Monthly Archive: March 2015

Febre lá fora, empresas de crédito online entram no ar

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Empresas que fazem empréstimos online, ligando tomadores de crédito a investidores dispostos a financiar essas operações, sem a intermediação de uma instituição financeira, tornaram-se um fenômeno internacional nos últimos anos. A tendência foi coroada em dezembro do ano passado quando a maior dessas empresas, o Lending Club, fez uma oferta inicial de ações em Nova York e levantou cerca de US$ 1 bilhão. Agora, investidores começam a desbravar esse mercado no Brasil, onde a possibilidade de reduzir os elevados juros cobrados nas operações tradicionais é um enorme atrativo, mas a regulamentação obriga uma tropicalização do modelo.

Entrou nesta segunda-feira no ar a plataforma de empréstimos online batizada de Geru, gíria japonesa para dinheiro. Não há, porém, japoneses por trás do projeto. Depois de trabalhar na criação de empresas como Ersa – Energia Renováveis, Geo Eventos e BR Towers, o economista Sandro Reiss decidiu deixar a carreira de executivo e empreender na área. Na companhia de dois sócios, levou dois anos para desenvolver a Geru.

“Queremos oferecer empréstimos pessoais a taxas que variam entre 25% e 80% ao ano”, diz Reiss, um entusiasta do modelo de negócios que se originou no Reino Unido. Ele explica que a Geru não é um exatamente um “peer-to-peer lending” (termo em inglês para as empresas que fazem os empréstimos diretos entre tomadores e investidores pela internet), porque a legislação brasileira torna obrigatória a presença de uma instituição financeira nas operações de crédito. Lá fora, uma mesma plataforma na internet oferece os empréstimos aos tomadores e permite que investidores comprem títulos lastreados nos vários empréstimos. E é essa ligação direta que possibilita a cobrança de taxas mais baixas.

Mas, diz Reiss, apesar disso, a ideia é oferecer todos os benefícios da modalidade para quem está tomando empréstimos, a começar pelos juros. “Neste modelo de negócio, o custo de originação é mais baixo por não haver uma estrutura física de agência”, diz. Taxas de até 80% ao ano não são exatamente uma pechincha, mas tornam-se bastante atraentes num ambiente como o brasileiro, em que a taxa média de juros para o cheque especial é de 214,2% ao ano, enquanto a taxa do crédito pessoal não consignado está em 108,1% e a do rotativo do cartão de crédito alcança 342,2% ao ano, de acordo com dados de fevereiro divulgados pelo Banco Central (BC).

Os juros pagos pelos clientes na plataforma online variam segundo uma nota de risco de cada consumidor. Reiss explica que a Geru desenvolveu um modelo de análise de risco que, além das consultas em birôs de crédito, agrega informações de fontes não convencionais, como localização geográfica, por exemplo.

Além dos juros, o tomador paga também uma taxa de serviço de 5% do crédito liberado – o que aumenta a taxa efetiva paga no empréstimo. É essa comissão que cobre os custos da empresa e remunera o negócio. No site, os clientes podem tomar entre R$ 2 mil e R$ 35 mil, com prazos entre 12 e 36 meses.

Para cumprir as normas brasileiras, a Geru firmou parceria com o banco Bracce, que provê os recursos e assume o risco de crédito tomado pela plataforma. Juridicamente, a Geru opera como um correspondente bancário do Bracce.

O banco Bracce é uma instituição de pequeno porte, com R$ 103 milhões em ativos, segundo o BC. Com sede em São Paulo, a instituição foi adquirida no ano passado pelo Andbank, banco de controle familiar de Andorra. Procurado, o banco não quis comentar.

Com esse modelo de parceria e cerca de 40 profissionais, Reiss diz que a Geru está preparada para fazer entre 500 e 1.000 empréstimos em 2015, com valor médio entre R$ 10 mil e R$ 15 mil.

A Geru não é a única empresa que aposta neste modelo. O Valor apurou que diversos grupos de investidores têm se interessado. Apenas o escritório de advocacia Pinheiro Neto está assessorando sete grupos de investidores nacionais e estrangeiros que querem abrir negócios como esse no Brasil. Segundo uma fonte, os advogados do escritório têm conversado com o BC para alinhar modelos de negócios que se encaixem na regulamentação brasileira e aplicá-los à estrutura de seus clientes.

Dois modelos de atuação têm sido utilizados. Em um deles, por exemplo, os tomadores emitem cédulas de crédito bancário (CCB) tendo o banco como contraparte, processo utilizado pela Geru. Em outro modelo, o banco pode atrelar um depósito, que pode ser um CDB ou uma letra financeira, ao pagamento do crédito tomado no portal.

É com base nesses modelos que o Pinheiro Neto tem estruturado os negócios de seus clientes. O escritório recentemente assessorou a companhia americana Enova, especializada em crédito online, com operação nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Austrália. A empresa estruturou uma parceria com a Sorocred, uma financeira de Sorocaba (SP), e criou o portal Simplic, no ar desde julho do ano passado.

Segundo Rafael Pereira, responsável pela operação da Enova no Brasil, a empresa passou os últimos dois anos pesquisando o mercado brasileiro de crédito e constatou que ainda há muito espaço para crescer em empréstimos sem garantia no Brasil em comparação com o mercado americano, por exemplo.

Além disso, o que torna o mercado promissor são as altas taxas de juros cobradas pelos bancos brasileiros. A originação online, com custo mais baixo, pode ter um forte apelo nesse aspecto. “Estamos operando em 1.035 municípios diferentes em um período de pouco mais de seis meses, com uma equipe de 30 funcionários e sem ter presença nesses locais”, relata Pereira.

Mesmo assim, os juros cobrados pela Simplic ainda podem chegar a 429% ao ano, bastante acima da média de mercado. O superintendente da Sorocred, Luiz Francisco Maciel de Lima diz, no entanto, que a expectativa é oferecer juros menores atrelados a outros produtos para ampliar, inclusive, a carteira da Sorocred.

Hoje, a principal oferta da Simplic ainda é de crédito emergencial, com ticket médio baixo, de cerca de R$ 500. Por isso os juros maiores. Com o tempo, a expectativa é aproveitar a estrutura enxuta de custos para ampliar a oferta de produtos para diferentes perfis de clientes.

Para Lima, da Sorocred, a parceria também deve colaborar com os negócios da financeira e ampliar a base de clientes. “Se a Sorocred montasse um site de empréstimos não teria a inovação que eles (Simplic) oferecem. Eles já têm a expertise de quem trabalha no mercado online.”

Lá fora, plataformas como Lending Club já ampliaram sua oferta de crédito e vão além do crédito pessoal, oferecendo também empréstimos a empresas. No último trimestre, a empresa emprestou US$ 1,4 bilhão. Na Europa, o Royal Bank of Scotland (RBS) anunciou no início do ano parcerias com duas empresas do setor – o Funding Circle e a Assetz Capital – para quem o banco recomendará clientes de pequenos negócios.

Diante dessa expansão mundial, segundo uma fonte, o Banco Central tem olhado com interesse o modelo e considerado que ele pode se tornar mais popular nos próximos anos. Procurado, o BC não quis conceder entrevista.

Não vai pra frente no Brasil, já que os reguladores atuam para evitar a competição no mercado e conferir proteção aos grandes grupos. embora, apresentem sempre um discurso contrário.

Qual o dano que acontece se um agente que utilize recursos próprios, e que pague os impostos, se utilize de seus recursos para promover o crédito, sem que haja captação de dinheiro no mercado, o que poderia conferir risco, não associado ao sistema financeiro, aos investidores.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul MOtta Junior

Deflação é o bicho-papão dos bancos centrais

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Em 2009, o banco central do Japão realizou uma sondagem pública sobre deflação. Os resultados não foram os que a instituição desejava ou previa – pelo menos não após uma “década perdida” de queda dos preços. Em vez de expressar horror à ideia de deflação, 44% dos consultados a consideraram “favorável”; 35% se disseram neutros na maneira pela qual encaram o fenômeno; e só 20,7% a descreveram como “desfavorável”.

Embora uma pesquisa posterior tenha pintado um quadro ligeiramente mais negativo, o sentimento ficou claro. Como disse Kathy Matsui, vice-presidente do Goldman Sachs Japan: “Um número maior de japoneses sente, na verdade, que a deflação é um fator positivo, e não negativo”.

Essa descoberta intrigante retornou à minha mente há pouco tempo por dois motivos. O primeiro é o fato de a maioria dos bancos centrais ocidentais estar engajada no momento numa impressionante nova batalha para evitar a deflação, quase a qualquer custo. É um princípio aceito da economia moderna que a deflação é um flagelo terrível que precisa ser evitado. Espirais deflacionárias e depressões, do tipo visto nos EUA nos anos 1930, são o pesadelo que acossa o universo das políticas dos BCs.

Diante disso, o Banco Central Europeu está lançando uma onda sem precedentes de aquisições de ativos, em parte desencadeada pela queda constante dos preços ao consumidor. Na Suécia e Suíça estão em curso esforços semelhantes. O mesmo ocorre no Japão.

O segundo motivo de essa sondagem do Japão ter voltado a dominar meus pensamentos é o fato de que uma instituição chamada Banco de Compensações Internacionais (BIS) acaba de publicar um estudo notável sobre a história da deflação. O BIS atua em parte como um misto de banco com instituto de análise e pesquisa dos dirigentes dos bancos centrais. Dado o seu status, poderia se esperar que ele corroborasse o ponto de vista ortodoxo de que a deflação é um desastre. Mas nos últimos anos o BIS começou a desovar algumas pesquisas um tanto subversivas. Seu estudo sobre deflação – a exemplo da pesquisa do BC do Japão – vai contra a corrente habitualmente dominante: sustenta que as quedas dos preços nem sempre são tamanho desastre ou motivo de pânico. Às vezes, podem ser quase positivas.

Esse argumento vai horrorizar a maior parte dos formuladores de políticas públicas, sem falar nos economistas ortodoxos. O BIS destaca que as quedas de preços não são tão raras assim. Pelo contrário, diz que “as deflações eram muito comuns antes da Segunda Guerra Mundial”. E mesmo no pós-guerra houve cerca de cem deflações transitórias e quatro deflações persistentes (na China, em Hong Kong e – por duas vezes – no Japão) nas 38 economias estudadas pelo BIS.

A questão decisiva é que não se pode supor que as quedas dos preços dos produtos (como alimentos ou viagens) e de ativos (ações, residências etc.) sejam as mesmas. Os economistas normalmente pressupõem que essas quedas andam de mãos dadas, e usam o palavrão “deflação” para descrever ambas. Mas o impacto delas pode diferir.

Quando os preços dos ativos vêm abaixo, esse fator solapa o crescimento porque quebra a confiança e aumenta o tamanho da dívida em relação aos ativos. Mas, se o preço dos bens e serviços cai, o resultado é mais heterogêneo.

Se os salários ficam altos enquanto os preços caem, esse fator pode comprometer a produtividade e minar o crescimento. A queda da renda pode também, às vezes, dificultar a quitação das dívidas. Mas o declínio dos preços pode aumentar o poder de compra do consumidor e das empresas, e, portanto, o grau de confiança. E, em termos práticos, a pesquisa do BIS mostra que houve vários períodos desde 1870 em que ocorreu deflação em meio ao crescimento.

“As evidências geradas pelo nosso longo conjunto de dados históricos lançam nova luz sobre os custos das deflações”, afirma o relatório. “Elas põem em questão a opinião dominante de que as deflações dos preços dos bens e serviços, mesmo que persistentes, sejam sempre perniciosas.”

Esse não foi o caso na década de 1930, e é por isso que a deflação continua sendo o fantasma que assombra a política econômica contemporânea. No entanto, o BIS argumenta que na década de 1930 foi a queda dos preços dos ativos a responsável pelo verdadeiro estrago. E, embora o Japão seja muitas vezes considerado um exemplo clássico de como a deflação pode criar estagnação, o BIS argumenta que, em termos per capita, o crescimento do Japão, na verdade, não ficou tão atrás assim do dos EUA nos últimos dez anos (isto é, desconsiderando-se o impacto da diminuição da população).

Muitos economistas ortodoxos poderão discordar. Anos atrás, quando falei sobre a pesquisa do BC do Japão com alguns formuladores de políticas públicas ocidentais, ouvi deles que a sondagem simplesmente demonstrou que as pessoas comuns não entendem o funcionamento da economia.

Mas, mesmo se o estudo do BIS tiver apenas 50% de razão em destacar que o atual terror à deflação é exagerado, então há uma terceira implicação importante: a razão de ser dos atuais experimentos radicais em política monetária não é tão irrefutável quanto parece.

E essa é uma ideia instigante a ser considerada, seja qual for o sentimento da pessoa diante do palavrão chamado deflação. Especialmente em uma semana em que pessoas como James Bullard, um dos diretores regionais do Fed, advertiram publicamente que uma política monetária demasiadamente folgada está inflando gigantescas bolhas de ativos no momento. E é legítimo apostar que esses preços de ativos acabarão caindo verticalmente – o que criará o tipo de dano que dá à deflação toda essa má fama.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

BC vê menor repasse do câmbio para inflação

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A adoção de premissas mais favoráveis para o repasse da alta do dólar para os preços, para a evolução do mercado de trabalho e para a potência da política monetária permitiram ao Banco Central apresentar, no seu relatório de inflação, um cenário de forte recuo da inflação em 2016, ano que elegeu como alvo principal da sua política de alta de juros.

Ainda assim, o Banco Central informa no documento, divulgado ontem, que não está satisfeito com os progressos, já que suas projeções ainda não indicam o cumprimento da meta de 4,5% e as expectativas de inflação do mercado estão mais altas do que as suas. Por isso, renovou sua mensagem de que a “política monetária está e continuará vigilante” para assegurar que a aceleração de preços ocorrida neste ano não contamine o próximo.

No relatório, o Banco Central aumentou, de 6,1% para 7,9%, sua projeção de inflação para 2015, em relação aos percentuais estimados na versão anterior do documento, de dezembro. Os exercícios foram feitos no chamado cenário de referência, que toma como pressuposto a manutenção da taxa de juros no percentual atual de 12,75% ao ano e a taxa de câmbio nos R$ 3,15 vigentes em 13 de março, data de corte para o relatório.

A majoração das projeções para 2015 não surpreende, diante das altas recentes de tarifas e do fortalecimento do dólar. O que chama a atenção é que o BC reduziu ligeiramente a sua projeção para 2016, de 5% para 4,9%, entre os relatórios de dezembro e março. Isso significa que, na visão do BC, as pressões inflacionárias vão ficar circunscritas a este ano, sem contaminar o próximo.

Nesse cenário, seria possível ter uma queda de inflação de três pontos percentuais entre 2015 e 2016. Isso só aconteceu duas vezes nos 16 anos de regime de metas de inflação no Brasil, entre 1999 e 2000 e entre 2002 e 2003.

Em apresentação do relatório de inflação, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Luiz Awazu Pereira, argumentou que há consenso também entre os analistas do mercado de que a inflação vai recuar no período.

A projeção mediana dos analistas aponta recuo da inflação de 8,12% para 5,61%, correspondentes a também significativos 2,5 pontos percentuais. De forma geral, disse Awazu, os analistas acreditam que a inflação em 12 meses vai cair consideravelmente no primeiro trimestre de 2016, quando for feito o “descarte” estatístico da inflação do primeiro trimestre de 2015, que foi pressionada pela alta de tarifas.

Ainda assim, a inflação prevista pelo BC para 2016, de 4,9%, é maior do que a prevista pelos analistas econômicos, de 5,61%. Awazu disse que essa diferença se deve, em parte, às premissas assumidas pelo Banco Central nos seus modelos de projeção, envolvendo, por exemplo, o repasse da alta do dólar para os preços domésticos, a evolução do mercado de trabalho e a maior potência da política monetária depois da inflexão da política fiscal.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já havia mencionado esses fatores em pelo menos dois discursos recentes. A novidade do relatório de inflação é a incorporação dessas premissas nas projeções oficiais de inflação e a sua apresentação de maneira mais formal, por meio de alguns estudos econômicos.

No caso do repasse da alta do dólar para a inflação, o BC apresenta dois boxes, um dos quais descreve como ela pode cair à metade pelo fato de os preços das commodities estarem recuando. Tambem contribui o fato de a economia estar desaquecida e a constatação de que não só o real se enfraqueceu diante o dólar, mas também moedas usadas por parceiros comerciais do Brasil.

Outra premissa favorável à queda da inflação adotada no cenário central de projeção do BC é a perspectiva de um mercado de trabalho menos apertado, que tende a alinhar reajustes salariais aos ganhos de produtividade. Isso estaria ocorrendo em parte devido ao aumento da chamada taxa de participação – com a oferta de trabalho por jovens que haviam se retirado do mercado para estudar. O Banco Central divulgou um boxe sobre o assunto no relatório.

Ao longo do corpo do relatório, o Banco Central também menciona, sucintamente, a tese de aumento da potência da política monetária. “O comitê destaca que a literatura e as melhores práticas internacionais recomendam um desenho de política fiscal consistente e sustentável, de modo a permitir que as ações de política fiscal sejam plenamente transmitidas aos preços”, diz o relatório de inflação.

Questionado em entrevista coletiva o quanto dessas premissas mais favoráveis já entraram nas projeções de inflação, Awazu disse que “obviamente incorporamos nos nossos modelos de projeção no nosso cenário central elementos importantes de modificação da intensidade desses parâmetros que explicam a transmissão da inflação de 2015 para 2016″.

O diretor do BC disse estar ciente que há uma diferença de visões entre a autoridade monetária e a visão média de mercado. E indicou que esse é o debate que o BC vai estimular neste ano.

Isso não significa que o Banco Central esteja contando apenas com esses fatores para baixar a inflação – Awazu renovou os sinais de que os juros devem subir mais para assegurar a queda da inflação no próximo ano. “A principal mensagem desse relatório é que a política monetária está e continuará vigilante para assegurar a convergência da inflação à meta de 4,5% ao longo de 2016″, afirmou ele.

O quanto os juros ainda podem subir, num ciclo que já acumula alta de 5 pontos percentuais na Selic, e quando devem voltar a cair não foi claramente sinalizado pelo BC. Mas projeções alternativas apresentadas no relatório de inflação, no chamado cenário de mercado, mostra que a trajetória para a taxa básica refletida na mediana das previsões para a Selic dos analistas de mercado é incompatível com um cenário de queda da inflação para o centro da meta em 2016.

O cenário de mercado contempla uma alta dos juros básicos para 13% ao ano, e uma queda para 11,5% ao ano em 2016. Adotando essa hipótese, a inflação projetada pelo BC para este ano é de 7,9%, mas de 5,1% em 2016. Maior, portanto, do que a de 4,9% prevista no cenário de referência para 2016, que assume como premissa a manutenção da taxa Selic em 12,75% ao ano durante todo o período de projeção da inflação. Ou seja, se os juros evoluírem como previsto pelo mercado, a meta de 4,5% de 2015 ficaria mais distante. O cenário de mercado incorpora uma taxa de câmbio de R$ 3,09 em fins de 2015 e R$ 3,11 em fins de 2016.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Redrado quer cem dias para mudar a economia argentina

Assessor de um dos principais candidatos nas eleições presidenciais de outubro na Argentina, o ex-presidente do Banco Central argentino Martín Redrado defende a execução de um pacote de medidas nos cem primeiros dias do novo governo para recuperar a economia do país vizinho. Entre elas, derrubar as barreiras comerciais impostas a produtos brasileiros nos últimos anos.

Os desafios são imensos. Um dos principais é concluir a renegociação da dívida externa, chegando a um entendimento com os chamados “fundos abutres”, que obtiveram decisões favoráveis em cortes de Nova York.

A lista de problemas mais urgentes inclui também extinguir os controles cambiais e o sistema de taxas múltiplas de câmbio, controlar uma inflação que caminha na casa dos 30% ao ano e conter a sangria de gastos públicos que obriga o Banco Central a emitir moeda para financiar o Tesouro. “Hoje, o governo pede dinheiro, e o banco central passa os cheques”, diz Redrado.

O mercado tem esperanças de que o fim de mais de uma década de governo do casal Kirchner, em 10 de dezembro, quando assume o novo presidente, coloque a Argentina nos trilhos. Neste ano, a bolsa de valores local subiu cerca de 30%, o peso teve uma ligeira valorização no mercado paralelo e os títulos da dívida argentina chegaram a ser negociados acima do valor de face.

Redrado é assessor econômico do deputado Sergio Massa, que já foi da equipe de Cristina Kirchner e é um dos três pré-candidatos que aparecem mais à frente nas pesquisas eleitorais. O gradualismo, que contempla executar um plano em cem dias, é uma das principais diferenças em relação às propostas do chefe do governo da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri, pré-candidato que acena com a derrubada dos controles cambiais no primeiro dia de trabalho. “Esse é um trem que vai a 200 quilômetros por hora, e não se pode parar em 100 metros”, diz Redrado. O pré-candidato mais alinhado com a presidente é Daniel Scioli, governador da Província de Buenos Aires.

Redrado é um dos pais da política de superávits gêmeos – fiscal e comercial -, que contribuiu para acelerar o crescimento da Argentina, mas foi removido durante seu mandato na presidência do BC pela presidente Cristina Kirchner porque resistiu ao avanço do governo sobre as reservas internacionais.

Ele esteve em Brasília na segunda-feira para conversar com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Entre os assuntos discutidos, está a criação de uma linha de swap das moedas dos dois países que daria fôlego financeiro para a Argentina remover mais depressa as restrições comerciais impostas ao Brasil.

Ao fim dessa agenda, ele recebeu o Valor para uma entrevista, cujos principais trechos estão publicados abaixo.

Valor: Por que o peso e as ações das empresas argentinas estão subindo?

Redrado: A valorização é produto da expectativa de mudança de governo. Recentemente, um jornalista do “Financial Times”, Joseph Cotterill, escreveu uma mensagem no Twitter dizendo que os títulos da dívida argentina estavam sendo negociados acima do valor de face. A presidente Cristina Kirchner chegou a comemorar essa mensagem num discurso. O jornalista respondeu na hora, também no Twitter, que os títulos tinham se valorizado não por causa das políticas adotadas pelo governo, mas porque o governo atual vai embora em breve.

Valor: Há muito espaço para os ativos subirem?

Redrado: Os preços das empresas argentinas, quando comparadas com países da região – não com o Brasil, que tem uma dimensão diferente – estão subvalorizados. Empresas de diferentes setores, como bancário, energia, têxtil, com as mesmas dimensões, valem o dobro ou o triplo em Lima ou Bogotá do que são cotadas em Buenos Aires. Pelo menos duas vezes por semana recebemos visitas de administradores de carteiras de investimentos que querem saber o que vai acontecer no próximo governo, que vai tomar posse em 10 de dezembro.

Valor: Então é mais expectativa de mudança do que uma mudança efetiva?

Redrado: O que o governo até agora se propõe a fazer é empurrar os problemas para diante, não resolver os desequilíbrios da economia argentina e deixar que o próximo governo arrume. Enquanto isso, a Argentina cresce pouco. No ano passado, houve uma queda que nossa equipe da Fundación Capital calcula em algo como 2% ou 3%. Neste ano, é muito que provável que a economia fique estável. A queda do PIB do no passado foi influenciada pela queda de cerca de 6% do salário real, porque o reajuste salarial da ordem de 32% foi inferior à inflação, de 38%.

Valor: A expectativa é que qualquer um dos principais candidatos na disputa será melhor que o governo atual?

Redrado: Sim, há uma percepção de mudança. Isso às vezes é bom, mas também pode ser ruim, porque quando as expectativas são altas, há que cumpri-las. Tudo isso põe um grande peso ao próximo governo. Não entramos ainda no período eleitoral, e os candidatos ainda não fizeram muitas propostas sobre o que pretende fazer se eleito.

Valor: O sr. tem alguma proposta formulada?

Redrado: Tenho, sim, muito claro o que é preciso fazer para satisfazer essas expectativas. Temos que fazer um pacote de medidas no dia 10 de dezembro, quando começa o próximo governo. Em particular, a Argentina tem que unificar suas taxas de câmbio, tem que ter um câmbio do tipo flutuante. No curto prazo, será preciso atrair dólares que hoje estão disponíveis para a economia argentina.

Valor: De que origem?

Redrado: Primeiro, os dólares do setor agroindustrial. Temos retenções de impostos nas exportações que são claramente distorsivas, em particular sobre muitos produtos de economias regionais. Estou me referindo não ao tradicional produto que é a soja, que mais produz efeitos na arrecadação fiscal, mas a outros produtos, como o trigo, o milho, frutas cítricas, uva, arroz, carne. Esses produtos têm retenções de impostos que, na minha opinião, teria que baixar a zero. Isso não tem custo fiscal porque hoje esses produtos não estão sendo exportados. São produto das distorções cambiais, de aumento de custos, e fazem com que muitas economias regionais ou provinciais tenham dificuldades. A Argentina tem que fazer também uma forte aposta para gerar incentivos a investimentos.

Valor: Como?

Redrado: Em todos esses anos se fomentou o consumo, mas não se gerou condições para os investimentos. Portanto, propomos baixar os impostos dos lucros para que essas empresas reinvistam os recursos. Em segundo lugar, há uma oportunidade importante no setor energético. Esse é um ponto que conversamos muito com o chanceler Vieira, incluindo certas obras de infraestrutura para interconectar a rede elétrica de distribuição entre o Brasil e a Argentina. Para isso, é preciso fazer um marco legal para os investimentos no setor na Argentina que dê estabilidade e previsibilidade.

Valor: Por que o sr. se opõe à ideia do pré-candidato adversário Mauricio Macri de dar um tratamento de choque aos controles cambiais, eliminando-os no primeiro dia de governo?

Redrado: Seria um ajuste muito drástico na economia, e representaria uma maxidesvalorização. Isso traz efeitos muito nocivos, em particular sobre salários, de perda de poder aquisitivo. E esse é um ajuste que a Argentina hoje não precisa, se você for capaz de, nos primeiros meses de governo, trazer dólares para a economia. Parte deles são os dólares que estão no campo, que estão guardados em silos. Se calcula que há US$ 4 bilhões ou US$ 5 bilhões que estão guardados. Se chama “silo bolsa”, uma invenção argentino que permite guardar muitos grãos, esperando melhores condições.

Valor: A ideia então é atacar as mazelas econômicas a partir do primeiro dia, mas sem choques?

Redrado: Sim. Será preciso uma nova agência de estatísticas, com credibilidade internacional. E um programa macroeconômico que baixe a inflação de 30% para 20% no primeiro ano, de 20% para 10% no segundo ano e a um dígito no terceiro ano. E é um trem que vai a 200 quilômetros por hora e não se pode parar em 100 metros. A chave é, sim, atrair esses dólares que hoje a Argentina deixou lá fora. Mas nós também estamos propondo uma transição de cem dias. O que Mauricio Macri propôs é, em 11 de dezembro, levantar os controles cambiais. Parece mais algo típico de políticos em campanha que fazem muitas promessas.

Valor: Sua passagem no BC foi marcada pelo superávits gêmeos, fiscal e comercial. O objetivo seria a volta desse período?

Redrado: Muitos dizem que a Argentina teve uma década ganha com Kirchner, e outros dizem que foi uma década perdida. Eu digo que foi uma década partida. A primeira parte dessa década teve superávits gêmeos, comercial e fiscal. Uma taxa de câmbio flutuante, competitiva, um banco central que acumulava reservas e era muito solvente para poder navegar em momentos difíceis. E teve outra parte da década em que gastaram tudo, as reservas do banco central, os superávits. Sem dúvida são objetivos a retomar.

Valor: Como retomar o crescimento da economia?

Redrado: O governo tem privilegiado muito o consumo, e isso vamos manter. Mas, como se sabe, para que uma economia cresça tem que crescer o consumo, o investimento e crescer também o setor externo. O que precisamos é reequilibrar a economia. Não cair de taxas chinesas, de mais de 8%, para menos 2%. Mas, sim, estabilizar em uns 4%, 4,5% de crescimento de 2017 adiante.

Valor: A sua demissão antes do fim do mandato arranhou a credibilidade do BC. Como recuperá-la?

Redrado: Quando se perde a credibilidade, tem que trabalhar o dia a dia para retomá-la. Uma das maneiras de regenerar a credibilidade no banco central é uma nova lei, uma nova carta orgânica, que teria que ser parte do pacote de medidas que faça qualquer presidente que assumir em 10 de dezembro. Deveria limitar o financiamento ao setor público, que tem sido grosseiro. Acabar com o que chamo de “talão de cheques”. Hoje, o governo pede dinheiro, e o banco central passa os cheques para financiar o déficit público. Hoje, por exemplo, o gasto público está crescendo cerca de 45%, e a arrecadação está crescendo a 31%. Essa diferença de 14 pontos está sendo financiada com emissão monetária, e isso sem dúvida é o que está gerando é maior pressão inflacionária.

Valor: Como fazer um ajuste fiscal tão grande?

Redrado: Tem havida uma farra em termos de emprego público, em muitos empregos políticos. Muito da estrutura política do atual governo está se financiando através de muita gente que, sem ter capacidade, ingressou no setor público. Às vezes, que nem querem trabalhar. Tem uma expressão na Argentina que diz que “esse empregado é um nhoque”. Por que se chama nhoque? Porque no dia 29 de cada mês, no dia do nhoque da sorte, o empregado vai à repartição pública para cobrar, e depois não aparece no resto do mês.

“Se fizerem uma pesquisa na Argentina, 80% das pessoas vão dizer que querem mais relação com o Brasil”

Valor: O que mais deve ser feito na área fiscal?

Redrado: Tem que redirecionar os subsídios para a demanda. Hoje, em muitos casos a Argentina subsidia a oferta. Por exemplo, transporte. Dão subsídios às empresas de transporte por cada ônibus que elas têm, não pela quantidade de passageiros. Nossa resposta é que não se deve financiar as empresas, mas sim a quem realmente necessita. Com uma inflação medida corretamente, a Argentina tem, infelizmente, 10 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza.

Valor: O ajuste fiscal seria feito ao longo dos anos?

Redrado: Sim, um programa com metas para chegar a um equilíbrio orçamentário em quatro anos de governo.

Valor: E como superar o impasse da renegociação da dívida externa?

Redrado: Creio que há condições para chegar a um acordo que seja satisfatório, que evidentemente não cumpra com 100% das expectativas dos credores. Também que não se dirija só a quem ganhou na Justiça de Nova York. Mas, sim, tem que resolver o total de 7% da dívida que não está reestruturada. A próxima equipe econômica terá que, no seu pacote de medidas, sentar-se com o juiz e, nos primeiros dias do próximo governo, negociar de boa fé, com firmeza. Creio que o juiz em Nova York também está fatigado com o tema Argentina. Me parece também que com uma proposta razoável, assim como a Argentina, os fundos abutres também querem terminar com o problema. A chave da negociação é a boa fé, que lamentavelmente não tem ocorrido. O governo tem tido mais uma visão política do tema do que uma visão técnica e profissional.

Valor: A desvalorização recente do real atrapalha a Argentina?

Redrado: Sem dúvida põe em evidência as inconsistências da política cambial argentina. A Argentina desvalorizou a taxa de câmbio sem plano em 2014 em quase 25%. É o contrário do que fez o Brasil, que se moveu com um plano, que não vou avaliar, mas que é um plano integral. A Argentina foi desvalorizar sem plano, e o que levou é que a inflação terminou comendo em oito meses as vantagens que poderia dar a desvalorização.

Valor: O Mercosul será prioridade num novo governo ou a Argentina se voltará aos Estados Unidos, como nos anos 1990?

Redrado: A relação com o Brasil é principal, estratégica. Obviamente, isso não quer dizer que é só o Brasil, mas claramente há prioridade. Vejo com agrado como o Brasil fez uma política de maior intercâmbio e integração com a África. Por que a Argentina não poderia utilizar as embaixadas que o Brasil tem na África, com funcionários de sua Chancelaria, e trabalhar juntos os produtos que possam comercializar com os países africanos? Temos que voltar para a tradição de política exterior de multilateralismo. A Argentina tem falado mais nesses últimos anos de com a Venezuela e o Irã do que com o Brasil. Se alguém fizer uma pesquisa de opinião hoje na Argentina, 80% das pessoas vão dizer que querem mais relação com o Brasil.

Valor: O novo governo poderá ajudar a destravar acordos comerciais do Mercosul?

Redrado: A Argentina não está negociando acordos comerciais com ninguém. Quando eu era vice-chanceler, num momento tinhamos, com o Mercosul, como o Brasil, sete negociações abertas. Uma das mudanças que teremos que dar no Mercosul é que se possa negociar acordos comerciais de maneira muito mais ativa do que fizemos nos últimos anos

Valor: E o que é preciso fazer para recuperar os níveis de comércio entre o Brasil e a Argentina?

Redrado: Assim como eu dizia que nos primeiros cem dias de governo será preciso eliminar as restrições cambiais, nos primeiros cem dias de governo também será preciso eliminar as restrições comerciais com o Brasil. Há um número que me chama a atenção. No ano passado, as importações da Argentina caíram US$ 6,6 bilhões. As importações feitas pela Argentina do Brasil caíram US$ 5,6 bilhões. Só a queda que teve as exportações do Brasil explica 84% da queda total das importações argentinas. Creio que houve um tratamento injusto. Se esse é realmente um sócio estratégico, teremos que tratá-lo como se fosse um sócio estratégico.

Valor: E como fazer isso?

Redrado: É preciso limpar a mesa das relações comerciais. Gostaria de avançar no swap de moedas que permita ter reais e pesos para pagar o comércio bilateral. E liberar as declarações juradas de importações [um sistema que exige autorização prévia para empresas importarem], para que a Argentina não coloque ao Brasil esse tipo de restrições.

Valor: O que seria o swap?

Redrado: Um depósito no Banco Central do Brasil em reais do Banco Central da Argentina, que possa ser usado para fazer o pagamento de importações da Argentina. E a mesma coisa do lado argentino, um depósito no banco central argentino que poderia ser sacado para pagar as importações do Brasil. Os dois países se dariam crédito de um montante específico por ano. Trabalharia de forma complementar o sistema de moedas locais. Nesse sistema, você não tem financiamento no comércio bilateral.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Banco Central acaba com oferta diária de swap

O Banco Central anunciou ontem que não vai renovar a ração diária de “swaps” cambiais depois de 31 de março, quando termina a atual fase do programa. Mas a autoridade monetaria se comprometeu, em comunicado, a fazer a rolagem integral do estoque de U$ 114 bilhões desses instrumentos hoje no mercado.

Conforme havia antecipado a colunista Claudia Safatle no Valor há duas semanas, Tombini deu indicações ontem, em depoimento na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, da intenção de terminar o programa. “Entendemos que o estoque de derivativos cambiais ofertados pelo BC até o momento já atende de forma significativa à demanda por proteção cambial da economia”, disse Tombini.

Ele sinalizou a intenção de rolar integralmente os papéis a vencer. “Temos condições de renovar integralmente as operações vincendas no curto e médio prazos”, disse. Ao citar o curto prazo, ele provavelmente se referiu ao vencimento mais imediato de swaps – em maio, são US$ 10,115 bilhões. Não ficou claro, porém, a que se referia em relação ao médio prazo.

No depoimento, Tombini chegou a se dizer confortável para rolar esses papéis por muito tempo, porque o estoque de swaps cambiais ajuda a reduzir em cerca de um terço o custo de carregamento das reservas internacionais. “Podemos manter por 10, 20 anos essa posição atual de swaps. Não vamos fazer isso, mas, do ponto de vista de administração das reservas, faz sentido manter essa posição.”

Ontem à noite, em comunicado, o BC disse que “os swaps cambiais vincendos a partir de 1º de maio de 2015 serão renovados integralmente, levando em consideração a demanda pelo instrumento e as condições de mercado”.

A autoridade monetária também deixou uma porta aberta para, se necessário, lançar mão de outros instrumentos. “Os leilões de venda de dólares com compromisso de recompra continuarão a ser realizados em função das condições de liquidez do mercado de câmbio”, disse a nota do BC. “Sempre que julgar necessário, o BC poderá realizar operações adicionais por meio dos instrumentos cambiais ao seu alcance.”

No primeiro trimestre, o BC fez uma oferta diária de US$ 100 milhões em swaps cambiais ao mercado, conhecida como “ração diária”. Em março, porém, rolou menos de 100% dos vencimentos de swaps de abril, o que, na prática, significa que o BC já não vinha oferecendo a ração diária.

O presidente do Banco Central aproveitou a sabatina para renovar a mensagem de política monetária que havia emitido na semana passada, em palestra no banco Goldman Sachs, em São Paulo. “A política monetária está e permanecerá vigilante”, disse.

Ele também reafirmou a tese de que é factível trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% em 2016, ainda que a promessa tenha sido questionada pelos senadores. Como havia feito na semana passada, Tombini enumerou cinco argumentos que apoiam a ideia de que a inflação vai recuar no próximo ano, entre eles a concentração de reajustes de tarifas no começo de 2015 e o mercado de trabalho “menos tensionado”.

Tombini fez questão de registrar na CAE que a política de combate à inflação do BC começou a dar resultados. “Não estamos enxugando gelo. Já temos ganhos a mostrar”, afirmou, referindo-se à queda das expectativas de inflação de mercado para prazos mais longos, entre 2016 e 2017.

O presidente do BC afirmou que, a partir de abril, a inflação mensal deve vir em “patamar bem inferior ao registrado nos três primeiros meses do ano, quando ocorreu concentração de realinhamento de preços administrados”.

Tombini voltou a mencionar o efeito “potencializador” do ajuste fiscal na tarefa de combater a inflação. “Quanto mais fiscal, melhor”, repetiu. Ele disse a senadores que seria necessário um superávit primário de 2,2% do PIB para estabilizar a relação entre dívida e PIB. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, anunciou em fins de novembro o cumprimento de uma meta de primário de 1,2% do PIB em 2015 e de pelo menos 2% do PIB em 2016.

Tombini disse esperar um desempenho fraco da economia no primeiro semestre, com “ligeira melhora” na segunda metade do ano e um desempenho mais favorável em 2016.

Os ânimos na audiência foram bem acirrados, com discussões entre senadores até sobre quem poderia falar antes. O discurso mais duro foi do senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO), que sugeriu que Tombini deveria pedir demissão depois de ter deixado de cumprir o centro da meta de inflação nos quatro primeiros anos. “Numa empresa, quem descumpre metas é demitido”, disse.

Tombini se defendeu, afirmando que não deixou de cumprir a meta de inflação em nenhum ano em que estava à frente da autoridade monetária “Não escrevi nenhuma carta aberta ao ministro da Fazenda nos últimos quatro anos. Se vou escrever nos próximos, o futuro dirá”, afirmou na audiência.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

S&P mantém nota e perspectiva do Brasil

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A agência de classificação de riscos Standard and Poor’s (S&P) manteve ontem a nota de crédito do Brasil em “BBB-“, com perspectiva estável, apenas um nível acima do grau de investimento. A avaliação da nota veio exatamente um ano após a última ação de rating da agência, em 24 de março do ano passado, quando reduziu a classificação brasileira em um degrau.

A S&P é a agência com a menor classificação soberana para o Brasil. O rating “Baa2″ pela Moody’s e a nota equivalente “BBB” pela Fitch estão dois níveis acima do grau de investimento – mas com perspectivas diferentes: a da Moody’s é negativa e a da Fitch é estável.

Como as duas agências fizeram visitas recentes ao país, a expectativa é que elas se pronunciem nos próximos meses. As agências costumam adotar um período regulamentar para a avaliação de ratings soberanos, que variam de intervalos de 12 a 18 meses. A última avaliação da Fitch foi em julho e da Moody’s, em setembro.

Em comunicado, a S&P destaca que a presidente Dilma Rousseff “enfrenta um cenário político e econômico extremamente desafiadores, em meio a um acentuado declínio nas taxas de aprovação, contração econômica e investigações de corrupção na Petrobras “.

A agência reconhece a reversão das políticas adotadas no primeiro mandato e que Dilma encarregou sua equipe econômica de elaborar um “considerável” ajuste em várias políticas, não apenas a fiscal, para restaurar a credibilidade perdida e fortalecer os agora enfraquecidos perfis fiscal e econômico do país.

A manutenção da perspectiva estável da nota reflete a expectativa da S&P de que a “correção” em curso das políticas econômicas, ainda que cheia de desafios políticos, vai continuar tendo o suporte de Dilma e conquistará também o apoio do Congresso. Para a S&P, a continuidade dos ajustes restauraria, de forma gradual, a credibilidade, abrindo caminho para uma perspectiva de crescimento mais forte a partir do próximo ano. A agência projeta uma contração de 1% do PIB neste ano, um avanço de 2% em 2016 e de 2,3% em 2017.

“Isso também proporcionaria ao Brasil flexibilidade suficiente na formulação de políticas e na capacidade de resistir a choques econômicos consistentes com uma classificação baixa de grau de investimento”, disse a S&P.

A agência afirmou que poderia elevar a nota do país após a execução de políticas consistentes que reforcem as contas fiscais e reduzam o peso da dívida sobre o PIB, além de sinais de uma agenda de reformas mais proativa, que apoie um maior crescimento econômico no médio prazo. “Isso provavelmente geraria maior confiança do setor privado e aumento do investimento, e daria mais flexibilidade fiscal e monetária ao governo”, diz a S&P.

No outro cenário, a S&P rebaixaria o rating após nova deterioração dos indicadores externos e fiscais, juntamente com um recuo do país no compromisso com uma política pragmática e nas várias correções das políticas em curso. “O fracasso no avanço dos ajustes fiscais e outras políticas poderiam resultar em uma erosão maior do que a esperada no perfil financeiro do Brasil e um impacto adicional na confiança e nas expectativas de crescimento, levando a um rebaixamento”, diz a agência.

A S&P fará uma teleconferência hoje, às 10h30 (horário de Brasília).

Fonte: Valor Econômico
Foto: Businesse For Scotland
Postado por: Raul Motta Junior

“Quanto mais rápido for o ajuste, melhor”

Le-Grazie

À frente da Bradesco Asset Management desde o fim do ano passado, o administrador de empresas Reinaldo Le Grazie passou a ser responsável pela gestão de R$ 350 bilhões em ativos. Até então diretor de renda fixa da gestora do Bradesco, o executivo assumiu a função quando seu antecessor, Joaquim Levy, foi convidado a desatar o nó da economia como ministro da Fazenda.

Le Grazie, 52 anos, se mostra relativamente otimista com o rumo da economia. Acredita que o superávit primário de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB), prometido por Levy, será entregue e que o segundo semestre do ano já será melhor. “Acho que as taxas de juros de longo prazo vão começar a cair, as concessões vão aparecer, os financiamentos em infraestrutura serão mapeados”, disse ele em entrevista ao Valor.

A perda do rating soberano pelo Brasil, em sua opinião, não faz sentido. “Nossa dívida bruta, de 64% da PIB, não é métrica para perder grau de investimento. E com a revisão do PIB, essa proporção cairá.” No entanto, por ora ele não vê um fluxo de recursos para o Brasil. “Os emergentes não estão propriamente no radar”, disse. “E o Brasil não vai atrair fluxo enquanto não reverter esse quadro.”

Uma das apostas da gestora para o ano são as bolsas europeias. Por essa razão, a Bram começa a ofertar aos clientes mais abastados fundos para aplicar na Europa e na Ásia.

O câmbio, na opinião de Le Grazie, já está próximo do equilíbrio e a taxa Selic, ainda deveria ir a 13,75%. “E quanto mais rápido for esse ciclo de alta de juros, melhor.”

Valor: Quais os maiores riscos para o mercado hoje?

Le Grazie: O cenário internacional está indo muito bem. Estados Unidos são a locomotiva. A Europa vem com o ‘quantitative easing’ também, depois de passar por um vale, com um ajuste fiscal muito forte. O Japão também começa a expandir seu balanço. O mundo de cima está indo muito bem e isso é positivo. O risco que vem de lá é o de alta de juros e de o dólar se valorizar, o que já está acontecendo. O dólar se valorizou nos últimos três trimestres algo como 25% em relação a moedas fortes. É um movimento que sabíamos que iria acontecer, mas não sabíamos como e quanto. As taxas de juros não subiram, nem as longas, mas o dólar se fortaleceu. Para o mundo, o grande risco é um movimento de capitais desordenado trazer algum desalinhamento. Não estou pondo probabilidade nesse evento. Há um ano eu estava mais preocupado que hoje. Porque agora o dólar já andou 25%, a atividade americana já está forte e a inflação, fraca. O preço para baixo das commodities machuca países da América Latina: México, Colômbia, Chile, Brasil, Peru. Então, queda de commodities e valorização do dólar representam um risco ainda, embora menor neste momento. Mas o mundo está crescendo. Do ponto de vista internacional, as notícias são boas.

Valor: Mas não a ponto de gerar um fluxo para Brasil?

Le Grazie: Os emergentes não estão propriamente no radar. China tem mudança de política e risco de crescer menos. Os outros ‘BRICS': África do Sul e Turquia não estão bem; Índia está indo bem, vai crescer mais do que China nos próximos anos; e o Brasil não vai atrair fluxo enquanto não reverter o quadro atual. Do ponto de vista econômico, as medidas no Brasil já estão tomadas. O que o mercado tem dúvida é se vai conseguir fazer a reversão sem um choque mais forte, tipo corte de rating soberano, embora isso não faça sentido pelas métricas que temos.

Valor: Por quê?

Le Grazie: Nossa dívida bruta, de 64% da PIB, não é métrica para perder grau de investimento. E com a revisão de PIB, essa proporção cairá.

Valor: A meta de 1,2% de superávit primário vai ser entregue?

Le Grazie: Acho que sim. Nossas contas mostram que é um esforço grande, mas depende muito da receita. Estamos trabalhando com queda do PIB de 1% em 2015, então, vai ser um esforço grande, mas dá para entregar. É importante entregar 1,2%.

Valor: Quando se olha para a evolução dos ativos do mercado, o que está nesses preços?

Le Grazie: O CDS, que mede risco Brasil e os ‘corporates’ brasileiros já estão com preço de perda de grau de investimento. O que não faz o menor sentido. O Brasil não vai quebrar. Não tem como. Agora, ele pode ter uma travessia muito dolorosa e isso se mistura nos preços. Não é que os agentes não saibam fazer conta, mas é um equilíbrio difícil de encontrar. No Brasil, tem um choque de tarifa pública e câmbio e é preciso subir os juros básicos para conter o movimento secundário, não tem alternativa. Tem que subir a Selic para 13,5%, 13,75%. Não adianta inventar moda. A inflação está muito pressionada, em um nível entre 7,5% e 8%. Então, temos que fazer o ajuste agora, neste semestre. Esse ajuste vai quebrar a espinha dorsal da inflação, é uma questão de tempo. E quanto mais rápido for esse ciclo de alta de juros, melhor. Agora, sobre o dólar, quando se olha para outras moedas, a desvalorização não foi assim tão forte.

Valor: O sr. acha que o câmbio tem que andar mais?

Le Grazie: Aparentemente, está bem perto do seu equilíbrio. Pode até voltar um pouco, mas ele parece adequado. Mas depende do movimento internacional.

Valor: Em que momento vai chegar ao ponto de atrair “carry trade” e fluxo para renda fixa?

Le Grazie: Acho que não é uma questão de preço de ativos. Hoje, o estrangeiro está vendo um cenário de alta inflação, baixo PIB e muita intervenção na atividade econômica. Mas ele está vendo o ajuste e está esperando esse equilíbrio aparecer. A questão é a retomada da confiança local e internacional.

Valor: Chegaremos a um cenário estável, que permita que esse dinheiro venha?

Le Grazie: Tenho certeza que sim. Tenho certeza de que o Brasil estará melhor daqui a três anos. Mas a travessia está se mostrando mais dolorosa do que se imaginava. O segundo trimestre vai se mostrar bem diferente. Acho que as taxas de juros de longo prazo vão começar a cair, as concessões vão aparecer, os financiamentos em infraestrutura serão mapeados. E o investidor estrangeiro adora esse tipo de negócio. O Brasil vai voltar a crescer no ano que vem. Acredito no ajuste fiscal. A causa da queda da atividade no Brasil agora não é o ajuste fiscal, é o desequilíbrio de preços do ano passado. É a perda da capacidade de investir que o Brasil teve em 2014, que veio um pouco da queda de confiança e um pouco da queda de poupança. O ajuste fiscal não é recessivo, ele cria as condições para o crescimento sustentável de longo prazo.

Valor: Existe algum evento específico que vá determinar a retomada da confiança?

Le Grazie: A primeira coisa é resultado fiscal atrás de resultado. Fevereiro foi bom, março tem que ser bom. Aí, estaremos em abril com um primeiro trimestre bom. Isso faz muita diferença. E depois, precisa baixar um pouco a fervura do debate político. A questão da Petrobras estará resolvida no fim de abril. Eu dou uma alta probabilidade de a empresa estar equalizada no fim de abril, operando ‘by the book’, ter soltado o balanço, fazendo desinvestimento, trabalhando com uma gestão de caixa mais apertada, mas equalizada. Mas os efeitos da operação Lava-Jato estão gerando insegurança.

Valor: O que o investidor ainda teme e que não está mapeado?

Le Grazie: Uma paralisia do governo. A probabilidade é baixa porque o Congresso está trabalhando. Ele não fala em derrubar o ajuste fiscal. Avançando na Lei Anticorrupção e em acordos de leniência, você libera as empresas para voltar a investir, faz oferta de concessão. Os fundos de investimento estão prontos para financiar infraestrutura. Vamos ter que achar um caminho para interagir com o BNDES e suprir o funding.

Valor: Há recursos para isso?

Le Grazie: Tem fundos, fundos de pensão, investidor internacional que gosta de infraesturtura. Esse movimento vai começar a acontecer quando a taxa básica cair. É um movimento demorado. A gente está discutindo infraestrutura para financiar no fim do ano. Mas com juros mais altos, a taxa de retorno dos investimentos também tem que ser maior. Esse é o cenário que vai fazer a retomada do Brasil.

Valor: Como os fundo estão posicionados?

Le Grazie: Em moedas, não temos grandes ‘calls’. O cenário é de dólar forte e esse movimento não vai acabar agora. Obviamente, ele não vai subir 25% a cada nove meses, o Brasil não vai desvalorizar 10% a cada 15 dias, mas a moeda está encontrando seu ponto de equilíbrio. A taxa de juros de longo prazo está bem alta aqui, mas tem um risco e os agentes percebem. Esse risco deve diminuir nos próximos meses e a taxa deve cair. Nesse sentido, vemos oportunidade de investimentos. Fundos que investem em ações internacionais estão posicionados em Europa e Ásia, que é onde a gente vê maior potencial. EUA também é bom, mas a Europa ainda é melhor. A Bram está oferecendo produtos para essa região. Commodities têm cenário muito fraco. A gente não vê volta desses preços no momento.

Valor: Sobre juros longos, que nível de taxa o sr. considera razoável para as NTN-Bs de longo prazo, que hoje estão em 6,5% ao ano?

Le Grazie: A máxima que esses papéis atingiram foi 7%. Para o país ficar bonito daqui a três anos, tem que cair para 4%. Mas se cair para 5,5%, é sinal de que a gente está caminhando bem. Só volta a 7% se algum dos riscos acontecer.

Fonte: Valor Econômico
Foto: VEJA
Postado por: Raul Motta Junior

Empresa estrangeira começa a olhar para a bolsa

A combinação de real desvalorizado e preços baixos na bolsa começa atrair o interesse de companhias estrangeiras. No caso mais recente, a espanhola Telefónica resolveu seguir adiante com seu plano de capitalização da Vivo e contratou bancos para estruturar uma oferta de ações de ¤ 1,25 bilhão (cerca de R$ 4,4 bilhões) da operadora brasileira.

Como o grupo espanhol detém 74% de participação na Vivo (nome comercial da Telefônica no Brasil), a parcela dessa oferta de ações que efetivamente será destinada ao mercado é bem menor, de ¤ 325 milhões, ou aproximadamente R$ 1,1 bilhão na cotação atual. A matriz vai exercer seu direito de preferência e subscrever proporcionalmente o aumento de capital, evitando uma diluição, afirma fonte que acompanha o assunto.

A expectativa entre pessoas próximas à transação é que os minoritários da operadora também tenham interesse em subscrever as ações. Se não o fizerem, a Telefónica poderá cobrir a diferença e aumentar sua fatia na Vivo a um custo baixo. Ontem, as ações preferenciais da operadora caíram 4,78%, para R$ 50,80.

Para coordenar a oferta, a companhia contratou um sindicato de dez bancos, do qual fazem parte Itaú BBA, Bank of America Merrill Lynch, Santander, Morgan Stanley e Credit Suisse, entre outros.

Em paralelo, a Telefónica fará, na Espanha, uma oferta de ações de cerca de ¤ 3,4 bilhões. Juntas, as operações vão financiar parte da compra da GVT, fechada no ano passado por ¤ 7,45 bilhões.

A oferta da Vivo poderá ser a primeira na BM&FBovespa desde outubro, quando a empresa de saúde animal Ourofino abriu seu capital em uma operação de R$ 418 milhões. Em todo o ano passado houve apenas essa operação e uma oferta subsequente de ações da Oi, o pior desempenho em mais de uma década.

A emissão de ações da Vivo já estava prevista desde agosto do ano passado, quando foi anunciada a compra da GVT. A despeito de um forte aumento da volatilidade desde então, o grupo espanhol decidiu levar adiante a oferta e, recentemente, começou a se movimentar para colocá-la em prática. O comportamento da moeda brasileira contribuiu para isso.

Por enquanto, a operadora foi a única empresa que se animou a acessar o mercado para captar recursos, dadas as condições peculiares de sua oferta. No entanto, fontes que atuam no mercado acreditam que, à medida que a volatilidade diminuir, outras companhias podem considerar essa possibilidade. Não se espera nada muito imediato, porém.

Enquanto as ofertas não deslancham, o que tem entrado no radar dos investidores é a compra de blocos de ações de empresas brasileiras para aproveitar a queda nos preços e a disparada das cotações do dólar. Há conversas envolvendo companhias que se beneficiam da desvalorização do real porque têm receita atrelada à moeda americana, afirma um banqueiro.

Com poucas empresas para levar à bolsa neste momento, os bancos têm trabalhado no caminho inverso: as operações de fechamento de capital. Neste ano, Souza Cruz e BR Properties já anunciaram ofertas para recomprar suas ações e sair da bolsa. Outras companhias se preparam para seguir o mesmo caminho.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Fed elimina ‘paciente’, mas não sinaliza alta

O Federal Reserve, o banco central americano, abriu caminho para um aumento dos juros de curto prazo, mas revelou vários motivos pelos quais não tem pressa para fazê-lo.

Em comunicado divulgado ontem, após dois dias de reuniões, o Fed retirou a garantia pública que estava dando de que permaneceria “paciente” antes de alterar as taxas. O texto diz que um aumento nos juros ainda é improvável na reunião de abril, mas manteve a possibilidade de um aumento em junho ou depois. O banco central afirmou que elevará os juros quando estiver razoavelmente confiante de que a inflação persistentemente baixa estiver caminhando para voltar à sua meta de 2% e desde que o mercado de trabalho continue melhorando.

“Essa mudança de orientação não indica que o [Fed] decidiu a hora do aumento inicial”, informou o banco central no seu comunicado de política monetária. A presidente do Fed, Janet Yellen, reforçou esse ponto na coletiva de imprensa realizada depois da reunião, dizendo que a retirada da palavra paciente pelo Fed “não significa que seremos impacientes” para decidir quando agir.

Das 17 autoridades do Fed, 15 disseram que esperam começar a elevar os juros este ano, mas elas reduziram consideravelmente suas estimativas do aumento. Elas também diminuíram as previsões de crescimento e inflação, um desenrolar que poderia dar condições para o desejo de elevar os juros nos próximos meses.

A retirada da garantia de paciência conclui um movimento que o Fed estava conduzindo com os mercados financeiros sobre a forma de pensar das autoridades a respeito do momento da alta dos juros.

Depois que a declaração foi divulgada, às 14h, no horário de Nova York, os preços das ações e dos títulos explodiram, enquanto o dólar caiu. Os investidores buscaram títulos do governo dos EUA, derrubando a rentabilidade do título de referência de 10 anos para abaixo de 2%, ante 2,036% antes da divulgação do Fed.

O momento da elevação dos juros pelas autoridades do Fed dependerá de sua interpretação da evolução do cenário econômico. Neste sentido, o banco central enfrenta um dilema.

A taxa de desemprego segue caindo mais rápido que a projeção do Fed, um sinal da retomada da vitalidade econômica que tem dado confiança a algumas autoridades do Fed de que está na hora de iniciar a elevação do custo do crédito.

A inflação, por outro lado, está abaixo da meta do Fed há 33 meses consecutivos, um sinal da fraqueza global e outras turbulências econômicas que podem levar as autoridades a entrar em compasso de espera nos próximos meses.

Quando perguntaram a Yellen o que faria com que as autoridades do banco central ficassem confiantes de que a inflação iria subir em direção à meta, ela disse: “Eu não tenho uma resposta mecânica para você”. Ela disse que as autoridades estarão analisando um “leque amplo de dados”.

As previsões econômicas atualizadas do próprio Fed e a avaliação do cenário econômico na declaração de política divulgada depois das reuniões sugerem que as autoridades ainda estão tendo dificuldades para voltar a conciliar esses panoramas complexos.

As autoridades reduziram suas projeções de crescimento econômico para os próximos anos. Em 2015, por exemplo, disseram que esperam que a produção econômica cresça entre 2,3% e 2,7%, abaixo da estimativa de dezembro, de 2,6% a 3%. As previsões para 2016 e 2017 também caíram, parte de uma série de reduções de estimativas de crescimento com a qual o Fed tem tido que lidar nos últimos anos.

“O crescimento econômico tem sido um pouco mais moderado”, afirmou o banco central em sua declaração de política monetária, um recuo em relação a janeiro, quando o Fed descreveu a velocidade da atividade como sólida.

O clima adverso pode ter contido o crescimento no primeiro trimestre. Mas a longa trajetória das revisões de suas estimativas para baixo sugere que as autoridades veem outras turbulências contendo o crescimento nos próximos meses, como exportações fracas, uma consequência do dólar mais forte e do lento crescimento em outros países.

O Fed também cortou suas estimativas de inflação, um indicador importante porque as autoridades disseram que o momento da alta dos juros dependerá de sua confiança de que a inflação retornaria para a meta de 2%. Para 2015, o Fed projeta uma inflação entre 0,6% a 0,8%, subindo para entre 1,7% e 1,9% em 2016 e finalmente se aproximando dos 2% em 2017.

Embora o crescimento e a inflação pareçam fracos, o Fed vê o mercado de trabalho continuando a registrar avanços. A estimativa é que a taxa de desemprego encerre 2015 em 5%, podendo recuar ligeiramente mais em 2016 e 2017. É importante notar que o Fed também está reduzindo sua estimativa da taxa de desemprego antes de criar pressão inflacionária. Em dezembro, as autoridades estimaram uma taxa entre 5,2% e 5,5%. Agora elas estimam entre 5% e 5,2%.

Embora elas estejam mantendo seu plano de começar a alta dos juros neste ano, as autoridades do Fed estão reduzindo suas estimativas de quanto deve ser esse aumento. A maioria das autoridades acredita que a taxa dos fundos federais atingirá 0,625% até o fim do ano, significativamente abaixo da previsão feita em dezembro. Elas também reduziram a estimativa média para os juros no fim de 2016 e 2017, respectivamente, para 1,875% e 3,125%.
Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Correntes que mantêm as taxas baixas

Por que as taxas de juros estão tão baixas? A melhor resposta é que os países avançados ainda estão em uma “depressão administrada”. A doença é grave. Não vai ser curada tão cedo.

É possível identificar três aspectos indicando que as taxas de juros dos papéis considerados “seguros” nas principais áreas monetárias de alta renda (Estados Unidos, região do euro, Japão e Reino Unido) estão excepcionalmente baixas. Primeiro, as taxas de intervenção de curto prazo dos bancos centrais estão em 0,5% ou menos. Segundo, os rendimentos dos títulos governamentais convencionais de longo prazo estão extremamente baixos: os títulos alemães de 30 anos rendem 0,7%; os japoneses, perto de 1,5%; os do Reino Unido, 2,4%; e os dos EUA, 2,6%. Por fim, as taxas de juros reais de longo prazo são desprezíveis: os “gilts” britânicos de dez anos atrelados a índices rendem menos 0,7%; os equivalentes dos Estados Unidos rendem mais, mas ainda assim uma taxa positiva de apenas 0,4%.

Se você dissesse há dez anos que esta seria a realidade de hoje, a maioria das pessoas teria concluído que você estava louco. A única forma de que você estivesse certo seria que a demanda, produção e inflação ficassem profundamente deprimidas – e houvesse expectativa de que continuassem assim. Efetivamente, o fato de fortes programas de estímulos monetários terem resultado em aumentos tão parcos da produção e da inflação indica o grau de fraqueza das economias.

Não deveríamos ver os diretores de bancos centrais como mestres da economia, mas como macacos em uma esteira mecânica. Eles equilibram a demanda com a oferta potencial nos países de alta renda adotando políticas ultraexpansionistas

Hoje, contudo, ouvimos uma explicação diferente para as taxas de juros estarem tão baixas: a culpa é da política monetária – e, em especial, do afrouxamento monetário quantitativo, a compra de ativos de longo prazo pelos bancos centrais. Essa “impressão de dinheiro” é considerada especialmente irresponsável.

Como argumentou Ben Broadbent, vice-governador do Banco da Inglaterra, essa crítica faz pouco sentido. Se a política monetária tivesse sido irresponsável por pelo menos seis anos – para não dizer desde o início dos anos 2000, como sustentam alguns – certamente teríamos visto um sobreaquecimento inflacionário ou pelo menos um aumento nas expectativas de aumento da inflação. Além disso, os bancos centrais não têm como determinar as taxas de juros de longo prazo a qualquer momento que quiserem. Análises empíricas do afrouxamento quantitativo indicam que seu impacto pode ter reduzido o rendimento dos títulos em até 1 ponto percentual. Veja, no entanto, que os rendimentos continuaram extremamente baixos mesmo depois do fim do afrouxamento, primeiro no Reino Unido e, agora, nos EUA.

O nível de preços é a variável econômica influenciada com mais força pela política monetária. As autoridades monetárias não podem determinar o nível das variáveis reais – como a produção, o emprego ou mesmo as taxas de juros reais (que medem o retorno de um ativo depois de levar em conta a inflação). Isso é especialmente verdadeiro no longo prazo. Ainda assim, a queda das taxas de juros reais é de longa data. Como indicado pelo “gilts” atrelados a índices, elas caíram de um nível próximo a 4%, antes de 1997, para cerca de 2% entre 1999 (depois da crise financeira asiática) e 2007, para então se aproximarem de zero (na esteira da crise financeira ocidental).

Há uma história mais convincente sobre os porquês de as taxas de juros estarem tão baixas. É a de que a taxa de juro real de equilíbrio – cruamente, a taxa de juros em que a demanda iguala a oferta potencial na economia como um todo – caiu e, então, os bancos centrais responderam cortando as taxas nominais, que eles controlam. Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro, rotulou as forças de “estagnação secular” – o que quer dizer uma tendência em direção a uma demanda cronicamente deficiente.

A explicação mais plausível está no excesso de poupança e na escassez de bons projetos de investimento. Isso foi acompanhado por um aumento, pré-crise, dos desequilíbrios mundiais em conta corrente e um excesso, pós-crise, de pressões financeiras e dívidas inadimplentes. As disparadas no crédito privado vistas antes da crise foram a forma como os bancos centrais sustentaram a demanda em um mundo com deficiência de demanda. Sem elas, teríamos visto antes algo similar aos problemas de hoje.

Desde a crise, os bancos centrais não tiveram opção sobre como agir – suas mãos foram guiadas forçosamente. Os eventos na região do euro são um exemplo contundente. No início de 2011, o Banco Central Europeu (BCE) elevou sua taxa de intervenção de 1% para 1,5%. Isso foi profundamente inadequado e, no fim das contas, o BCE teve de voltar a cortar os juros e embarcar no afrouxamento quantitativo. Para que os bancos centrais sejam uma força estabilizadora, precisam guiar as taxas de juros em uma direção equilibradora – e essa direção não é algo que possam escolher.

O aumento da aversão ao risco pode ser outro motivo para a queda das taxas de juros reais dos valores mobiliários considerados seguros. A ideia é a de que as crises aumentaram a atratividade dos ativos mais líquidos e mais seguros. Essa é parte da explicação para os rendimentos ultrabaixos dos “bunds” alemães. Não parece, contudo, ser a explicação dominante no longo prazo. A diferença entre as taxas de juros sobre os “treasuries” e os títulos empresariais nos EUA, por exemplo, não aumentou de forma consistente desde a crise.

Não deveríamos ver os diretores de bancos centrais como mestres da economia do mundo, mas como macacos em uma esteira mecânica. Eles são capazes de equilibrar a demanda com a oferta potencial nos países de alta renda apenas por meio da adoção de políticas ultraexpansionistas, que mais à frente trazem consequências desestabilizadoras.

Quando vamos ver uma alta duradoura nas taxas de juros nominais e reais? Isso exigiria um fortalecimento pronunciado dos investimentos, uma queda pronunciada das poupanças e um declínio pronunciado da aversão a risco – eventos, todos, improváveis no futuro próximo. A China está em desaceleração, o que deverá deprimir as taxas de juros ainda mais. Muitas economias emergentes também vêm se enfraquecendo. A recuperação dos EUA pode não resistir a taxas substancialmente maiores, tendo em vista particularmente a atual força do dólar. O endividamento também continua elevado em muitas economias.

As taxas de juros ultrabaixas não são uma trama arquitetada pelas autoridades monetárias. São uma consequência das forças contracionistas na economia mundial. Embora elevações das taxas em relação aos níveis atuais pareçam ser, no fim das contas, inevitáveis, é provável que continuemos com taxas ainda historicamente baixas por um bom tempo. Os que apostarem em altas na inflação e em uma derrota dos mercados de bônus vão continuar se desapontando. A depressão foi contida. Mas, da mesma maneira, ainda é uma depressão. (Tradução de Sabino Ahumada).

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior