos tão perigosos. De fato, há evidências substanciais de que o aumento no crédito em relação ao PIB inicialmente eleva o crescimento econômico. Essa relação, no entanto, parece reverter-se quando o crédito supera o patamar em torno dos 100% do PIB. Outros analistas mostraram que expansões muito rápidas no crédito são um sinal significativo de crises. Em recente informe, o FMI usa um indicador mais refinado de desenvolvimento financeiro do que a proporção de crédito. Esse indicador mostra que realmente o desenvolvimento das finanças foi rápido, mais notavelmente nos países avançados. Também mostra que, depois de certo ponto, as finanças prejudicam o crescimento. Outras pesquisas indicam que esse efeito negativo está concentrado no crescimento da “produtividade total dos fatores”. Essa produtividade mede o ritmo de inovação e de melhora na eficiência com que o capital e o trabalho são usados.

Houston, temos um problema. Temos muitas evidências de que um papel grande demais das finanças prejudica a estabilidade econômica e o crescimento, distorce a distribuição de renda, corrói a confiança na economia de mercado, corrompe a política e resulta em aumento explosivo – e com toda a probabilidade ineficaz – da regulamentação. Isso deveria preocupar a todos. Mas deveria ser particularmente preocupante para aqueles que mais acreditam nas virtudes econômicas e morais de mercados em que há competição.

Então, o que precisa ser feito? Aqui vão algumas respostas preliminares.

Primeira, a moralidade importa. Como argumenta o professor Zingales, se os que entrarem nas finanças forem encorajados a achar-se capazes de fazer o que quiserem sem arcar com as consequências, a confiança vai se quebrar. É muito dispendioso policiar mercados repletos de conflitos de interesse e informações assimétricas. Em termos gerais, não policiamos os médicos porque acreditamos neles. Precisamos poder confiar nos financistas de forma parecida.

Segunda, reduzir os incentivos ao papel excessivo das finanças. De longe, o incentivo mais importante é a dedutibilidade tributária dos juros. Isso deveria acabar. No longo prazo, muitos dos contratos de títulos de dívida precisam ser transformados em contratos de compartilhamento de risco.

Terceira, livrar-se das questões do “grande demais para falir” e do “grande demais para prender”. As duas caminham juntas. A forma mais simples de livrar-se do grande demais para falir seria elevar substancialmente o capital próprio exigido das instituições financeiras de importância sistêmica mundial.

Muitas, então, optariam por desmembrar-se. Uma vez que isso tivesse ocorrido, diminuiria o temor quanto às consequências que algum processo poderia ter. Pessoalmente, eu iria além, separando o sistema monetário do financeiro, por meio da introdução do “banco seguro” – ou seja, lastrear os depósitos com reservas no banco central.

Por fim, todos precisam entender os incentivos em funcionamento em todos esses mercados baseados em “promessas”. Esses mercados estão expostos à corrupção de pessoas que não ligam se as promessas são mantidas ou nem mesmo se as contrapartes são capazes de compreender o que está sendo prometido.

O que se precisa não é de mais finanças, mas de melhores finanças. Sim, isso também pode acabar significando substancialmente menos finanças.

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Executivos veem sinais de retomada

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No momento em que o trabalho do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é questionado por setores do governo e do PT, executivos das maiores empresas do país afirmam que, por causa do ajuste em curso, a confiança dos empresários na política econômica começa a ser restabelecida, criando as condições para o retorno dos investimentos.

Os executivos já veem sinais de que, no segundo semestre, a economia terá um desempenho melhor. “O ajuste nos dá coragem para investir o necessário para continuarmos crescendo”, disse o presidente da CPFL, Wilson Ferreira Jr., um dos 23 executivos agraciados com o prêmio “Executivo de Valor “.

“Tendo passado pelo período mais crítico, que será este primeiro semestre em termos de crescimento econômico, no segundo começa uma pequena recuperação”, afirmou Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco. “Vejo todo o esforço do governo, neste momento, para criar um verdadeiro superávit primário como solução, não como problema. Vejo como problema os desvios que tivemos anteriormente.”

Também premiado na noite de ontem, o presidente da Fiat na América Latina, Cledorvino Belini, disse que o setor automotivo deverá sentir os primeiros sinais de reação no fim do ano. Ele admitiu que não esperava um “freio” tão forte na atividade econômica, mas manifestou confiança na recuperação gradual, à medida que melhorem as expectativas do consumidor sobre a economia. “Entendo que esse ajuste é necessário para recolocar o país no caminho do crescimento.”

Apesar do ano difícil, o presidente da Whirlpool para a América Latina, João Carlos Brega, espera um segundo semestre melhor que o primeiro, “embora pior que o segundo semestre de 2014″. Para o presidente da Porto Seguro, Fábio Luchetti, 2015 será um pouco “mais morno” e os negócios só devem começar a se recuperar no quarto trimestre, “quando as mudanças já estarão em pleno vigor e os empresários poderão dimensionar os impactos para voltar a investir”.

As opiniões sobre a retomada, entretanto, não são unânimes. Representantes de alguns dos setores que mais têm sofrido com a retração da economia seguem pessimistas. “As exportações vão cair e o mercado interno já está reduzindo. Os investimentos estão congelados. Estamos apenas concluindo o que já estava aprovado”, disse Márcio Utsch, presidente da Alpargatas. Já o presidente da WEG, Harry Schmelzer Jr., disse que os projetos da companhia na China e no México estão “a todo vapor”, mas, no Brasil, as perspectivas não são positivas.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Na remuneração do acionista, dividendo pode ganhar espaço

Caso seja aprovado o fim da dedutibilidade dos juros sobre capital próprio para o cálculo dos tributos sobre o lucro, essa forma de distribuição de ganhos deve perder espaço para o tradicional pagamento de dividendos. A dedutibilidade é atualmente o principal atrativo para as empresas substituírem parte importante da distribuição de dividendos pelos juros sobre capital próprio.

“Se não houver mais dedutibilidade, praticamente ninguém mais vai usar os juros sobre capital próprio”, diz o tributarista Luís Rogério Farinelli, sócio do Machado Associados.

Atualmente a dedutibilidade permite que o valor pago em juros sobre capital próprio fique livre de 34% de tributação, somados o Imposto de Renda (IR) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Esse benefício compensa a tributação de 15% de IR na fonte no momento da distribuição.

Em alguns casos, ficar livre dos 34% de IR e CSLL compensa também os 9,25% de Programa de Integração Social (PIS) e de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) recolhidos sobre o recebimento de juros sobre capital próprio, caso o beneficiário seja também uma pessoa jurídica, diz o tributarista Luciano Nutti, da Athros Auditoria e Consultoria. “Nesse casos, a conta leva considera o efeito de carga tributária global sobre todas as empresas do grupo.”

Se o beneficiário for pessoa jurídica, lembra Nutti, há ainda a vantagem adicional de o IR na fonte ser uma mera antecipação que pode ser descontada do imposto devido no período. No caso do beneficiário ser pessoa física, essa vantagem não existe porque o recolhimento desse IR é exclusivo na fonte e, por isso, não pode ser tratado como antecipação.

Se não houver mais dedutibilidade, porém, diz Farinelli, a distribuição de dividendos fica mais atrativa porque terá carga tributária menor do que a de juros sobre capital próprio. O lucro passível de distribuição como dividendo, diz ele, já passou pela tributação de 34% de IR e CSLL, mas não sofre recolhimento de IR na fonte de 15%, seja o beneficiário pessoa física ou jurídica.

“Na prática o fim da dedutibilidade aumenta a carga de IR e CSLL sobre as empresas que pagam juros sobre o capital próprio e torna essa alternativa inviável”, diz Farinelli. Esses juros, além de atualmente representarem uma alternativa com menor carga tributária que o pagamento de dividendos em muitos casos, diz ele, permitem que as companhias amenizem os efeitos da inflação.

“Não é à toa que o limite para pagamento desses juros leva em conta a variação da TJLP sobre o capital próprio”, argumenta. “Com o fim da correção monetária de balanço, em 1995, lembra ele, essa foi a forma que permitiu às companhias descontar do IR e da CSLL ao menos uma parte dos efeitos da inflação e não pagar esses impostos sobre resultados que são apenas decorrentes da variação de preços.” A indedutibilidade, se for aprovada neste momento, diz Farinelli, tirará esse instrumento das empresas justamente num momento em que a inflação começa a assustar mais. Serão afetadas, diz, as companhias do lucro real, que auferem lucro e possuem bom patrimônio líquido.

O economista José Roberto Afonso lembra que os juros sobre capital também serviram como forma de equalizar as condições entre as empresas que tomam empréstimos de terceiros, o que permite a dedução dos juros pagos, e as companhias que fazem uso do capital próprio. “A mudança deve desestimular o mercado financeiro num momento em que se precisa encontrar alternativas ao crédito estatal, com maior diversidade de fontes de financiamento.”

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Bônus brasileiros sobem e estimulam novas ofertas

A alta no mercado secundário dos títulos de dívida externa do Itaú Unibanco e da Votorantim Cimentos, emitidos nos últimos dias, tem atraído novos emissores brasileiros para o mercado, inclusive empresas “high yield” – que pagam juros mais altos em razão do maior risco. Entre as operações atualmente e previstas para as próximas semanas estão a da subsidiária americana da JBS e a da produtora de alimentos BRF.

Os bônus do Itaú que têm vencimento em três anos e pagam cupom de 2,85% ao ano, eram negociados entre 100,30% e 100,50% do valor de face na tarde de ontem, segundo um operador. Na oferta, que somou US$ 1,050 bilhão e foi encerrada terça-feira no mercado asiático, os papéis saíram a 99,971% do valor de face.

Os papéis da Votorantim, denominados em euros, sobem ainda mais. Os títulos, que vencem em 2022 e pagam cupom de 3,5%, foram emitidos em 7 de maio a 98,5% do valor de face e ontem eram negociados no mercado secundário a cerca de 100,60% do valor de face. Com a oferta, a Votorantim Cimentos captou ¤ 500 milhões.

Essas foram as duas primeiras ofertas de bônus de emissores brasileiros no ano e ocorreram após quase seis meses sem captações externas. Segundo uma fonte, o bom desempenho dos papéis no mercado secundário motiva outras companhias brasileiras, inclusive “high yield”, a sondar o mercado.

A JBS USA ampliou de US$ 600 milhões para US$ 900 milhões uma captação com a emissão de bônus com vencimento em 2025. Com os recursos, a empresa vai recomprar os títulos em circulação que vencem em 2018 e têm cupom de 8,25% ao ano. O saldo em circulação dessa emissão também é de US$ 900 milhões.

O bom momento também inspira novos modelos de captação. A produtora de alimentos BRF deve ser a primeira empresa brasileira a realizar uma emissão de “green bonds”, títulos de dívida para financiar projetos com foco em sustentabilidade.

A companhia fará na próxima semana uma série de encontros com investidores na Europa (roadshow) para a emissão. O volume da oferta, que para seguir em frente ainda dependerá das condições de mercado, não foi definido, mas deve girar em torno de ¤ 500 milhões.

Em termos de formato, regras e negociação, os “green bonds” são idênticos aos títulos convencionais. No entanto, precisam ser certificados por uma entidade independente que ateste a destinação dos recursos a projetos sustentáveis. A emissão da BRF será coordenada por Bank of America Merrill Lynch (BofA), BNP Paribas, Citi, Morgan Stanley e Santander.

Tanto a BRF como a JBS tiveram elevação na classificação de risco recentemente. A nota da BRF passou de “BBB-” para “BBB”, acima do rating soberano pela Standard & Poor’s, enquanto a JBS subiu de “BB” para “BB+”, apenas um patamar abaixo da classificação de grau de investimento.

FOnte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Crédito fraco leva bancos a ter folga de capital

Até recentemente bastante preocupados com seus níveis de capitalização, os bancos já começam a respirar mais aliviados. Itaú Unibanco e Bradesco, os dois maiores bancos privados do país, começam inclusive a discutir qual destino darão aos recursos em excesso que têm no balanço.

É uma mudança e tanto em relação às previsões feitas pelas próprias instituições financeiras. Cerca de um ano atrás, os principais bancos do país buscavam alternativas para fortalecer seu capital, como venda de ativos e mudanças no pagamento de dividendos.

Em outubro de 2013, com a entrada das regras de Basileia 3, os reguladores começaram a demandar mais recursos de melhor qualidade das instituições, como dinheiro dos acionistas ou títulos de dívida sem muitos privilégios aos credores. Até 2019, essas exigências ficarão mais altas ainda.

A recente sensação de mais conforto se deve largamente à desaceleração do empréstimo, produto responsável pela exigência de mais de 80% de capital. “Entendíamos que o crédito cresceria mais e isso não se concretizou”, diz Luiz Carlos Angelotti, diretor de relações com investidores do Bradesco.

Em suas projeções para capital até 2019, o Bradesco previa uma evolução do crédito entre 10% e 15% ao ano até 2019, quando as regras de Basileia 3 estarão 100% implementadas.

Até agora, porém, a expansão tem sido bem mais lenta no banco. Em 2014, o saldo de empréstimos avançou 6,5%, e, para este ano, a previsão é de 5%. Pelo menos até 2016 o banco não espera que o estoque volte a aumentar a mais de 10%. Situação semelhante se repete em Itaú, BTG Pactual e Santander, sendo que os dois últimos já registram folga de capital há mais tempo.

Em 2019, o Banco Central exigirá que os bancos tenham entre 8,5% e 11% de seus ativos em capital de nível 1, o de qualidade mais alta. Em março, o Bradesco já tinha 12,1% e, por suas projeções, encerraria 2018 com 13,5%.

Com cálculos feitos de uma forma diferente, o Itaú mostra que, se as regras de Basileia 3 estivessem integralmente em vigor hoje, o nível 1 de capital estaria em 11,4%. O número não leva em conta lucros que devem ser acumulados no período, e que, portanto, engordarão o capital, nem a expansão do crédito, que consumirá recursos.

Não foi apenas o crédito mais lento que reforçou os índices de capitalização dos dois maiores bancos do país. O retorno sobre o patrimônio acima de 20% também teve um papel importante. “Nosso foco na constante busca por eficiência no atendimento dos nossos clientes permitiu ganhos operacionais, que contribuiram para o aumento da nossa rentabilidade”, afirma Marcelo Kopel, diretor de relações com investidores do Itaú Unibanco.

Entre os outros elementos que contribuíram para a situação mais confortável estão a guinada que os bancos deram para modalidades de empréstimo de mais baixo risco, como imobiliário e consignado, que demandam menos capital, e o crescimento das receitas de serviços. “A combinação desses fatores propiciou um aumento do resultado, com um consumo de capital que cresceu em velocidade menor”, afirma Kopel.

Até quem estava em situação mais delicada também já está mais tranquilo. É o caso de Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Além de já terem desacelerado a expansão do crédito, ambos os bancos contaram com uma ajuda do controlador: transformaram dezenas de bilhões de títulos de dívida em capital no ano passado.

Segundo o Valor apurou, simulações têm mostrado que o BB até 2017 estará em situação mais cômoda de capital. Por conta disso, o banco teria alternativas suficientes para não vender ações até 2019. Em recente entrevista sobre o resultado do primeiro trimestre, o banco também descartou mudanças no dividendos.

Mesmo assim, para alguns analistas é quase inevitável que o BB tenha de reduzir o patamar de pagamento de dividendos, hoje em 40%. Tito Labarta, do Deutsche Bank, considera o atual nível de 8,68% de capital principal do BB baixo. Um patamar ideal, para ele, seria de 10%. Por isso, Labarta avalia que, a depender da lucratividade alcançada, o banco ainda precise levantar recursos com a venda de novas ações.

No caso da Caixa, a diminuição dos dividendos já está em curso. Alexsandra Camelo Braga, vice-presidente de riscos da Caixa, afirma que o pagamento deste ano para o Tesouro Nacional ficará em torno de 50% do lucro. No ano passado, o percentual foi de 55,6%. “Não vamos ter problema de capital”, diz a executiva. “Também não consideramos aporte de capital do controlador.”

A redução na velocidade de expansão no crédito também contribuirá. No ano passado, o estoque do banco avançou 22,4%. Em 2015, ficará entre 14% e 17%.

Questionada sobre como a abertura de capital da Caixa Seguros pode reforçar o capital do banco, Alexsandra disse que não poderia comentar o assunto. É fato, porém, que a venda das ações detidas pela Caixa tornará o balanço do banco mais robusto. O banco também tem se desalavancado com a venda de carteiras de crédito.

“A capitalização dos bancos públicos despertava preocupação, mas a conversão dos títulos de dívida resolveu isso”, diz Alcir Freitas, vice-presidente de instituições financeiras da Moody’s. “Daqui até 2018, a situação é administrável, mas o que vai determinar isso é o ritmo de expansão do crédito.”

Com mais folga de capital, os bancos privados recebem perguntas de investidores sobre o destino que darão aos recursos.

Uma das opções avaliadas pelo Bradesco é a distribuição de mais dividendos aos acionistas. Essa é uma alternativa considerada também pelo Itaú, mas Kopel diz que o banco também pode buscar expandir seus negócios ou recomprar suas próprias ações.

O Valor apurou que o BTG Pactual considera que uma aceleração na distribuição de dividendos, que teria impacto positivo no retorno, poderia não ser bem vista pelo mercado.

Para Labarta, do Deutsche Bank, não necessariamente os bancos precisam encontrar um destino para a folga de capital agora. “Não há pressa. Dado o cenário macroeconômico, o excesso de capital não é uma característica ruim.”

Em breve, o BC também exigirá mais recursos de bancos considerados domesticamente importantes. A quantidade de capital exigida ainda é desconhecida.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Gestoras cortejam fundações para elevar aplicação no exterior

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De olho em um mercado potencial pujante, gestoras brasileiras e estrangeiras estão partindo para o ataque dos fundos de pensão. O interesse é um só: elevar o investimento internacional das fundações. Conforme os dados da Abrapp, associação que reúne o setor, do patrimônio aproximado de R$ 672 bilhões da indústria ao fim de 2014, apenas R$ 400 milhões estavam alocados no exterior. Pelas regras do mercado, os fundos de pensão podem aplicar até 10% do total em carteiras fora do país.

Para romper a resistência das fundações, as gestoras têm apostado num nicho específico que tende a servir de porta de entrada para o universo internacional: os fundos de fundos, que podem atrair de pequenas a grandes fundações.

No fim de março, a XP Gestão levou sete fundos de pensão para uma rodada de apresentações em Nova York com duas grandes gestoras globais: a AB (nome adotado pela AllianceBernstein) e a Aberdeen. A iniciativa teve como propósito discutir oportunidades, estratégias e riscos de seu fundo de fundos, lançado em outubro. Com um patrimônio ainda pequeno, a carteira investe em até 20 fundos de ações de gestoras com presença global, sem hedge cambial.

“O tema do investimento no exterior fortaleceu-se nos últimos dois, três anos”, diz Patricia Stille, gestora do fundo de fundos da XP. Ela ressalta que, com a nova instrução nº 555, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o investidor qualificado – com R$ 1 milhão em aplicações financeiras – poderá acessar carteiras que investem 100% do patrimônio fora com aplicações mínimas mais baixas, o que dará mais musculatura a esses portfólios e poderá contribuir para a entrada dos fundos de pensão.

A regulamentação brasileira determina que as fundações só podem acessar o mercado externo por meio de um fundo local do qual não tenham mais de 25% do patrimônio. Com isso, pelo menos quatro fundos de pensão com perfis de investimentos similares precisam reunir-se para investir.

Gestoras ligadas a bancos também têm dado cada vez mais atenção ao nicho. A BB DTVM ampliou as frentes de atuação e lançou em dezembro um fundo de fundos, com patrimônio próximo de R$ 19 milhões em março e investimento em carteiras de ações de Pimco, J.P. Morgan, Pictet e BlackRock.

Com alocação apenas em carteiras da própria casa, o HSBC conta com quatro fundos de fundos internacionais. Três deles têm alocação somente em ações, com foco em países desenvolvidos, emergentes e de fronteira, enquanto a quarta carteira é de renda fixa. Embora a estrutura tenha sido lançada em 2013, apenas neste ano a participação dos fundos de pensão começou a ganhar força, diz Adilson Ferrarezi, diretor de fundos multigestor do HSBC Global Asset Management. A estrutura completa, que inclui ainda recursos de clientes private, tem patrimônio em torno de R$ 850 milhões e adesão de 12 fundos de pensão.

Já o Itaú conta com uma equipe em Nova York para selecionar gestores no exterior. O banco tem desde julho de 2013 um fundo de fundos que investe em ações de mercados desenvolvidos por meio de até 12 gestoras, com mais de R$ 270 milhões de patrimônio e seis clientes institucionais. A casa estuda agora ampliar a oferta aos fundos de pensão, com um produto balanceado com mandato global que investe em renda fixa, bolsa, mercado imobiliário e em commodities, hoje disponível apenas aos clientes private.

Entre as gestoras independentes, a M Square tem desde agosto de 2013 um fundo de fundos. Com patrimônio de R$ 115 milhões, a carteira tem recursos alocados por meio de três gestoras baseadas nos Estados Unidos e uma na Inglaterra. Arthur Mizne, responsável pela área de investimentos globais, diz que a instituição tem uma equipe fora que busca oportunidades para alocação e só costuma escolher gestoras independentes para o fundo, que tem investimentos de cerca de nove fundações.

Apesar de destacar que o processo de aprovação para alocação internacional nos fundos de pensão é lento devido à própria governança, Luiz Mario de Farias, líder de investimentos da Towers Watson no Brasil, avalia que o movimento tem se intensificado. “Começou de forma mais forte em 2013, não só com a renda variável ruim, mas também com a renda fixa sofrendo bastante. E continuou em 2014 tanto pela performance do câmbio quanto das bolsas”, observa. A volatilidade cambial recente, contudo, tem atrapalhado as perspectivas deste ano.

Segundo Ferrarezi, do HSBC, o grande desafio é o cliente perceber que a alocação internacional é necessária, independentemente do momento de curto prazo.

Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais e superintendente executivo comercial da Santander Asset Management, ressalta que é esperada uma mudança nos limites de alocação. “Precisamos urgentemente de uma modernização da regulação, mas predomina um pseudopatriotismo de que fundos de pensão têm que investir só no Brasil”, reclama.

O mercado defende que o limite de 25% do patrimônio seja aplicado não ao veículo no Brasil, mas ao fundo no exterior que, por ter maior dimensão, torna mais fácil o enquadramento das fundações.

Com políticas ainda fechadas ou que permitem a alocação internacional há pouco tempo, a temática da diversificação segue como novidade para os fundos de pensão. Na prática, mesmo quando há aprovação dos conselhos para a alocação no exterior, os percentuais tendem a ser baixos.

Uma das primeiras a discutir o tema, a Fundação Cesp (Funcesp) aloca recursos fora desde 2014. O primeiro investimento foi de R$ 40 milhões, voltado aos fundos da BlackRock e da Schroders administrados pela BB DTVM. Embora baixo – a fundação administra patrimônio de R$ 23 bilhões -, o aporte foi importante para quebrar um paradigma, assinala Paulo de Sá Pereira, gerente-executivo de investimento em renda variável.

Com outros R$ 100 milhões para investir fora hoje, a fundação prepara-se para uma nova rodada, com a possibilidade de incluir fundos de fundos como uma opção de investimento. “Imaginamos que, no futuro, a regra será modificada, permitindo que entremos diretamente no fundo que quisermos lá fora. Então nossa estratégia de colocar recursos em fundo de fundos é mais de aprendizagem, de como avaliar os fundo fora, como fazer a ‘due diligence’, a parte de governança”, diz Pereira.

Debutante na seara internacional, a Odebrecht Previdência, que tem patrimônio de R$ 2 bilhões, considera alocar até R$ 15 milhões em renda variável internacional. André Luis Suaide, analista de administração e investimentos, diz que a entidade está de olho na diversificação não só de ativos, mas também de estratégias e moedas.

Com a inclusão no regulamento da alocação internacional em 2013, o Nucleos pode investir até 1% do patrimônio fora. Segundo o diretor-financeiro, Luiz Levy, a ideia é alocar inicialmente metade do permitido. Fundo multipatrocinado, a entidade executa plano de benefícios para empregados de Nuclep, Eletronuclear, Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e do próprio Nucleos. “A princípio, nossa estratégia seria investir em quatro ou cinco fundos valores individuais de aproximadamente R$ 2 milhões para, então, caso a estratégia se mostre acertada, aumentar as alocações nos próximos anos.”

Com patrimônio da ordem de R$ 250 milhões, a Faeces, responsável pelos planos dos funcionários da companhia de saneamento Cesan, aprovou em 2015 a possibilidade de alocação fora. “Deixamos as fundações maiores abrirem o mercado. Nossa intenção é entrar no segundo semestre”, diz o diretor-presidente, Luiz Carlos Cotta. Apenas 1% do patrimônio poderá ser dedicado ao exterior.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Renúncia fiscal financia empresas

O número elevado de empresas beneficiadas por algum tipo de incentivo fiscal e com acesso ao Refis sugere que as companhias no país acabam se financiando, de alguma forma, com recursos do governo. É o que mostra o pesquisador Amaury José Rezende, da USP de Ribeirão Preto, que analisou o balanço de 653 companhias. Pelos seus dados, 42,3% das empresas com capital aberto tiveram acesso ao programa de parcelamento de débitos da Receita, conhecido como Refis, entre 2011 e 2013. Além do parcelamento de tributos, uma parte expressiva- 38% das companhias avaliadas – teve acesso a algum outro tipo de benefício tributário nesse período.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

FMI diz que o Brasil está protegido de turbulências

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O Brasil tem hoje maior resistência para enfrentar turbulências externas, mesmo depois de ampliar significativamente seu endividamento em dólar no ano passado, porque a maior parte dos débitos de curto prazo estão protegidos por operações de hedge. Essa é uma vantagem indiscutível, que traz, porém, uma desvantagem, segundo o Fundo Monetário Internacional – o real não se desvalorizou quanto deveria pelos fundamentos da economia brasileira, pelo menos até dezembro de 2014. A extensão a partir de junho de 2014 do programa de swaps cambiais, lançado pelo Banco Central em agosto de 2013, tem parte de responsabilidade nisso. Para o FMI, considerando-se as relações entre a inflação doméstica e a de seus parceiros, o real precisa ainda se depreciar de 5% a 15%.

Um dos motivos pelos quais o FMI é pelo desmonte gradual dos swaps cambiais, condicionado à situação dos mercados, é a de que ele já foi longe demais, isto é, mais que as intervenções do mesmo gênero realizadas no passado. Com estoque de US$ 110 bilhões, os swaps cobrem mais de 100% das dívidas de curto prazo em dólar, 60% da posição em dívida doméstica dos investidores estrangeiros e 35% da dívida externa das empresas não financeiras brasileiras. Ou ainda 20% de toda a dívida externa brasileira.

As empresas são as maiores interessadas nos derivativos cambiais, com US$ 48 bilhões em swaps no fim de 2014, ou 44% do estoque remanescente. Os investidores estrangeiros têm posição de US$ 34 bilhões.

O FMI avalia que o programa de swaps foi muito bem sucedido em seu objetivo de reduzir a extrema volatilidade causada por turbulências externas. O programa surgiu depois que os mercados de moedas sofreram oscilações violentas, após o então presidente do Fed americano, Ben Bernanke, em 22 de maio, ter sugerido que estava na hora de interromper o programa de afrouxamento monetário. O anúncio do início da oferta de swaps cambiais reduziu a volatilidade do real em relação ao dólar em 13% a 15%, na comparação com outras moedas que flutuaram ao sabor da instabilidade que se sucedeu. Os economistas do Fundo notam, porém, que a redução da volatilidade foi coadjuvada por outros instrumentos que tiveram o mesmo efeito, como o fim do IOF nas operações com derivativos e o aumento da taxa de juros.

De qualquer forma, a meta explícita do BC foi atingida. A prorrogação do programa a partir de junho do ano passado, porém, foi considerada desnecessária. A volatilidade cambial já era baixa e a continuidade das intervenções criou dúvidas nos mercados sobre as verdadeiras intenções do BC. Os estudos do FMI que acompanham o documento da consulta formal anual do FMI e do governo brasileiro não mencionam o motivo da dúvida, mas uma boa hipótese é a de que a autoridade monetária poderia estar tentada, como no passado, a deter a inflação contendo a desvalorização cambial.

Esse foi um viés detectado pelo FMI nos resultados das operações com os swaps. As intervenções preanunciadas fortaleceram o real em relação a outras moedas logo em seguida. Em 22 de agosto, quando iniciou a oferta de swaps, a moeda brasileira apreciou 3,5% em 24 horas. Na prorrogação do programa em 6 de dezembro de 2013, houve nova valorização de 1,4%, e de mais 1% em junho de 2014. Na linguagem do FMI, os swaps “podem ter retardado a convergência da taxa de câmbio” para o nível que deveria ter de acordo com os fundamentos da economia.

Até quanto o BC poderia se comprometer com a oferta de swaps sem entrar em uma zona de perigo? A resposta teórica é a de que as reservas internacionais são o “lastro” natural que olham os investidores para suas posições em swaps, mesmo que sejam liquidadas em reais, ou seja, quando é baixo o risco de convertibilidade. Além disso, o Brasil é um credor líquido ainda, o que lhe dá margem de conforto. Pela mensuração do Fundo sobre o nível de reservas adequadas, estoques de swaps na casa dos US$ 180 bilhões já colocariam as reservas brasileiras abaixo dessa classificação. O estoque consolidado de swaps em mercado está 37% abaixo dessa marca, em US$ 112,78 bilhões.
Fonte: Valor Econômico
Foto: Sapo.pt
Postado por: Raul Motta Junior