Monthly Archive: January 2015

Bradesco prevê estabilidade dos calotes

BANCO-BRADESCO-1

Em um ano de resultado recorde, o Bradesco fechou 2014 com a menor expansão do crédito desde 2009, quando após a queda do americano Lehman Brothers o Brasil encolheu 0,2%, configurando a primeira retração da economia em 17 anos. O ritmo mais lento do principal produto bancário, porém, não impediu o banco de registrar um lucro líquido de R$ 15,09 bilhões, com alta de 25,6% na comparação com 2013. No quarto trimestre, o avanço foi de 29,7%, para R$ 3,99 bilhões.

Para 2015, o avanço do crédito pode ser ainda pior pelas projeções do segundo maior banco privado do país, mas a instituição não espera problemas com a inadimplência.

O estoque de empréstimos e financiamentos do segundo maior banco privado cresceu 7,3% em 2014, considerando-se apenas os desembolsos classificados pela metodologia do Banco Central. Em 2009, o avanço tinha sido de 6,1%.

“A moderação deve ser a tônica do crédito em 2015″, disse Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, durante teleconferência com jornalistas. Pelo critério de carteira de crédito expandida, que inclui debêntures, avais e finanças, o Bradesco projeta uma expansão de 5% a 9% neste ano. Em 2014, ficou em 6,5% por esse conceito, abaixo da previsão entre 7% e 11%.

Trabuco descreve 2015 como um ano de “desafios”, mas não prevê no caminho do Bradesco uma dificuldade que costuma trazer muita dor de cabeça aos bancos: alta da inadimplência. O segundo maior banco privado do país espera uma estabilidade no nível de calotes em torno de 3,5%, uma previsão questionada por analistas.

“Embora não esperemos uma grande deterioração dos ativos do banco, prevemos deterioração de 30 pontos base e, como resultado, prevemos que as despesas com provisão cresçam um pouco mais que o crescimento da carteira”, afirmaram os analistas do BTG Pactual em relatório.

No trimestre, o banco conseguiu reduzir ligeiramente seu índice de inadimplência em 0,1 ponto percentual. A retirada de uma série de créditos vencidos contribuiu para a queda do índice. As baixas somaram R$ 1,1 bilhão, volume 16,1% maior do que no trimestre anterior.

Para Luiz Carlos Angelotti, diretor de relações com investidores do Bradesco, em 2015 as despesas de provisão para créditos devem se expandir em um ritmo inferior ao do estoque de empréstimos. Isso deve ocorrer porque linhas com inadimplência reduzida, como crédito consignado e financiamento imobiliário, estão ganhando mais espaço no portfólio do banco.

Questionado sobre o impacto da operação Lava-Jato para o sistema financeiro, Trabuco disse que não vê uma possibilidade de contágio para os bancos. O executivo afirmou, porém, que “o momento é de desconforto com a maior empresa brasileira”, referindo-se à Petrobras. “Estamos passando por um momento de depuração.”

Diante da expansão mais moderada do portfólio de crédito ao longo deste ano, o Bradesco deve repetir a fórmula usada em 2014, quando teve um retorno sobre o patrimônio de 20,1%: crescimento das despesas abaixo da inflação e aumento das receitas não ligadas a empréstimos, principalmente seguros. Para o spread de crédito, em 10%, o banco não prevê espaço para aumento.

“Se o crescimento do crédito claramente desapontou, todas as outras linhas foram bem: a margem líquida de juros melhorou durante o ano, as receitas com serviços cresceram 12%, os gastos cresceram alguns pontos abaixo da inflação e a qualidade dos ativos mostrou uma performance muito boa”, resumem em relatório os analistas do BTG Pactual, que projetam um lucro 11,3% maior em 2015.

Em um dia em que o Ibovespa oscilou bastante e fechou a 0,14%, as ações preferenciais do Bradesco fecharam com queda de 1,2%.

Fonte: Valor Econômico
Foto: Banco Bradesco
Postado por: Raul Motta Junior

Estrangeiro ensaia retorno ao Brasil

O caminho sinalizado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, começa a despertar entre investidores estrangeiros um certo otimismo em relação ao Brasil.

Ainda que moderado, o sentimento mais positivo sobre o rumo que o governo deve adotar na política econômica se traduziu na atração de recursos para o país, tanto em renda fixa quanto variável. No mês, o fluxo cambial até a semana passada estava positivo em US$ 662 milhões.

Depois de um recesso em dezembro, o investidor estrangeiro voltou à Bovespa em janeiro. O saldo positivo de capital externo na bolsa de valores somava R$ 1,556 bilhão até 26 de janeiro, ante retiradas de R$ 2,2 bilhões no mês anterior.

Na renda fixa, ainda não existem números consolidados para este ano, mas alguns dados dão pistas do que pode estar ocorrendo. Dentro do próprio governo, segundo o Valor apurou, já há a percepção de que a demanda dos estrangeiros melhorou.

Líder em custódia para investidores estrangeiros no Brasil, com R$ 552,8 bilhões sob sua responsabilidade, o Citi Brasil percebeu um retorno do fluxo de recursos para a renda fixa, basicamente para títulos públicos federais. O banco detém mais de 50% do volume de ativos custodiados de estrangeiros.

Neste ano, até 27 de janeiro, o fluxo de recursos externos estava positivo em R$ 18,2 bilhões no Citi. A cifra ainda não superou a saída líquida de R$ 19,5 bilhões de dezembro, mas chamou a atenção do banco por já se aproximar disso. Em janeiro de 2014, a entrada líquida foi de R$ 11,3 bilhões.

“Me parece que existe uma mensagem clara dos investidores. Tem uma contribuição da Selic mais alta sim, mas tem também um termo de confiança no rumo demonstrado pelo governo. Um ajuste fiscal é sempre bem-vindo”, diz Hélio Magalhães, presidente do Citi Brasil.

No BNP Paribas, que também faz custódia de títulos, a percepção é de que há uma continuidade do interesse dos estrangeiros em renda fixa e fundos de investimentos que aplicam em infraestrutura, que têm isenção fiscal. Para Antonio Nascimento, chefe de vendas de serviços de valores mobiliários do banco francês no país, o programa de compra de títulos anunciado há poucos dias pelo Banco Central Europeu (BCE) deve contribuir para atrair investidores em busca de melhores retornos no mercado brasileiro.

Para a renda variável, a visão predominante entre analistas é que os aplicadores estão fazendo uma recomposição de carteiras em janeiro, de olho no desempenho da nova equipe econômica. Apesar do regresso, gestores veem um movimento mais de ajustes do que de apostas de longo prazo. A cautela ainda é mais acentuada do que na renda fixa.

“Os anúncios reduzem o peso sobre a Bovespa e trazem um pouco de credibilidade, além de diminuírem o risco de perda do grau de investimento do país”, diz o estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Plácido.

Gestores de portfólios de emergentes no exterior reconhecem que há uma brisa de otimismo com os ativos brasileiros, mas julgam que ainda há muitos problemas a serem resolvidos no Brasil.

Apesar da ampla aprovação da postura de Levy, há muita preocupação com a extensão dos problemas da Petrobras. “Clareza e ação da Petrobras são críticos para os mercados consolidarem o otimismo recente”, afirma Michael Gomez, chefe da equipe de gestão dos portfólios de emergentes da Pimco.

Ele reconhece que a gestão de Levy melhorou a imagem do Brasil, mas avalia que a incerteza com a Petrobras tende a afetar os investimentos tanto no curto prazo, por conta do mau humor com ativos brasileiros, quanto no longo prazo porque ainda não se sabe qual a profundidade dos problemas.

Diego Ferro, diretor-adjunto de investimentos da gestora americana Greylock Capital, também diz que a aprovação de Levy no mercado e a melhora das perspectivas macroeconômicas não são suficientes para compensar as incertezas geradas pela Petrobras. “As pessoas não sabem aonde isso vai acabar”, diz.

Além disso, diz Ferro, no mercado de bônus há um receio com papéis brasileiros gerado por histórias recentes de calote, como da OGX, que deixaram uma impressão ruim da gestão empresarial brasileira. “A relação [das empresas] com o mercado e o respeito com os direitos dos credores está sendo questionada agora”.

Felipe Hirai, estrategista de ações para América Latina do Bank of America Merrill Lynch (BofA), disse que ainda não vê, entre os clientes estrangeiros, uma visão positiva do mercado brasileiro de ações. Riscos como racionamento de energia e um crescimento limitado da economia estão entre as travas.

Para Magalhães, do Citi, o retorno dos investidores para a renda fixa faz parte de uma primeira etapa de um ciclo de retomada dos recursos estrangeiros ao país. Em uma segunda fase, quando puderem ver mais claramente os resultados da política de Levy, os investidores direcionariam o dinheiro para a bolsa de valores. “O resultado das empresas vai depender da situação econômica”, afirma Magalhães. Na sequência, haveria conforto para investimentos de mais longo prazo.

Essa também é a visão de David Rodrigues, chefe comercial de custódia do BNP Paribas. Segundo ele, o movimento positivo de investidores estrangeiros na bolsa neste momento se deve a um voto de confiança na equipe econômica, mas uma retomada consistente só vai ocorrer em 2016 e 2017 se o ajuste fiscal for bem-sucedido. “Por enquanto, é uma questão de segurança [na equipe], não de otimismo”, afirmou.

Desde a semana passada, quando Levy foi ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, uma série de executivos do mercado financeiro tem manifestado uma maior confiança dos estrangeiros na economia brasileira.

Anteontem, o presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio, disse que os estrangeiros estão em “lua de mel” com o país. Neste mês, afirmou, a participação de estrangeiros e brasileiros na corretora do banco ficou equilibrada, o que não se via há muito tempo. Para o banqueiro, os investidores nacionais estão mais céticos em relação à economia que os de fora.

Outros fatores explicam o recente ingresso de recursos no país. Alexandre Póvoa, sócio da gestora de recursos Canepa, acrescenta à lista de efeitos positivos para o mercado brasileiro o anúncio do afrouxamento monetário na Europa no dia 22, que ajuda a liberar fluxo financeiro.

Em 12,25% ao ano e ainda com perspectiva de novas altas, a taxa básica de juros da economia tem grande apelo. (Colaboraram José de Castro e Silvia Rosa)

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

A Bolsa que funciona

introducao-a-bolsa-de-valores

Após cair mais de 15% em 2013, o Índice Bovespa, principal indicador da bolsa brasileira, fechou o ano passado com mais um recuo, de 2,91%. Isso depois de o mercado ter enfrentado um período de altíssima volatilidade devido ao ano eleitoral. Os resultados e o ambiente reforçam uma visão pessimista sobre a renda variável no país que tem contaminado cada vez mais investidores. Mas, ao contrário do que sugerem os retornos recentes do Ibovespa, nem tudo são perdas no mercado acionário.

Em 2014, quase uma centena de fundos de ações ativos conseguiu marcas positivas. Algumas carteiras superaram até mesmo os polpudos 10,81% de retorno do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) ao longo do ano.

Levantamento realizado pelo consultor Marcelo d’Agosto, a partir de dados da provedora de informações financeiras Morningstar, com fundos de ações de gestão ativa revela que 147 carteiras de um total de 338 conseguiram superar o Ibovespa, considerado o ‘benchmark’, ou seja, o referencial de resultados do segmento.

A lista inclui apenas portfólios com mais de dez cotistas e acima de R$ 6 milhões em patrimônio líquido, para excluir os chamados fundos exclusivos. Também foram desconsideradas as carteiras com estratégias setoriais ou que aplicam em apenas um papel e também aquelas com estratégia focada em Brazilian Depositary Receipt (BDR), recibos de ações de empresas estrangeiras negociadas na bolsa brasileira.

Entre os que superaram o Ibovespa, 97 fundos tiveram retornos positivos. Desse total, 22 carteiras fecharam o ano passado tanto acima do IPCA, que encerrou 2014 em 6,41%, quanto da poupança, com rendimento de 7,04%. E um seleto grupo de seis carteiras ainda bateu o CDI.

Se for considerado um horizonte mais amplo de investimento, o levantamento aponta ampla vantagem da gestão ativa sobre o benchmark. Em uma análise em termos de retornos anualizados, o ranking compilado por d’Agosto mostra que, entre 252 fundos com pelo menos três anos de histórico, 219 superam o Ibovespa, ou seja, 87% do total. Já o rendimento anualizado do CDI, somente 15 carteiras superam.

Em um período de cinco anos, de um total de 197 portfólios, nada menos que 154, ou seja, 78% batem o principal indicador da bolsa. E, desses, novamente apenas 15 carteiras superam o referencial conservador na comparação entre retornos anualizados.

O campeão entre os portfólios de ações ativos em 2014, o fundo “long biased” do Brasil Plural, acumulou um retorno de 17,83%. A carteira ganhou tanto na subida quanto na queda da bolsa no ano passado, devido à possibilidade de assumir posições vendidas, segundo Carlos Eduardo Rocha, o Duda, sócio responsável pela área de gestão de recursos do banco. “[O long biased] é um tipo de produto que tem cada vez mais entrada, porque tem esse ‘bias’ [viés], que possibilita alguma proteção em cenários difíceis”, afirma o gestor.

De acordo com Rocha, a disciplina na gestão de risco, com escolha de papéis blindados contra os riscos eleitorais e a desaceleração da economia, foi um dos pilares para o bom resultado no ano passado. “Tivemos de concentrar mais o portfólio. Focamos em empresas com fundamentos sólidos, geradoras de caixa, sem exposições ao dólar ou a um risco de racionamento. Também colocamos que as empresas deveriam crescer mais de 15%, ter gestão muito acima da média e, de preferência, serem líderes de mercado, com mais poder de barganha”, diz.

O segundo lugar do pódio foi ocupado também pelo Brasil Plural, com o fundo Plural FIC FIA, um Ibovespa Ativo, que acumulou retorno de 13,69% em 12 meses até dezembro.

Com rentabilidade quase idêntica à do segundo colocado, o BTG Absoluto conseguiu o terceiro maior retorno entre os fundos ativos, com 13,53%. O sócio responsável pela renda variável do BTG, José Zitelman, também cita a escolha de uma carteira menor e de maior qualidade como estratégia para o resultado positivo no ano passado. “A concentração foi um dos nossos pilares no ano passado. Quando a gente encontra uma história boa a gente aloca um bom percentual nessa história. Se pegar as cinco maiores posições, o grupo vai ter cerca de 50% da alocação. E as 10 maiores representam 70% da carteira”, afirma o gestor.

Embora a concentração possa, eventualmente, amplificar o risco do portfólio, os filtros aplicados, conforme Zitelman, são rigorosos. “A gente sempre prefere investir nas empresas premium, mesmo que uma outra mediana esteja mais barata”, diz o sócio do BTG.

Com 12,64% de retorno, o Apex Infinity é outro long biased de destaque em 2014. Para Fabio Spinola Vianna, sócio da Apex, “a possibilidade de adotar posições vendidas vai ser sempre importante na bolsa”. O gestor explica que há posições vendidas desde o início do fundo, em 2012.

Outro integrante do clube que superou tanto o benchmark quanto o custo de oportunidade, o Quest Total Return obteve 12,36% de rendimento bruto no ano passado. Segundo Alexandre Silverio, sócio responsável pela gestão dos fundos da Quest, a estratégia vencedora incluiu uma mistura de posicionamento tático para aproveitar a volatilidade provocada pelas eleições com uma leitura macro minuciosa para identificar empresas descontadas, mas que tivessem menor exposição a fatores como dólar mais forte e atividade econômica fraca. “A gente optou por evitar ações de setores muito alavancados e que precisam de crédito para gerar receita, e focamos em empresas com receitas estáveis e previsibilidade. Acho que isso foi um grande acerto”, conta.

Segundo Silverio, os melhores resultados vieram de papéis de consumo, alimentos e bancos. “Um acerto foi termos assumido baixa exposição em varejo de eletroeletrônicos e de construção.”

 

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

Bolsa, pra que te quero?

bolsa

Eles chegaram ao topo de 637.198 contas cadastradas em maio de 2013. Mostraram crescimento substancial, praticamente quintuplicando o total em dez anos, mas ainda estão longe de ser os milhões almejados pela Bolsa. Eles, no caso, são os investidores pessoas físicas, categoria que tem perdido espaço nas negociações no mercado de renda variável e que ainda dá poucos sinais de retomada em um ambiente que tanto lhe tem machucado.

Também pudera. Desde 2009, ano em que a bolsa disparou, com alta de 83%, o Ibovespa não conseguiu mais despontar, com a valorização de 7,4% de 2012 sendo a responsável pelo melhor desempenho no período. Nesse contexto, nos últimos três anos, houve saída líquida de recursos da pessoa física na Bovespa de R$ 23,7 bilhões.

O pequeno investidor, que somava 564.116 contas em 2014, respondia ao fim do ano por apenas 11,2% da participação no segmento Bovespa em termos de volume financeiro, bem atrás dos institucionais, com 27,7%, e dos estrangeiros, com 53,7%. Essa representação do investidor individual foi a menor para os meses de dezembro desde 1997, quando correspondeu a 9,2%. Em dez anos, a maior fatia mensal garantida pelo varejo na bolsa foi de 34%, em novembro de 2008.

A história por trás da perda de apetite do pequeno investidor ao longo do tempo não traz grandes novidades para quem vem acompanhando o mercado. A maior atratividade da renda fixa, a redução do número de companhias abrindo o capital, a frustração com a crise da petroleira OGX e a falta de cultura de investimento de longo prazo do brasileiro estão por trás do menor interesse pela renda variável.

Guilherme Affonso Ferreira, 63 anos, sócio-diretor da gestora de recursos Teorema e investidor desde o início da década de 80, vê o momento atual como o pior já vivido em bolsa. E conta que seu principal fundo, de ações, está com 10% em caixa, fatia elevada para seus padrões. “Isso nunca tinha acontecido”, diz.

E o que está por trás dessa postura? “A macroeconomia está num momento muito ruim. O Brasil veio crescendo bem e se institucionalizando bastante, o que foi muito importante para o mercado de capitais. Mas começamos a atravessar um período no sentido oposto, com muita desgovernança, muita coisa mal feita, o que gera um desincentivo total”, opina.

Os primeiros sinais de atuação da nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff, contudo, deram um alento para Affonso Ferreira, que diz estar tão pessimista que começa a ver uma luz ao fim do túnel. Há ainda, entretanto, uma desconfiança sobre se esse time vai conseguir levar adiante as medidas prometidas para a economia se recuperar e sobre qual o tamanho da dor causada para atingir os resultados.

“Para a economia, 2015 vai ser um ano muito ruim, mas talvez para o mercado de capitais não seja. O que a equipe econômica está anunciando já deveria ter sido um enorme alento, só que as pessoas têm muita desconfiança. A bolsa tem que reagir ao remédio, não à cura”, afirma.

E há ainda resquícios deixados pelo recente episódio com o grupo EBX, do empresário Eike Batista, e agora a crise enfrentada pela Petrobras, historicamente uma porta de entrada do investidor brasileiro na bolsa.

Affonso Ferreira diz nunca ter investido em ações de empresas do grupo EBX e que deixou de ter papéis da Petrobras em carteira em meio ao polêmico aumento de capital de 2010. Ele elogia, contudo, a condução da crise atual e avalia que a empresa poderá até mesmo sair melhor do que entrou. Por enquanto, o gestor não tem confiança para voltar a investir na estatal, mas ressalta que é preciso acompanhar os desdobramentos para avaliar.

Mesmo cauteloso com a situação da bolsa, Affonso Ferreira lembra que o investimento em renda variável exige resiliência e que a pessoa física precisa estar preparada se quiser perpetuar sua aplicação. E aconselha o investidor individual a ter o foco na situação das empresas, estudando-as para não se deixar levar pelo clima pessimista do mercado.

A inspiração vem do megainvestidor Warren Buffett, da Berkshire Hathaway. “Não devemos ficar olhando muito para o mercado, para o pregão, devemos olhar para as empresas”, comenta. “Hoje as coisas são melhores e existe um contato com a realidade, um pé no chão. Ainda assim, há muita influência dos eventos macro, o que às vezes distorce muito os preços.”

Também inspirado por Buffet, outro famoso investidor brasileiro mostra-se mais otimista com a bolsa. Para Luiz Barsi Filho, 75, o momento é “maravilhoso”. Sem olhar para o desempenho do Ibovespa, a referência do mercado, as atenções de Barsi estão nos dividendos distribuídos pelas companhias. E os preços atuais estão convidativos para o investidor, que tem inclusive elevado “substancialmente” sua participação na bolsa.

“Para mim, é uma maravilha. A bolsa ainda nem caiu como eu gostaria. As oportunidades estão excelentes”, afirma. “Eu não compro a ação, mas o ‘yield’ que ela proporciona. E é bom quando o mercado cai? Sim, porque se ele está em níveis muito altos, não há o que comprar.”

Para Barsi, 90% das pessoas físicas que investem em ações ganham trocados com suas aplicações, focando apenas no desempenho do Ibovespa, enquanto deveriam dirigir o olhar às empresas. Ele vê o mercado não como uma opção especulativa, mas previdenciária. E esse foco o investidor teve cedo, com uma cultura iniciada aos 28 anos, fruto de uma história de trabalho precoce, dada a morte do pai quando tinha apenas um ano de idade.

Na época, Barsi lembra que mapeou os 16 setores de atividade econômica vigentes, listando as empresas negociadas em bolsa para analisá-las. Ele buscava companhias que produzissem ou comercializassem bens perenes, que fossem bem dirigidas em termos de estatutos, bem geridas, que tivessem lucros e que os distribuíssem aos acionistas. Sobraram cerca de cinco empresas nessa seleção, que foi o pontapé para a formação de um portfólio de dividendos, cuja filosofia perdura até hoje. “Nunca tive a ganância de ser rico, mas sempre tive medo de voltar a ser o que era”, diz.

Da carteira atual, que Barsi reforça não se tratar de uma recomendação, o investidor tem papéis de Klabin, Ultrapar, Banco do Brasil, Suzano, Eternit, Santander e das companhias elétricas Eletropaulo, Eletrobras, Taesa e uma pequena fatia de Cesp. A mais nova aposta se concentra nas ações da Forjas Taurus.

Tanto Barsi quanto Affonso Ferreira defendem uma mudança da cabeça do investidor brasileiro, que precisa se atentar mais ao longo prazo para seguir investindo em bolsa. “Vai um pouco contra a índole de raciocínio do brasileiro. O investimento em renda variável não é uma coisa natural como é para o americano, o inglês. Então o período difícil dos últimos sete anos tende a desanimar, sim. A pessoa física, que já entra um pouco hesitante, pensa em nunca mais voltar”, assinala o sócio-diretor da gestora Teorema.

Mesmo o investidor institucional, critica Affonso Ferreira, ainda se comporta de forma “curto prazista”. De fato, essa categoria tem perdido espaço na bolsa. Sua participação de 27,7% no volume financeiro do fim do ano passado é a menor para um fechamento de ano desde 2008, quando estava em 23,8%. “Não tem cabimento o institucional ficar preocupado com liquidez de curto prazo”, observa.

Fonte: Valor Econômico
Foto:
Postado por: Raul Motta Junior

Alta do real é destaque entre moedas emergentes

notas-dinheiro-real-brasil-size-598

O real é a moeda emergente de melhor desempenho ante o dólar neste ano, com alta de 2,70%. Isso decorre em parte da expectativa de que alguma fatia dos cerca de ¤ 1,1 trilhão a serem injetados pelo Banco Central Europeu (BCE) na economia da zona do euro migre para o mercado brasileiro. Analistas, contudo, ainda evitam recomendar a montagem de operações de arbitragem com taxas de juros em reais, devido às incertezas no plano doméstico e ao cenário de forma geral negativo para as commodities.

Soma-se a isso a expectativa inalterada de fortalecimento contínuo do dólar no mundo, conforme se intensifica a divergência da política monetária americana em relação às políticas de zona do euro e Japão.

O Morgan Stanley diz que os mercados se encontram hoje no meio do terceiro grande ciclo de apreciação do dólar dos últimos 40 anos. “Vemos agora o dólar se fortalecendo de forma generalizada em quase 6% por ano até o fim de 2016″, dizem estrategistas do banco em relatório.

O índice DXY – que mede o comportamento da moeda americana em relação a uma cesta com seis divisas – bateu o maior patamar desde setembro de 2003.

O J.P. Morgan concorda que o aperto na política monetária brasileira tem ajudado o real a se destacar entre seus pares e pode continuar dando suporte à moeda em meio ao quadro de juros baixos no mundo.

No entanto, a instituição financeira americana diz acreditar que o estímulo ao “carry trade” – como é conhecida a estratégia em que o investidor toma recursos em moedas de países com juros baixos no exterior e os aplica em papéis lastreados em divisas de mercados com retornos mais altos – tende a ser ofuscado pelos riscos com relação aos desdobramentos dos escândalos envolvendo a Petrobras e pela possibilidade de racionamento de energia.

O banco chama atenção ainda para o menor intervencionismo do BC no câmbio e diz que, com o dólar nos atuais níveis, a instituição pode não fazer a rolagem dos contratos vincendos em março. “Indo além, se o real continuar se fortalecendo, o BC pode considerar a possibilidade de cortar a oferta diária de ‘hedge’ ou mesmo recomprar contratos de swap.”

Pesa ainda contra o real a leitura de que a moeda brasileira segue sobrevalorizada. “Enquanto o investidor perceber distorção no preço do real, ele vai pensar duas vezes antes de entrar, porque essa distorção aumenta o risco de o investimento sofrer com a desvalorização cambial”, afirma o estrategista da XP Investimentos em Nova York, Daniel Cunha.

O dólar comercial encerrou as operações de sexta-feira em alta de 0,65%, a R$ 2,5899. Já o euro terminou a semana em baixa de 0,74%, cotado a R$ 2,9058 – tendo alcançado na mínima os R$ 2,8684, piso desde 28 de junho de 2013 (R$ 2,8573).

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior

‘Postura divergente entre BCs deve levar a um dólar mais forte’

Mohamed A. El-Erian, CEO and co-CIO of PIMCO, speaks at the Milken Institute Global Conference in Beverly Hills, California

Enquanto o Banco Central Europeu (BCE) e Banco do Japão (BoJ) mantêm programas de compra de ativos para estimular a recuperação da economia, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) se prepara para iniciar a normalização da taxa básica de juros nos Estados Unidos. Essa divergência entre as políticas monetárias adotadas pelos bancos centrais dos países desenvolvidos deve impor um processo de ajuste no mercado de câmbio, levando ao fortalecimento do dólar em relação às principais divisas, prevê Mohamed El-Erian, ex-executivo-chefe da Pimco e atualmente principal assessor econômico no grupo financeiro Allianz e integrante de sua Comissão Executiva Internacional.

Para El-Erian, que é também presidente do Conselho de Desenvolvimento Mundial do governo Barack Obama, a adoção do programa de estímulos pelo BCE tende a provocar uma queda dos rendimentos dos títulos soberanos da zona do euro, levando a uma migração para os Treasuries (títulos do Tesouro americano), o que sustentaria a valorização da moeda americana. A seguir os principais trechos da entrevista:

Valor: Qual a sua avaliação sobre o programa de estímulo monetário anunciado pelo Banco central Europeu (BCE) e seu impacto para a economia da zona do euro?

Mohamed El-Erian: A injeção adicional de liquidez vai apoiar o valor de ações e outros ativos de risco. Isso significará que a maioria dos governos da zona do euro, mesmo em países periféricos mais vulneráveis, pode emprestar a taxas de juros próximas daquelas desfrutada pela Alemanha, apesar de haver exceções. E isso vai exercer uma pressão de baixa adicional sobre o euro, que já está perto de seu nível mais baixo em 11 anos. Mas isso é pouco provável que seja suficiente para garantir um avanço do crescimento econômico da Europa, ou alterar decisivamente as expectativas inflacionárias; e vem com o risco de danos colaterais e consequência não intencionais.

Valor: Qual o impacto para os mercados de câmbio e bônus da divergência das políticas monetárias dos países desenvolvidos?

El-Erian: A combinação de desempenho econômico lento e políticas monetárias de estímulo na zona do euro e no Japão coloca pressões baixistas sobre os rendimentos de títulos do governo da zona do euro. Devido às oportunidades de arbitragem financeira, essa pressão de baixa é transmitida aos Treasuries, o que limita a dissociação nos rendimentos (yields), que seria justificada em função da diferente situação econômica nos EUA em relação à zona do euro e ao Japão. Por sua vez, isso força os mercados de câmbio a carregarem uma carga desproporcional de ajuste, empurrando o dólar significativamente para cima.

Valor: Qual a perspectiva para o dólar neste ano e a consequência disso para mercados emergentes?

El-Erian: A valorização do dólar ante as principais moedas, particularmente em relação ao euro e ao iene, é alimentada por três fatores divergentes: melhor desempenho econômico dos Estados Unidos, perspectiva de uma política monetária menos acomodatícia do Fed e menor vulnerabilidade a choques geopolíticos. Esses três fatores tendem a continuar em um futuro próximo, impulsionando o dólar, embora a trajetória seja atribulada. No passado, tal movimento abrupto do dólar tenderia a causar problemas para as economias emergentes, e particularmente aquelas com moedas atreladas ao dólar se apreciariam acentuadamente. Isso é um problema menos generalizado hoje, visto que muitas economias emergentes adotaram regimes cambiais mais flexíveis. Além disso, elas reduziram o peso dos passivos denominados em dólar, e muitas também têm reservas internacionais maiores. Dito isto, nem tudo está bem para a economia global. Por causa de respostas políticas parciais do mundo avançado, os mercados de câmbio têm de atuar como o principal amortecedor e são forçados a fazê-lo bem além de suas possibilidades de ajuste ordenado. Como tal, a volatilidade da moeda poderia causar um distúrbio em outros mercados, com consequências potencialmente negativas para a estabilidade e bem-estar da economia global.

Valor: Qual a sua perspectiva para o Fed começar a subir a taxa de juros nos EUA?

El-Erian: Na ausência de um grande revés econômico global, e tendo saído do seu programa de “quantitative easing” (afrouxamento monetário) em outubro de 2014, espero que o Fed comece a subir a taxa de juros neste ano. Ele vai fazer isso de forma gradual e coordenada. E o fim do ciclo de alta ficará abaixo da média histórica, de cerca de 4%.

Valor: Quais países emergentes são mais vulneráveis a esse efeito?

El-Erian: A maioria das economias emergentes vulneráveis são aquelas que não têm a capacidade de resistência necessária devido a uma combinação de insuficiente capacidade de resposta da política doméstica, que têm colchões financeiros inadequados e alta exposição a eventos externos adversos. Rússia e Venezuela estão entre as mais vulneráveis nesta cesta. Suas perspectivas se tornarão ainda mais difíceis se o fenômeno atual de divergência de perspectivas de política monetária piorar. Há um segundo grupo de países que estão altamente interconectados ao sistema financeiro global e, como tal, requerem uma gestão econômica cuidadosa para navegar na provável volatilidade do mercado mais adiante. Brasil e Turquia estão entre os principais países emergentes nessa categoria.

Valor: Recentemente o mercado de moedas sofreu forte impacto da queda do preço do petróleo e das commodities. Qual a perspectiva para o preço desses ativos neste ano e como isso afetará o crescimento da economia global?

El-Erian: Espero que o preço das commodities se estabilize nesses níveis significativamente baixos, embora o processo seja inevitavelmente instável e demorado. O petróleo é particularmente notável a esse respeito. Os participantes do mercado estão tendo de se adaptar a um novo paradigma de oferta em que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) não está mais disposta a desempenhar o papel de “fiel da balança” (em relação à produção de petróleo).

Valor: Como o senhor avalia a economia brasileira e quais são as principais preocupações em relação ao Brasil?

El-Erian: Após um período de desempenho impressionante, a economia brasileira atingiu uma fase difícil, que trouxe de volta memórias desagradáveis de tendências como “estagflação” – que é o crescimento muito baixo por muito tempo e inflação muito alta, embora bem abaixo dos níveis históricos. Não há nenhuma boa razão econômica por que o Brasil deve ficar preso em um tal equilíbrio de baixo nível. O país tem todos os atributos necessários para retomar o crescimento mais rápido e recuperar uma estabilidade financeira mais robusta. E esta é a melhor arma contra um rebaixamento do rating soberano do Brasil, que aumentar desnecessariamente os custos dos empréstimos, tanto para o setor público quanto para o privado.

Valor: Qual a sua avaliação sobre a nova equipe econômica?

El-Erian: É uma equipe altamente capaz, comprometida e experiente, que começou no caminho certo.

 

Fonte: Valor Econômico
Foto: Reuters/Fred Prouser
Postado por: Raul Motta Junior

Investidor em crise de identidade

charles ferraz

Conservador, moderado ou arrojado? A tradicional classificação do investidor está em xeque. As instituições financeiras discutem internamente se os perfis dizem algo ao cliente e propõem novas soluções.

O Itaú Unibanco concluiu que a nomenclatura atrapalha. “Todo mundo se diz conservador, mas a interpretação que se dá para a palavra é diferente”, diz Charles Ferraz, chefe de investimentos do private banking. O banco acaba de trocar os perfis por números: 1, 2, 3 e 4. A sequência não diz nada e essa é a intenção. “Adotamos a estratégia de evitar as palavras. E então o investidor passa a discutir a expectativa de retorno e risco associados a esses perfis.”

Para além da semântica, o debate fala ao estômago do investidor. No perfil 2, por exemplo, a carteira é calibrada para um retorno esperado, em 12 meses, de 13%. Se o cenário for ruim, o ganho deve ficar por volta de 9,5%, e se for muito melhor do que o esperado, 16%. Já no perfil 3, o ganho pode ser de apenas 2,5% em um cenário ruim. A contrapartida é uma expectativa de retorno que chega a 25% no melhor dos cenários. “Quando não falo nomes, a discussão volta-se a esses números”, diz Ferraz.

Houve um período de transição. No início de 2014, o Itaú começou a associar os dois perfis, como em “conservador/ perfil 1″, “moderado/perfil 2″. E, agora, abandona de vez as palavras.

Debruçar-se sobre a classificação do investidor não é exclusividade do Itaú Unibanco. A volatilidade recente nos mercados ajuda a entender porque o tema ganhou espaço. “Nos momentos de estresse, esses perfis são muito mais testados”, diz Leandro Karam, superintendente de investimentos do private banking do Bradesco. “É quando você conhece um pouco mais os clientes que, em momentos de alta, intitulam-se agressivos e que, quando começam a ver a deterioração da riqueza, comportam-se de forma diferente”, afirma.

Para ajudar a entender esse investidor, as finanças comportamentais entraram em jogo. O Bradesco tem estudado e feito melhorias nos questionários que buscam aferir o perfil de risco, processo chamado de “suitability”, na tentativa de entender seus reais objetivos e limites, segundo Karam. E montou uma apresentação de 35 páginas para que os gerentes reforcem o trabalho educacional, mostrando exatamente como funciona cada classe de ativos a fim de evitar decisões equivocadas.

“Essa é uma das questões mais complexas dentro do mundo do private”, diz Paulo Corchaki, diretor da área de gestão de fortunas do UBS. Ele exemplifica com o caso de uma cliente idosa que tinha todo o dinheiro investido em ações. Ela herdou do pai o portfólio, concentrado em empresas boas pagadoras de dividendos, e vivia dos proventos. “Ela se achava super conservadora por conta disso”, conta. Ou seja, cada um tem um entendimento diferente da mesma nomenclatura.

O ideal nos questionários que avaliam o perfil, diz também Corchaki, é tentar não se atrelar muito aos nomes, mas sim ao tipo de risco ligado a cada carteira. E esse detalhamento é importante, como revelar ao aplicador que um determinado portfólio, em situações de estresse, pode levar à perda de 20% do patrimônio.

O UBS preferiu manter a classificação clássica, sempre acompanhada de explicações claras, mas Corchaki lembra já ter participado de discussões do setor que apontavam para a troca dos nomes por números ou até cores: carteiras verde, amarela e vermelha, por exemplo.

Com foco no cliente de alta renda, a plataforma de investimentos on-line Guide surgiu há um ano subvertendo a classificação tradicional por meio do chamado DNA do Investidor. A primeira etapa do questionário virtual tem inspiração na teoria do psiquiatra Carl Jung e classifica o aplicador em diretor, empreendedor, facilitador, fazedor, motivador, prático, visionário ou conselheiro. O segundo passo é um diagnóstico financeiro, em que ele é avaliado como independente, seguidor, acumulador ou preservador de capital. O último diagnóstico é dos objetivos de vida do cliente, a fim de dividir o patrimônio em bolsos: da viagem de férias, do apartamento e da aposentadoria, por exemplo.

É o cruzamento de todas essas informações, fruto de um questionário que demorou oito meses para ser desenvolvido, que leva à estruturação do portfólio e também à forma de lidar com o cliente. Cabe ao assessor ajudar o investidor de, por exemplo, perfil independente, que tende a ter uma opinião forte sobre dadas informações, apesar de não ser especialista, a não ser prejudicado por seus vieses.

“Nossa área de investimento tem mais trabalho do que teria no modo tradicional, não tenho sombra de dúvida”, diz Alexandre Gusmão, gerente de operações da Guide. Um algoritmo cruza os perfis e direciona para nove carteiras, que ainda precisam ser customizadas de acordo com os recursos destinados a cada bolso. No modelo tradicional, afirma, talvez três carteiras padrões fossem suficientes.

O processo de suitability, cujo objetivo é avaliar que produto serve a cada investidor, é obrigatório. “Já que o processo é regulatório, decidimos aproveitar o máximo dele”, diz Gusmão.

A regulamentação ganha um reforço em julho, quando entra em vigor a Instrução nº 539, da Comissão de Valores Mobiliários. Segundo a norma, cabe aos distribuidores e consultores verificar três pontos: se o produto, serviço ou operação é adequado aos objetivos de investimento do cliente, se a situação financeira dele é compatível e se ele possui conhecimento necessário para compreender os riscos relacionados.

Essas são apenas as diretrizes. Cabe ainda a cada instituição estruturar seu laudo de avaliação do perfil do cliente e também decidir como classificá-lo, diz Carlos Massaru Takahashi, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e presidente da BB DTVM. O mercado em geral usa os termos conservador, moderado e arrojado, afirma, mas não há nada que iniba as instituições de aperfeiçoarem o processo. E as finanças comportamentais, diz, entram cada vez mais no debate.

Mesmo na Anbima, responsável pela autorregulamentação, onde a discussão de suitability é anterior à CVM, a prática é relativamente nova, aponta Takahashi. Os primeiros debates surgiram em 2006 para o segmento de private banking. Somente em janeiro do ano passado foram publicadas as diretrizes para a distribuição de produtos no varejo, sendo que em julho foi dada a largada para a supervisão.

Os produtos cuja venda precisa passar pela análise de perfil foram incluídos aos poucos. Hoje deve passar pelo processo de suitability quem vai investir em fundos, títulos públicos, ações, derivativos, debêntures, letras financeiras, letras hipotecárias, operações compromissadas, Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). Há uma discussão em curso sobre se faria sentido incluir a poupança e os planos de previdência.

A psicóloga econômica Vera Rita de Mello Ferreira tem suas ressalvas em relação ao suitability. “É um avanço que se discuta e se implemente, mas ainda não se chegou no jeito ideal de matar essa charada”, afirma.

As escolhas do investidor não são consistentes a maior parte do tempo, diz Vera Rita. “É muito difícil captar o perfil porque o estado de espírito do momento, um detalhe do ambiente e a formulação da pergunta vão influenciar a maneira como o investidor vai responder”, afirma a especialista, que acaba de ser nomeada membro do comitê de pesquisa da Rede Internacional para Educação Financeira (Infe, na sigla em inglês), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A percepção de risco não é objetiva, é um sentimento, diz, e nem sempre o indivíduo tem consciência dela. Olhar a experiência passada com relação a dinheiro, considera, poderia ajudar. E é muito difícil deduzir a reação à perda se o investidor nunca passou por uma situação similar. Uma análise de perfil que levasse em conta o comportamento do investidor não poderia assim ser um ato único, fixo, em determinado momento do tempo. A pesquisadora também sugere métodos que não dependam tanto da autoanálise, como uma investigação das reações mais comuns na base de investidores.

Já que a regra é estudar mais, somente para lançar mais uma ideia de avaliação do perfil, Vera Rita cita o doutorando em economia e psicologia na Universidade de Sorbonne, Marco Gazel, autor de um dos capítulos do seu livro, “A Cabeça do Investidor”. A sugestão é uma classificação simples dos aplicadores em quatro grupos: quem consegue esperar e aguenta perder; quem consegue esperar, mas não aguenta perder; quem não consegue esperar, mas aguenta perder e, por fim, quem não consegue esperar nem aguenta perder.

Fonte: Valor Econômico
Foto: Marcos Alves / Marcos Alves
Postado por: Raul Motta Junior

‘Brasil já sente choque de credibilidade’

trabuco

Se tivesse aceitado o convite da presidente Dilma Rousseff, que o queria no Ministério da Fazenda, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, estaria rodeado de seguranças e com um séquito de jornalistas à sua volta em Davos. Ontem à tarde, no vilarejo suíço, ele se preparava tranquilamente para participar do Fórum Econômico Mundial pela terceira vez, sem encontros privados, sem ter agendado conversas com clientes. Sua intenção no evento é ouvir muito e falar pouco.

À vontade no hall do hotel Hilton, Trabuco tomava um cafezinho, sem pressa, ao lado do economista-chefe do banco, Octavio de Barros. Naturalmente aceitou a proposta de conversar com o Valor, em sua primeira entrevista exclusiva desde a recusa ao convite de Dilma, em novembro.

Para o banqueiro, já se percebem reflexos do “choque de credibilidade” da nova equipe econômica no mercado, com um aumento da confiança. E um dos primeiros sinais foi a queda dos juros cobrados pelos investidores na compra de títulos públicos atrelados à inflação, as NTN-B.

Mas que ninguém espere resultados imediatos. “Ganharemos o ano se prepararmos o terreno para 2016 e inviabilizarmos essa desconfiança de que perderemos o grau de investimento”, disse Trabuco na entrevista. “Não é um ano em que a gente vai comemorar o PIB em dezembro, mas vamos comemorar o que precisamos comemorar: o estabelecimento de uma plataforma com dois pilares bem ajustados – o pilar do fiscal e o pilar da política monetária – para que tenhamos crescimento sustentado nos próximos anos”, completa.

Com o auxílio de Barros, Trabuco desenha um cenário em que a inflação pode até estourar o teto da meta, mas não compromete a imagem do governo porque permite o realinhamento dos preços da economia. Para a agenda da retomada, em 2016, ele vê um papel crucial nas concessões de infraestrutura. Mas alerta que é preciso “virar a página” dos escândalos de corrupção na Petrobras e expõe a necessidade de se reavaliar o uso do BNDES como instrumento para baixar tarifas nos leilões.

Para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a quem chefiou por mais de três anos na gestora do Bradesco, Trabuco dispara elogios. “Ele tem uma biografia excepcional, na vida acadêmica e na carreira pública, e é um homem do Estado na acepção da palavra”, afirma. E interrompe a conversa, com uma sonora risada, quando é lembrado de que poderia estar no lugar de Levy em Davos. Por que recusou o convite? “Disso falamos em outro momento. Aqui em Davos temos muitos coquetéis de confraternização pela frente”, promete, sem o menor jeito de que entregará a resposta.

Valor: O sr. está em sua terceira participação em Davos. Como costuma aproveitar o fórum?

Luiz Carlos Trabuco: Davos serve para provocar o pensamento. O que me marca muito no fórum é o estímulo para pensar fora da caixa, num mundo que é complexo, físico, metafísico. Me lembro bem, na primeira vez em Davos, além de todas as palestras e reflexões de economia, de um workshop que me impressionou muito. Era com um ganhador do Nobel de Física, conhecido por medir a probabilidade do movimento dos corpos dentro dos buracos negros [o francês Serge Haroche, professor do Collège de France]. Ele chegou à conclusão que os quasares dentro dos buracos negros têm 72% de possibilidade de se movimentarem não aleatoriamente, mas dentro de uma previsibilidade. Se previsibilidade acontece no fundo do universo – mas bota em inglês, “black hole”, que fica mais bonito -, para nós, aqui no mundo da matéria, no mundo físico, criar previsibilidade é uma coisa muito importante. Isso é o que o Brasil precisa ter hoje, quanto mais a gente aumentar o índice de previsibilidade [da economia brasileira], mais aumenta o nível de confiança. E com o nível de confiança alterado, a gente tem uma solução melhor [para os problemas da economia].

Valor: E sua expectativa para o encontro deste ano?

Trabuco: O mundo está difícil e seguramente não vai mudar muito. O dinheiro vai continuar abundante e com baixa rentabilidade. Aqui na Suíça os juros estão negativos em 0,75% ao ano, você paga para manter um depósito no banco. Há exatamente um ano, 100% das opiniões eram de que o petróleo ficaria acima de US$ 100; está abaixo de US$ 50. Um ano atrás, a previsão era que o juro americano estaria em 3,20%. Então, em 12 meses, o exercício da previsibilidade carrega um desafio enorme. Não teve casa bancária, consultoria com essa capacidade de previsão. Há 30 dias era previsível saber o que aconteceu na semana passada com o franco suíço? Acho que não. Todo esse ambiente de dificuldade, de mudança de padrão de comportamento, consumo, crescimento, reforça, triplica, quadruplica, a necessidade de o Brasil fazer um bom trabalho de ajuste.

Valor: E como fazer um ajuste equilibrado, sem deixar que o remédio mate o paciente?

Trabuco: Estamos aí com um novo governo, comemorando um mês. A gente não pode olhar para trás. O que passou, passou. Temos de olhar para frente. A determinação da presidente Dilma é muito forte para fazer um trabalho para restaurar a confiança fiscal, porque isso vai dar espaço para que a política monetária não seja tão estreita, tão dura, que está assim em função das dúvidas em relação ao fiscal – e isso com o mundo com juros ao redor de zero e fazendo um “quantitative easing” monstruoso. Nós até poderíamos e deveríamos fazer algo semelhante, mas não temos condições, o Banco Central tem uma condição fiscal frágil. O primeiro mês de trabalho [da equipe econômica] tem um bom direcional. Quando chegar em dezembro, a gente vai olhar para trás e vamos comemorar o quê? O crescimento do PIB? Parece que não, pois não é um ano que mostra condições concretas para sustentar um PIB mais robusto. O mundo não ajuda, as commodities não ajudam e o ajuste também não ajuda. Não é um ano que a gente vai comemorar o PIB em dezembro, mas vamos comemorar o que precisamos comemorar: o estabelecimento de uma plataforma com dois pilares bem ajustados – o pilar do fiscal e o pilar da política monetária – para que tenhamos crescimento sustentado nos próximos anos.

Valor: Se esse choque de credibilidade é necessário, então quanto antes, melhor?

Trabuco: O choque de credibilidade tem vários ingredientes. Há a questão concreta das medidas anunciadas, mas esse choque atua muito no campo da previsibilidade. Quando a previsibilidade é plena, esboça-se um aumento da confiança. Os juros das NTN-Bs caíram por um mecanismo simples: apareceram compradores, investidores estrangeiros estão comparecendo. Já falamos com alguns investidores aqui e ouvimos o seguinte: o Brasil tem futuro, é uma possibilidade excepcional para investidores internacionais.

Valor: A economia já sente algum reflexo desse novo processo?

Trabuco: Há um mês a taxa real de juro medida pela NTN-B estava ao redor de 7%, hoje está ao redor de 6%. Já é reflexo de uma mudança do dimensionamento [do trabalho, das indicações da equipe econômica].

Valor: O sr. percebeu um movimento de reavaliação do Brasil pelos investidores estrangeiros?

Trabuco: Isso é um processo. Se a construção for feita ao longo de 2015, vamos chegar ao fim do ano e fazer um balanço do que tivemos: alinhamos preços, equalizamos a questão fiscal. O PIB não é favorável, mas criamos bases para a arrancada. Durante o voo para cá, vim pensando sobre o desafio da competitividade industrial. O Brasil é um país produtivo? É. Tem produtividade? Tem. É competitivo? Não tanto. Dessa história todos ouvimos falar. O que ela tem a ver com o ajuste fiscal? Gostaria de tirar esse lado de demonizar o ajuste fiscal como se ele fosse ligado a uma ideologia, a uma corrente do pensamento econômico. Não! Temos o desafio da competitividade, que tem dois canais para ser atingido. Um é o lado fiscal: a carga tributária no Brasil é elevada porque temos um desequilíbrio fiscal; se as contas públicas estivessem extremamente equilibradas, poderíamos aliviar a tributação. Não dá mais para fazer isso por desonerações setoriais. Quando revertem-se essas desonerações, colhem-se mais problemas do que as soluções inicialmente planejadas.

Valor: Os resultados das desonerações ficaram aquém do que o governo esperava?

Trabuco: Se tivéssemos um ajuste fiscal rigoroso, poderíamos ter feito desonerações setoriais, com efeitos neutros. Mas fizemos desonerações com fragilidades fiscais e houve a necessidade de uma política monetária mais austera. O resultado foram desencontros. Este é um ano de encontro. Atingiremos a competitividade se tivermos uma boa logística. Só conseguimos uma boa logística com investimentos em infraestrutura. O desafio que existe à frente nessa área é restaurar a confiança para fazer um brutal programa de concessões. Esse programa tem que acontecer. É a agenda de 2015? Seria bom que fosse, mas acredito que será a grande agenda de retomada [do crescimento] em 2016. Até porque a taxa de investimento em infraestrutura depende de virarmos a página [do escândalo de corrupção] da Petrobras e das empreiteiras.

Octavio de Barros: O grande desafio é que o ajuste fiscal não seja tópico, localizado e temporário.

“O trabalho para restaurar a confiança fiscal vai dar espaço para que política monetária não seja tão estreita, tão dura”

Valor: Mas o ajuste não implica também um aumento de custos que fica à beira do insuportável para as indústrias, já afetadas pela falta de competitividade?

Trabuco: É por isso que 2015 é um ano de ajustes. Quanto antes nós passarmos por eles, mais rápido construiremos um futuro melhor. Essa coerência na direção é fundamental. É lógico que a carga tributária é quase insuportável, em 37% do PIB, mas seria pueril imaginar condições concretas de reduzi-la hoje. Por isso, de certa forma, o pacote até divide um pouco a sociedade. O Estado brasileiro, pela dívida histórica com as demandas sociais, não tem grande capacidade de investimento, que é ao redor de zero, me desculpe. Para fazer as obras de melhoria logística e de infraestrutura, sobra apenas o caminho das concessões. E para esse processo ser mais barato, é preciso um alto nível de confiança. Não basta ter grau de investimento. O grau de investimento não é miraculoso. É a ausência dele que traz problemas, que faz o investidor estrangeiro exigir maior retorno para o capital investido. Ganharemos o ano se conseguirmos preparar o terreno para 2016 e inviabilizar essa desconfiança de que perderemos o grau de investimento. E se possível, em 2016, até ganhar o “grade” ou uma perspectiva maior.

Barros: Certamente é possível. O Brasil pode ganhar um “outlook” positivo em 2016. Eu acho que já saiu do cenário a perda do grau de investimento. O desafio de 2015 é construir uma plataforma para o desenvolvimento futuro.

Valor: Há condições de o Banco Central suavizar o ritmo de aumento da taxa de juro em função dessa nova conduta fiscal?

Trabuco: Como você vê isso, Octavio?

Barros: Nossa visão é que a economia brasileira vem crescendo menos, abaixo do seu potencial, muito, muito abaixo de seu potencial. Nesse sentido, é intuitivo que a inflação vá encontrar o centro da meta dentro de um certo horizonte de tempo. Esse horizonte mais previsível é o fim de 2016.

Valor: Então a inflação continuará alta neste ano?

Barros: Ao mesmo tempo, a gente pode considerar que a inflação de 2015 tem um papel corretivo também, sobretudo nos preços administrados, mesmo levando a estourar o teto da meta. Mas é importante que isso não seja percebido como um fracasso. A autoridade monetária vai estar mais atenta sobre os preços livres. Os preços administrados não terão o mesmo grau de repasse de condições normais porque a economia está crescendo muito abaixo do seu potencial. Tínhamos que passar por isso necessariamente, por isso a inflação oficial projetada pelo Bradesco é de 6,8% em 2015. Mas não é algo que macule a imagem do Banco Central, muito pelo contrário: a expectativa do próprio boletim Focus vai apontar para o centro da meta em 2016 e 2017. Então não dá para dizer que é zero a probabilidade que mais para o fim do ano o BC tenha algum espaço para reduzir os juros, mas o mais provável é que em 2016 ele possa começar a reduzir. O cenário oficial do Bradesco é de uma redução de 150 pontos em 2016, no ano todo: de 12,5% para 11%.

Trabuco: Se a inflação é fruto da correção de preços desalinhados – e nós começamos o ano com uma série de desalinhamentos nos preços relativos da economia -, um equacionamento em janeiro ou em fevereiro é positivo. Com o realinhamento, temos menos espaço para crises setoriais. A importância da volta da Cide, por exemplo, é boa por causa de dois objetivos atingidos: o primeiro é a arrecadação, com a sociedade ajudando a pagar o equilíbrio fiscal, mas também ameniza a crise no setor de etanol, que tem dificuldades intensas.

Valor: A sociedade brasileira precisa estar mais madura para aceitar os resultados desse novo ajuste fiscal? Terá impacto social, no emprego…

Trabuco: Uma deterioração do nível de emprego pode até estar em perspectiva, mas precisamos virar a página rapidamente, especialmente em algumas áreas: a cadeia produtiva do açúcar e do álcool, de óleo e gás, do setor elétrico e das concessões públicas. Quanto antes criarmos novos modelos de governança, mais amenizamos a questão do emprego.

Valor: Houve o realismo tarifário e o realismo fiscal. Tivemos um apagão em dez Estados brasileiros e no Distrito Federal na segunda-feira. Precisamos tratar com mais realismo também as condições de suprimento de energia?

Trabuco: Nos últimos anos temos observado uma evolução da matriz energética, baseada fundamentalmente nas usinas hidrelétricas. O Brasil não teve maiores problemas, mesmo no período de estiagem, por causa do parque de termelétricas. Ainda tem muita coisa para acontecer com as eólicas. Tudo isso dá uma certa tranquilidade. Se temos problemas, vamos resolvê-los. A visão é de esperança.

Valor: Além da questão energética, como o senhor vê a crise hídrica em São Paulo e como tem lidado pessoalmente com o problema?

Trabuco: Pessoalmente, você expande a sua consciência quando vai usar a água para o banho, para fazer a barba. Cada vez que eu abro a torneira ou uso a descarga, na minha casa ou no trabalho, me vem à mente uma represa com seu nível caindo pouco a pouco. A preocupação é grande. Ainda não estamos em uma situação neurótica, mas o racionamento conturba a vida das pessoas. Essa é uma lição que fica para os governantes atuais e de amanhã. Governantes do passado não foram capazes de prever a finitude da água e a possibilidade de menores precipitações pluviométricas. É um chamado à consciência.

Valor: Afeta os negócios?

Trabuco: Afeta o clima de negócios. Existe solução? Existe. Com obras públicas muito intensas. A solução para a crise hídrica não está em represas construídas há 20 ou 30 anos, quando a cidade tinha outra densidade populacional. Precisamos ser extremamente arrojados.

Valor: Por que a parte privada dos financiamentos a obras de infraestrutura, por exemplo, é tão baixa? Os bancos privados estão muito reticentes em entrar no financiamento?

Trabuco: Não estamos reticentes. Os bancos privados não têm como competir com o crédito direcionado, que tem recursos ou repasses do Tesouro, com taxas subsidiadas. A solução é equalizar taxas. É lógico que o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] tem programas muito importantes, mas já não é mais possível cobrar 2,5% ao ano. Os bancos privados não têm esses recursos. A crença clara de que o investidor é o capital privado implica uma nova definição do modelo de crédito, que não pode ter mais sustentação exclusiva no crédito direcionado, bancado pelo Tesouro. Esse modelo está se esgotando.

Valor: O senhor defende um financiamento mais realista para o programa de concessões?

Trabuco: Se você recebe uma concessão do poder público para fazer uma obra de infraestrutura e a taxa de retorno não é compatível com o seu risco, você exige um custo financeiro baixo, como forma de compensação. Só que quem paga o custo financeiro baixo é a sociedade.

Fonte: Valor Econômico
Foto: Exame.com
Postado por: Raul Motta Junior

Stuhlberger: 2015 vai ser o ano de Jó

1415912476594

Uma das histórias mais conhecidas da Bíblia conta a saga de Jó, um homem de quem Deus tirou todos os bens, a família e a saúde para testar sua fé. É a essa imagem que recorre Luis Stuhlberger, gestor do mais conhecido multimercado brasileiro, o fundo Verde, para ilustrar as provações pelas quais o investidor vai passar neste ano. “2015 vai ser o ano de Jó”, afirmou em entrevista exclusiva ao Valor, a primeira no controle da Verde Asset Management, nova gestora que nasce com R$ 30 bilhões sob gestão e o Credit Suisse como sócio minoritário. “Você tem Deus conspirando contra o Brasil: não dá água, não tem energia, os preços das commodities estão caindo, o governo aperta em 2% do PIB…”, afirma, antes de emendar a ironia: “mas vamos estar mega otimistas, porque 2016 vai ser melhor”.

Stuhlberger passa longe de compartilhar a paciência de Jó. Mesmo surpreendido positivamente pela nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, montou posições que ganham com a queda da bolsa brasileira e com a alta do dólar. Acertar os movimentos da moeda americana, seara em que poucos economistas ousam especular, foi a estratégia que mais rendeu ganhos na história do Verde, ainda que se expurgue a maxidesvalorização, forte movimento de queda do real em 1999, quando o fundo teve seu maior ganho, de 135,4%.

Nos 18 anos de vida, o Verde rendeu 9.337%, contra 1.313% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI). A carteira somente perdeu para o referencial duas vezes: em 2008, o Verde teve o único retorno negativo de sua história, de 6,44%, enquanto o CDI rendeu 12,37%, e, em 2014, o fundo obteve 8,8%, ante 10,81% do CDI. Apesar da diferença pequena para o benchmark, o gestor aponta o ano passado como um dos mais sofridos de sua história. Para ele, suas teses provaram-se corretas – reeleição de Dilma Rousseff, dólar forte, estagflação e piora fiscal -, mas a execução foi prejudicada, entre outros motivos, pela inesperada versão “Dilma 2.0″. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Colapso do modelo

Muito pouco tem se falado neste começo deste ano sobre a tendência econômica do Brasil, que chamo há dois anos de colapso do modelo. Estávamos muito certos disso independentemente do preço dos ativos ou da questão da execução. É algo importante que o mercado não está levando em conta, [estando] ‘in love’ com Joaquim Levy. O que é o modelo brasileiro dos últimos 24 anos, desde a Constituinte? Um modelo de crescimento sem nenhuma reforma. É um modelo que tem dois pivôs: cresce o tamanho do governo, principalmente em pagamentos a pessoas: funcionários públicos, salário mínimo, gastos sociais. A participação do governo cresceu absurdamente, de 25% para 40% do PIB em 25 anos. E cresce a fatia do mercado de trabalho. Os salários, que no Brasil eram baixíssimos em relação ao PIB, hoje suspeitamos que estão beirando 58% do PIB.

Queimando na carne

O que sempre foi claro para mim que aconteceria com o modelo: se o tamanho do consumo do governo e do trabalho é tão grande, não sobra nada para os lucros. A lucratividade das empresas não financeiras está colapsando. Quem está pagando um pouco a conta são elas. Todo mundo sobrevive, mas queimando na carne, não gordura, quer dizer, queimando capital de giro, lucros, tomando empréstimos para diminuir prejuízos. É simplesmente impossível crescer sem reforma.

Dilma 2.0

O colapso do modelo nos levou a ter um PIB quase zero nos últimos dois anos, com uma inflação alta e o crescimento de despesas do governo ainda na faixa de 7% a 8% ao ano acima da inflação. Acho que a presidente Dilma viu que isso ia obviamente nos levar à perda do grau de investimento. O Brasil tem uma vantagem enorme sobre outros países, como Argentina e Venezuela, porque ele sabe muito bem que perder o grau de investimento é um desastre.

Efeito surpresa

Por que fiquei muito surpreso com Joaquim Levy? Eu jamais esperaria alguém tão ortodoxo. Ele é muito mais ortodoxo do que qualquer um que o PSDB pensasse em colocar. Mas a gente tem que estar preparado para o próximo passo, que tem que ser logo, que são as reformas. Porque senão tudo isso adianta pouco ou vai servir só para ganhar tempo.

Reformas, mais que ajustes

A primeira coisa a fazer é um ajuste fiscal. Agora, isso não resolve nosso problema, nem de longe. Melhora a alocação de capital, mas não é por conta disso que você vai crescer. O que o governo está fazendo agora não são reformas, mas cortar coisas grosseiramente erradas, como alguém ficar seis meses no emprego e ter seguro desemprego, não ter Cide – todo país do mundo tem Cide -, segurar tarifa pública… Todo mundo ficou muito impressionado com a rapidez e agilidade com que o Joaquim Levy fez isso. Mas, para crescer, o Brasil tem que resolver esse dilema de tamanho do governo e do mercado de trabalho. E é a parte mais dura de fazer. Por que eu sou cético? Porque isso não é o que o PT quer. Obviamente quando estivermos perto da próxima eleição, aí essas questões voltam à tona.

Chão da fábrica

A análise desses fatos vem sendo dada por consultorias ou bancos que olham do lado otimista. Não é alguém que está no chão da fábrica, com milhares de funcionários e lidando com esse problema de falta de reformas. Eu diria que a confiança do empresário que está na economia real é bem distante [daquele] da economia financeira. A vida está bem mais difícil e será bem mais difícil. Não que aqui a gente não sofra junto, sem IPOs, sem fusões e aquisições, mas obviamente não se compara com a situação da indústria e do comércio, que têm de competir com China, Coreia, México, e que vão ver essa fase do ajuste bem dolorosa nas suas vendas deste ano.

A sorte acabou

Estamos passando por essa fase ruim junto com uma queda expressiva de preço das commodities e com um risco de racionamento de água e de energia. Isso aí não é culpa de ninguém, simplesmente a nossa sorte acabou. Tem um lado do mercado hoje que diz: puxa, finalmente a matriz econômica é boa. E tem um lado da esperança, que é importante, de confiança dos estrangeiros, que gostam do que estão vendo. E você vai passar o ano inteiro numa espécie de batalha entre expectativa e realidade, entre ver o quanto você aguenta do ruim para esperar um futuro melhor.

Ano bíblico

Tem um filme dos irmãos Coen, “Um Homem Sério”, que menciona o tempo inteiro um capítulo da Bíblia. É a história de Jó. Ele era um homem sério e um dia Deus aposta dizendo: se eu tirar tudo dele, será que ele ainda vai acreditar em mim? Ele fica doente, perde a mulher, depois todo o dinheiro. E 2015 vai ser a história de Jó. Você tem Deus conspirando contra o Brasil: não dá agua, não tem energia, os preços das commodities estão caindo, o governo aperta em 2% do PIB… Mas vamos estar mega otimistas porque 2016 vai ser melhor! Estou vendo que vamos viver o nosso ano bíblico.

Preços errados de ações e do real

Eu olho os preços dos ativos brasileiros e penso em manter estratégias principalmente nos preços que estão errados, que são os das ações e o do câmbio. Como a gente nunca sabe o que vai acontecer, a grande questão é ver o que está no preço. Na história do Verde, pegamos seis ou sete vezes um salto de mercado negativo e duas vezes um positivo. Quando o Lula ganhou, em janeiro de 2003, com o risco Brasil em 2 mil pontos, o dólar a R$ 4 e a bolsa em 10 mil pontos, eu disse: bem, vou dar o benefício da dúvida. Essa era uma tremenda oportunidade de pegar um ‘upside’. Agora, não é que eu acredito zero que isso [as mudanças econômicas] vai dar certo. Evidentemente eu estou muito mais feliz com o Joaquim Levy do que estava antes, mas eu olho preços relativos. Talvez se o Ibovespa estivesse em 30 mil pontos e o câmbio em R$ 4, eu não estaria falando isso.

Vendido em bolsa

Acho que esse desafio de expectativa versus realidade vai ser dominante neste ano no fronte doméstico. E continuo achando que os ativos estão precificando somente o lado bom disso. Tinha uma posição de venda do Ibovespa em dezembro, mas acabei zerando por conta do efeito Rússia. Agora estou reabrindo, mas via uma estrutura de opções, assim como o câmbio. É um seguro, com risco de capital delimitado. Às vezes me sinto quase um antipatriota, porque vou lucrar se o Brasil for mal, mas, no limite, acho que o mercado está se posicionando com excesso de otimismo. Quer dizer, levou 20 anos para chegarmos a um PIB zero e um déficit nominal de 6,5%. Precisa de reformas profundas e elas não são nada fáceis de serem feitas, porque mexem nas estruturas trabalhista e tributária.

Poucas empresas eleitas

Tenho uma posição de uns 5% do patrimônio comprado em ações, mas hedgeada [protegida]. Então diria que minha exposição em ações no Brasil está mais ou menos zerada. Obviamente em toda mudança de matriz econômica você tem ganhadores e perdedores, mas, honestamente, se a indústria brasileira não renascer e não ganhar um pouco de competitividade, vamos ter sérios problemas. Nesse modelo existente no Brasil, que criminaliza o empresário, quem vai dar emprego no futuro?

Se Jó perder a esperança

Como o Banco Central continua vendendo swap, está dando um certo suporte ao câmbio. Além disso, o que muito me surpreendeu, saíram dados inesperadamente ruins dos Estados Unidos, que poderiam levar o Fed [Federal Reserve, o banco central americano] a demorar mais para subir o juro. Isso dá um pouco mais de suporte às moedas de mercados emergentes. Mas isso não vai resolver nosso problema, porque, com um câmbio em R$ 2,60, vamos fazer um déficit em conta corrente de 4% ou 4,5% neste ano. Estou me posicionando para um dólar muito mais apreciado, mas com risco limitado, acima de R$ 3 se essa equação bíblica não for bem-sucedida. Quer dizer, se Jó perder a esperança em Deus.

Sem juro na estratégia

Eu não tenho grandes teses de investimento em juro. Estou hoje mais focado em eventualmente pegar um grande estresse da bolsa para baixo e na depreciação do real. Porque, no limite, se as coisas não forem bem, uma depreciação do câmbio resolve. Se o câmbio deprecia um monte, naturalmente um produto importado do México ou da Coreia vai ficar mais caro. Você dá uma sobrevida à indústria nacional e põe de volta no lugar o nosso custo unitário de trabalho, que é altíssimo para qualquer padrão do mundo.

País não vai quebrar

É muito melhor você ter o equilíbrio virtuoso, mas se o equilíbrio virtuoso, que é com reformas, não der certo, o vicioso sempre resolve, que é mais inflação e mais depreciação [do câmbio]. Então quando eu digo que sou pessimista, não digo que o Brasil vai quebrar, longe disso. Ele vai para o equilíbrio vicioso.

Duplamente pessimista

Independentemente de eu ser gestor do Verde, de ver o risco/retorno, [se quiser saber minha opinião] só como um ser pensante, de fato eu acho que vai dar errado mesmo [o atual modelo econômico]. Porque acho que são necessárias reformas muito profundas, independentemente de eu me sentir antipatriótico. Me sinto péssimo falando isso, mas acho que não vai dar certo. Embora eu ache ‘que bom, valeu, foi uma boa tentativa’.

Quem não erra?

Posso estar errado? Óbvio. Quem previu em 2 de janeiro do ano passado, com a Treasury a 3% e o petróleo a US$ 100, que o ano ia acabar em 2% e US$ 50? Nunca imaginei que a Dilma fosse colocar alguém como Levy. O Ministério da Fazenda é o coração do governo. Você tem um orçamento limitado, e agora mais limitado do que era antes, e sofrendo todas as pressões. Não é uma coisa trivial quando você dá o coração do governo a alguém que pensa estruturalmente diferente.

Modo ‘light’

Até vejo gente muito inteligente e boa, como o Henrique Meirelles ou o Luis Carlos Mendonça de Barros pensando radicalmente diferente de mim. Se eu tivesse certeza do que eu estou fazendo, não ia fazer uma posição de opção de índices. Faria um negócio muito mais forte, o que não quer dizer que eu não possa fazer, dependendo das circunstâncias. Mas hoje eu estou obviamente com medo de ser atropelado por essa onda de otimismo. Por isso, eu tenho que fazer um negócio ainda light.

Quando o bem triunfa

Acho que a principal questão agora é olhar mesmo essa história de correção do modelo e [até] quanto as expectativas aguentam. E onde as expectativas triunfam? Se todo mundo que produz resolver aumentar a capacidade, aumentar a produção, ou abrir mais lojas, acreditando num futuro melhor, apesar da conjuntura ruim, isso é relevante. Aí significa que o Joaquim Levy vai ganhar. Existe obviamente essa possibilidade.

Desempenho passado

Em 2012 e 2013, executamos maravilhosamente bem. Em 2014, não diria que o ano foi ruim, só foi sofrível, [o Verde] deu um pouquinho abaixo do CDI. Mas em termos de economia brasileira, pelo menos, aconteceu tudo aquilo que a gente sempre achou que ia acontecer, desde 2010. Naquele ano, escrevi um texto no relatório do Verde chamado “Moto-Contínuo Tropical”, em que disse: isso aqui vai dar muito errado. Às vezes você pode estar certo e executar errado, mas faz parte da vida. Teve gente no ano passado que executou melhor do que eu, mas acho que a gente estava certo mesmo.

Um 2014 para esquecer

Acho que um dos momentos piores da história do Verde foi o ano passado. Não consigo me lembrar de uma época pior, embora obviamente a memória esteja mais fresca. Existem outros momentos de sofrimento, mas não com essa magnitude e tempo. Primeiro pela questão do dólar. Quando a Treasury caiu de 3% para 2,5%, o dólar enfraqueceu no mundo e estruturalmente isso foi contra a nossa tese. E segundo pela questão eleitoral. Eu achava que a Dilma tinha 90% de chance de ganhar e o mercado chegou a precificar a Marina com 90%. O pior sofrimento como gestor é quando os mercados vão contra o que você acredita.

Fonte: Valor Econômico
Foto: Silvia Costanti/Valor/Folhapress
Postado por: Raul Motta Junior

Confiança na equipe chega aos ativos

previdencia_9ec7ab67-4b02-4e25-95f8-5310f2abea18_427_274

A equipe econômica do segundo mandato foi nomeada há 50 dias. O mercado financeiro aplaudiu a escolha da presidente Dilma Rousseff, mas com reservas e sem transferir, de bate-pronto, qualquer entusiasmo para os preços dos ativos financeiros. E, se tentou, não conseguiu. Nos últimos 50 dias, o mercado foi atropelado por uma série de eventos domésticos e internacionais que interferiram pouco a pouco na formação das taxas de juros e de câmbio. A bolsa brasileira repercutiu decisões – e indecisões – políticas e incorporou um universo paralelo com o desenrolar da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, sobre denúncias de lavagem de dinheiro e corrupção na Petrobras.

O estresse vivido pelo mercado teve primordialmente justificativas externas, mas as internas não foram em nada desprezíveis. O tombo do preço do petróleo no mercado internacional, com o barril passando a valer US$ 50, a metade do preço de meses antes, foi um desses componentes. A expectativa – e especulações daí decorrentes – de que o encontro do comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de dezembro poderia formalizar um horizonte de tempo para a elevação da taxa básica de juros nos EUA colocou os investidores em polvorosa.

O ruído só cresceu com a constatação de que persistem, ou até se ampliam, os desequilíbrios entre as grandes economias.

A probabilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) brasileiro elevar a Selic em 0,75 ponto percentual no encontro previsto para este mês, dias 20 e 21, chegou a 100%. O DI Janeiro 21, referência de atuação de investidores estrangeiros no país, colou em 12,60%. Quase ao mesmo tempo, o mercado cambial jogou o dólar acima de R$ 2,73, inseguro quanto à continuidade do programa de swap cambial em 2015 e quanto à composição do Ministério do 2º mandato, dada a hesitação demonstrada pela presidente em nomear os titulares.

No fim do ano, de pressões frequentes no mercado cambial, a curva de juros (as taxas projetadas ao longo dos vários vencimentos) na BM&FBovespa ainda exibia elevada probabilidade de o Copom pesar a mão agora em janeiro. Quando o economista Nelson Barbosa tomou posse no Ministério do Planejamento – e com a certeza de que o BC manteria o programa de intervenção cambial – o mercado ainda bancava 70% de probabilidade de alta da Selic em 0,75 ponto. A aposta mais forte refletiu também o mercado em alerta, após a trapalhada federal em torno da mudança no reajuste do salário mínimo.

A revisão dos prêmios embutidos nos juros foi incentivada pela repercussão do discurso de Joaquim Levy na cerimônia de posse, quando disse muito sobre a importância do Estado como patrocinador de bem-estar para todos e defendeu uma política fiscal conservadora. No dia seguinte descia a 40% x 60% a probabilidade de o Copom elevar a Selic, respectivamente, em 0,75 ponto ou 0,50 ponto.

Nesta semana, a segunda do novo mandato de Dilma, as declarações feitas por Levy a jornalistas empurraram ainda mais a probabilidade de a Selic sofrer um choque. Ontem, a chance de o Copom ser mais agressivo no ajuste da taxa já estava em 16%. O DI com vencimento em 2021 encerrou o pregão a 12,08% ao ano, em queda de 0,50 ponto em cerca três semanas. O dólar fechou a R$ 2,63.

As apostas no comportamento do BC e nas decisões sobre o juro incluem certamente projeções de indicadores. Entre eles, inflação, câmbio e atividade. É inegável, porém, que a postura assertiva de Levy já faz diferença para quem calcula o valor do Brasil. Mas não é demais lembrar que o segundo mandato de Dilma tem apenas 14 dias.

Fonte: Valor Econômico
Postado por: Raul Motta Junior